EIA_74.77 _Encontros Internacionais de Arte. Mudos vultos de um tempo vivenciado

António Barros, EIA_74.77 _Encontros Internacionais de Arte. Mudos vultos de um tempo vivenciado

António Barros, testemunho para Tese de Mestrado de Caroline Comin Silva. [Texto]


Testemunho de António Barros para Tese de Mestrado em História da Arte Contemporânea, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa: A Performance Art como intervenção nos Encontros Internacionais de Arte (1974-1977), de Caroline Comin Silva, com orientação de Sandra Vieira Jürgens.


A. Para além da representação, reflexos consequentes – O “Objecto” como Poesia de Acção

Os lugares dos comportamentos performativos no arco temporal 1974-1977, em Portugal, comungam de uma experiência singular que fez história na história da arte contemporânea. Sinalizaram-se assim esses modos galvânicos como Encontros Internacionais de Arte, formulando para a cultura do lugar uma realização severamente consequente.

Testemunhei momentos diversos, e a acção de diferentes personalidades, hoje referências únicas na construção dos desígnios da Performance Art internacional, e que formularam tanto destes Encontros. Mas também na construção de uma identidade própria no meu percurso de arte.

Surjo então, nesta contextualidade, numa actividade conjugada com as operações criadas a partir do CAPC_Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, parte integrante da Academia, ágora cultural sediada na órbita da Universidade de Coimbra _ e onde o CAPC surge sinalizado como Círculo. O Círculo.

As presenças participativas do Círculo de Coimbra geravam, a seu tempo, e de modo distintivo, condições, na dominante das situações, hermenêuticas. Interventivas até, não de condição espectadora, pois um dos desígnios desta comunidade artística era o de agir convulsivamente. Fora da moldura. Sem ser apenas um mero observador, mas sempre nesse desígnio de fazer jus à assinatura de Franz Fanon quando nos enuncia que todo o espectador é um cobarde, ou um traidor.

As contaminações assumidas como dignas de referência na minha linha de acção foram, mormente, as que então transportavam compromisso sensível com uma arte sociológica, na senda do Movimento Artístico Internacional Fluxus, e entre nós, resgatado muito na geografia da IV, e última, edição dos Encontros Internacionais de Arte nas Caldas da Rainha, 1977. [Foram as anteriores edições: a III na Póvoa de Varzim, 1976; a II em Viana do Castelo, 1975; e a I em Valadares, 1974].

Nessa plataforma de vivenciação, a dos IV Encontros Internacionais de Arte, acompanhei o genuíno trabalho, exploratório, de objectos urbanos em diagnóstico, sinalizados, na sua própria obra, por Robert Filliou como toda uma “Poesia de Acção” gerada enquanto “Maestro de Acontecimentos”. Privei das suas experienciações num visual debate de emoções e partilha de ideias em construção com o envolvente humano aí residente.

Assim, ao abordarmos hoje Filliou, é digno de referência o “1.000.011 Aniversário da Arte”, programa_ideia de Robert Filliou, surgido em Portugal numa proposta ao CAPC por José Ernesto de Sousa, em 17 de janeiro de 1974. Fórmula revisitada em 2017, tempo onde gerei a performativa artitude “Aula Vaga“, para o “1.000.051 Aniversário da Arte”.

O historiador Jorge Pais de Sousa, na edição de 2019 do “1.000.056 Aniversário da Arte”, para o CAPC, proporcionou-nos uma leitura oportuna de consulta obrigatória para o entendimento desta conjugação tripartida [Filliou_Ernesto_Círculo]. Mas Filliou, na verdade, nunca foi ao CAPC. Nem mesmo a Coimbra. Fez-se comunicar a distância, e muito nas contaminações geradas que também procurei sinergisar.

Em igual temporalidade, e na procura de texto para além do acaso, do comportamento, e das atitudes estruturalistas, e mesmo performativas então em convulsão, surge, nestes mesmos IV Encontros, Serge III Oldenbourg, para quem criei a peça “Sociológica” – texto visual cujo original inscreve hoje a colecção do Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves.

A criação singular de Serge III Oldenbourg, é obra que ousei ilustrar publicando como referência, e a merecer aturado estudo, num dos livros que assumi [“John Cage, Música Fluxus e outros gestos da música aleatória em Jorge Lima Barreto”, livro editado em 2013, apresentado na Casa da Escrita, em Coimbra, pelo compositor e músico Emanuel Pimenta, que acompanhou Cage no seu percurso]. Nesta territorialidade, e ainda na convulsiva experienciação Fluxus, conjuguei também performatividades na SACOM2, em Cáceres, com Juan Hidalgo Codorniu ao fundo, esse singular autor conceptual da música contemporânea na Arte Zaj.

