preSente auSente

preSente auSente

Imagem e Texto de António Barros para performance de corpo auSente no MUDAS. [Imagem. Texto]



Dizia a Mercedes Olivenza, obsessivamente, para conhecer Vostell obriga primeiro conhecer Goya, os seus “Desastres de Guerra”. Vostell também criou peças com esta titulação. Será ousadia certamente, mas sinto-me por vezes tentado a dizer que para conhecer o meu trabalho, para o entender, obriga conhecer primeiro Wolf Vostell. Passo a pretensão, mas como retrato dos tempos é difícil cada um gerar uma escrita que escape aos desastres de guerra do seu tempo. Também construímos muralhas para esconder os desastres. Os nossos segredos de guErra. O que erra em nós. E a arte é cúmplice. Sempre cúmplice.

Foi o meu amigo, o poeta Joaquim Namorado, nome ímpar do neo-realismo português, que editou em Portugal os “Desastres de Guerra” de Goya, e fez questão de me oferecer. Mas fiz silêncio perante Mercedes e segui com Vostell sem complexos, sem medo de contaminações.

É na hora do lobo, na alvorada, que a Serpente na astrologia chinesa está na sua frescura e lucidez. Sou Serpente, signo bem respeitado na Ásia, e é esta a hora de Bergman. É a minha hora. E o tempo certo, o único, em que eu poderia falar com os outros. Me fazer comunicar. Dizer. Conversar comigo. Entrevistar teria de ser a esta hora. Sempre. A própria abertura de um evento ou acto público seria a esta hora. Gestão difícil. Pouco ou nada aceite, e foi assim, e por isso, que inventei. Vi-me obrigado a inventar, a performance de corpo ausente. Novos e outros gestos distintivos.

A hora do lobo é nocturna mas é uma alvorada. Alvoro. E é essa a minha marca. Nominal. Figurativa. Esse sempre “Começar” que nos deu Almada. Sempre a começar para um dia outro. Essa frescura. Esse escuro noite que se revela em luz. Esse nascente tempo de ser. Para ser. Alvoro. Bandeira.

Transformo o que me veste em bandeira, e a bandeira vestindo-me no braço erguido da árvore resiliente que nos suporta e se suporta em nós. De pé. PreSente. Levantando-se. No cume. Em aguda proa. A noite, tantas vezes elástica, parece esquecer do dia fazer nascer. Há o medo. Sempre um medo. Mas que se esconde. Escondemos escondido no esconder. O medo. Feito arte. O medo sem medo. Esse sem medo que só a arte permite. Esse alvoro.

Vou erguer uma bandeira. No cimo de um braço. Para dizer. Dizer-me. Em alvoro.


V(l)er tb >