A descentração do código linguístico e a Copy-art

Fragmento de poema visual de César Figueiredo

Texto de Estela Rodrigues sobre poema visual de César Figueiredo. [Texto. Ligação]


Descentrando-se da exclusividade linguística, autores como António Aragão, António Dantas e António Nelos fundiram as linguagens verbal e icónica, desenvolvendo projectos de Electrografia e Copy-art com diferentes instrumentos e tecnologias.

César Figueiredo, embora não pertencente à geração da PO.EX 60-80, nas suas experiências poéticas recorre à fotocopiadora não só como instrumento de reprodução, mas de refuncionalização. Nos seus artefactos bidimensionais, usa a fotocópia gerando novos sentidos intermediais, mobilizando procedimentos criadores e reflexivos sobre a verbalidade, visualidade e tipografia; sendo a fotocópia uma imagem, reverte para original o que já não o era.

No seu trabalho de copy-art “[só a imaginação transforma]” (1983), inicia o poema-texto por uma expressão legível: “grão-mestre herdeiro dos Correios para os Países Baixos, executor de”. A partir da primeira translineação, quase nada se traduz.

É uma peça artesanalmente entretecida com os únicos dedos, sem pente liço, sem “navete”, na urdidura de papel 12 x 20 tipografado e fotocopiado, pronto a receber fitas de texto tão finamente cortado que se lhe perde o código… E vai tecendo com a paciência de quem transfigura a escrita do vagar.

Sem anulamento, sem paródia, sem estilhaço, só a delicadeza gestual que lhe merecem os fragmentos léxicos, morfemas incompletos, pontuação perdida num tear assintaticamente ideogramático. Tapeçaria consistente, portanto. Mãos precisas, frágil o papel, sem um único rasgão.

Um alfabeto analfabeto, um poema-gesto num minimalismo de grafemas impressos, quase sempre minúsculos, despenteados, com e sem serifa, alguns inclinados, outros, invertidos, levam a reposicionar o papel ou uma ligeira rotação da cabeça. Tímidos os algarismos: o 15, o 19, o 400… sem ordem, sem motivo; o A3 vestígio de tipografia ou do acaso tal como o “m” que se insinua quatro vezes pelo tamanho.

Quase tudo assémico, ilegível, intraduzível, outra linguagem na mão de quem a trabalha, nos olhos de quem a repara com minúcia, de quem lhe quer passar os dedos pelo entrançado (poema-táctil), sem trapaça, sem cola, sem agrafos. Ao centro, uma fita mais saliente expõe-se em maiúsculas negras, aberta a múltiplas leituras, indiciadas pela distinta troca do F pelo T onde grafema e fonema se encontram, onde o verbal e o icónico se (con)fundem – “SÓ A IMAGINAÇÃO TRANSFORMA. SÓ A IMAGINAÇÃO TRANSTORNA”. Seguindo a leitura convencional de cima para baixo e da esquerda para a direita, pode ler-se na última linha com algum esforço: “acontecera a todos que conhecia, receava um pouco pela sua segurança”.


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