Neste mesmo alinhamento de sentido, de cunho Fluxus, surge também Joseph Beuys. Procurei-o no seu ateliê em Dusseldorf, e ofereci-lhe o catálogo do CAPC (edição bilingue) “Dois Ciclos de Exposições: Novas Tendências na Arte Portuguesa e Poesia Visual Portuguesa”, obra curatorial que realizei em conjugação com Alberto Carneiro no fim dos anos setenta.

Na minha razão exploratória de percurso gerador, e também na senda Fluxus, foi com Wolf Vostell que vim a ter um trabalho mais cúmplice, e continuado, desenvolvido em Leverkusen, e em Cáceres. Chegou mesmo Vostell a visitar a minha exposição de “Poesia Visual” no CAPC, em Coimbra, em 1979 (depois de apresentada em Lisboa, na Diferença, a convite de José Ernesto de Sousa). E, já antes, Vostell fizera inscrever na sua colecção de Arte Contemporânea duas obras de referência que assino (“Escravos“, e “Revolução“) presença com exemplares hoje residentes no Museo Vostell Malpartida, em Cáceres, Espanha; e no Museu de Serralves, no Porto.

Os Encontros Internacionais de Arte galvanizados por Jaime Izidoro e Egídio Álvaro foram, e como aqui se infere, realidades consequentes. E não apenas no que resultou da construção da Bienal Internacional de Arte de Cerveira, a partir de 1978, iniciativa ainda hoje activa e geradora de Museu, parte integrante da Fundação Bienal de Arte de Cerveira.

Participei nesta Bienal a partir da sua III edição, em 1982, onde apresentei a peça “Algias, NostAlgias“, obra da primeira geração da denominada arte da instalação, e que antes tinha exposto em Lisboa na Fundação Calouste Gulbenkian, e em Coimbra no CAPC. Com a obra “Ex_Patriar” venho a ser premiado, em 2013, na 17a. edição desta Bienal. Peça hoje na coleção do Museu desta Fundação onde se inscrevem outras obras minhas: “Portugal no seu melhor” e “Artitude:01_Razão para Projectos & Progestos“.

Mas, e no contexto das contaminações visivelmente surgidas, o processo não se esgota nos referentes fornecidos. Temos outros exemplos que são alvo de sinalização. O colectivo Artitude:01, com a edificação gregária de uma comunidade artística operativa, quis também suceder, e o simpósio de arte Projectos & Progestos aí fez-se enunciar como uma referência genuína e proliferativa.

Ao Egídio Álvaro, bem mais tarde, em 2014, visitei-o na sua casa em Paris para o fazer integrar na minha escultura social “Andante“. Toda uma subtil forma de elegia a um dos críticos da AICA_Associação Internacional dos Críticos de Arte mais dinâmicos, agente gerador de ágoras para a arte no Portugal dos anos setenta. Foram ousadias criadas, a seu tempo, paralelamente à acção sempre nevrálgica de José Ernesto de Sousa, num diálogo estruturante da Performance Art em Portugal, e em que os Encontros Internacionais de Arte tiveram vigoroso modus fundacional. Um exemplo a re_ter.

B. Referentes enunciados, desígnios de pessoas reais – O “Corpo” na floresta solta-se da “Casa”

A primeira edição dos Encontros Internacionais de Arte, em 1974 decorreu em Valadares, na carismática “Casa da Carruagem”, local onde fui amavelmente recebido mais tarde pelo Jaime Izidoro. Dessa edição mereci, através de Alberto Carneiro, elucidativas narrativas das múltiplas experienciações aí desenvolvidas.

Havia nesse contexto, nesses tempos únicos, toda uma dimensão anímica gerada fundamentalmente pela nova temporalidade política em tempos de democracia. E toda uma ânsia de libertação a exorcizar as dolorosas cinco décadas de fascismo. Todo um olhar o mundo e trazê-lo até nós, porque antes tão proibido.

Alberto Carneiro encontrei-o no Círculo, em Coimbra, onde este assumia funções pedagógicas. E além das artes, os domínios educativos, e de ensino das artes, foram muito das nossas conjugadas preocupações e trabalho continuado. Chegámos mesmo a criar a OIC_Oficina de Interação Criativa, no alinhamento às disciplinas de Intercriatividade que convenci o Alberto Carneiro a dinamizar no Círculo, quando, juntos, assumimos a Direcção do CAPC [Ano de Atividade 1979-1980], galvanizando uma reformulação da estrutura.

O CAP (Círculo de Artes Plásticas), que era uma Secção Cultural da Associação Académica de Coimbra, emancipa-se, e ganha então uma nova personalidade jurídica como Organismo Autónomo da Academia de Coimbra, com a marca nominal de: CAPC_Círculo de Artes Plásticas da Academia de Coimbra. Foi nesse contexto, e Ano de Atividade, que organizámos a iniciativa “Dois Ciclos de Exposições: Novas Tendências na Arte Portuguesa e Poesia Visual Portuguesa“.

Nessa mesma temporalidade galvanizaram-se, para além de inovadores modelos pedagógicos, novas áreas de trabalho, como a criação de um Centro de Documentação Artística; e um activo propósito da edificação futura de um Centro de Arte Contemporânea, gerando, para isso, uma Colecção de Arte, património do Círculo, e que mereceu logo múltiplos presenteamentos de diversos artistas como foi o caso do Wolf Vostell. Um processo continuado, e hoje em curso, tendo recentemente merecido o CAPC a oferta para a sua colecção de uma obra minha, a instalação: “AutofA(l)gias_Gelo Real_Vestígios“.

Será excessivo afirmar que estes referidos tempos de mudança no Círculo foram consequência das experienciações geradas nos Encontros Internacionais de Arte, mas é verdade que a “Casa da Carruagem” foi um exemplo proliferativo, e galvanizador de novos modelos das práticas comunitárias e artísticas. Um exemplo, múltiplas vezes referido. Talvez genomático, mesmo. E que os novos tempos socializantes que então se viviam, de modo anímico, tanto convocavam.

Alberto Carneiro partilhou muita da sua investigação comigo, e muitas eram as vezes que os Encontros Internacionais de Arte resultavam pautizadores, inscritos no mapeamento do que mais significativo se realizava no país.

A convergência dos lugares ágora, e o exercício da partilha, norteavam quanto era urgente comungar na/com a arte. E os diferentes modelos surgiram a fazer-se gerar sempre numa alegoria dos tempos novos, e como eles convocavam uma Educação da Sociedade, em Arte.

O que estes modos tiveram de consequente nas artes da Performance, é também matéria que merece singular referência e, nessa contextualidade, o Círculo foi uma plataforma de lançamento de diferentes experiências performativas. Com marca nominal de “CORES” o GICAPC_Grupo de Intervenção do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (que integrei com Túlia Saldanha, Rui Orfão, Ção Pestana e Armando Azevedo, entre outros, colectivo com presença nos EIA_IV); o Grupo Puzzle (nascido a partir de anteriores elementos do Círculo – João Dixo, Albuquerque Mendes, Armando Azevedo e Fernando Pinto Coelho); e o Artitude:01 (que criei e integrou, entre outros, Rui Orfão e Isabel Carlos, e aí se fez gerar um simpósio tão vocacionado para o estudo das artes da performance – o “Projectos & Progestos”).

Mas hoje, ainda hoje, continuo com a grande convicção de que o Alberto Carneiro foi um dos pioneiros da Performance Art em Portugal. Nome maior nesta área artística, a quem junto Jorge Molder, e mormente Helena Almeida, essa singular autora que fui a Lisboa buscar para expor no Círculo a obra: “Ouve-me, Vê-me, Sente-me” [AA79-80, 2-16 fevereiro 1980, catálogo CAPC].

Encontros outros, muito depois e consequentes aos Encontros Internacionais de Arte, foram também aqueles que formularam a maior exposição retrospetiva da obra de Alberto Carneiro em Coimbra: “Alquimias, dos Pensamentos das Artes_Encontros de Arte, Coimbra 2000″, (realização onde assumi a diretoria). Encontros estes, sublinhados como uma elegia a Alberto Carneiro – esse criador que dedicou tanta da sua vida, mormente a de índole pedagógica, a Coimbra, e de modo tão genomaticamente galvanizado nas suas origens. Origens que também cruzaram com os Encontros na “Casa da Carruagem”.

Ao falarmos de Encontros, falamos de Alberto Carneiro, e de como obriga resgatar as origens. Origens onde os Encontros Internacionais de Arte, EIA_74.77 serenamente residem.


Para ilustração deste breve depoimento junto uma foto de Egídio Álvaro na escultura social “Andante”.


[Agradecemos a António Barros, Caroline Comin Silva e Sandra Vieira Jürgens a autorização que permitiu disponibilizar esta documentação no Arquivo Digital da PO.EX]