TRUST ART | GÉNESIS 2:21

TRUST ART | GÉNESIS 2:21

Texto de António Aragão para duas instalações de António Dantas na Porta33. [Texto. Cartaz. Ligações]


Cartaz de IMPRESSÕES >


TRUST ART | GÉNESIS 2:21, por António Aragão

Os dois trabalhos que ANTÓNIO DANTAS denominou respectivamente de “Trust Art” e “Genesis 2:21” comportam-se segundo a profundidade dolorosa de um estigma primordial que mergulha as suas raízes em buscas alucinantes. São instalações recriadas na violência do que resta do “eu”. Obras efémeras que rompem da evidência imperecível do espaço.

Sabemos quando pelos anos 70 e 80, a partir da avassaladora pujança das artes plásticas, um outro “environment” espacial usou novas adições e procedimentos e praticou em espaços alternativos. Armazéns ou fábricas, a busca pós-modernista de uma outra diferença, afastando-se dos canónicos padrões de criatividade.

ANTÓNIO DANTAS serve-se também do princípio condicionado da instalação para expressar os seus paradigmas e os seus veementes fantasmas cuja eficácia nasce duma simples mas convicta margem de evidência. E, sublinhe-se que a instalação brota, em sentido genérico, duma ideia ou surge como proposta sem rígida definição. Pode ser apenas um grito, a profundidade dum pensamento, um gesto aparentemente incompleto ou sem imposta definição: pode ser isso ou mais alguma coisa. Sobretudo existe uma procura que rompe as amarras de pendor formalista, ou seja, que se afasta de qualquer hierárquica situação tradicional. Pode ser mesmo o braço antes do abraço ou a prece antes da religião. Sem dúvida que a instalação não aparece por obra e graça do espírito santo. Nada disso. Ela apenas mergulha a sua condicionalidade onde mais lhe convém ou seja noutra imparável convicção.

Claro que também podemos referir a existência de convictos antecedentes como fontes deinspiração. Sem dúvida. E temos aí o futurismo ou o dadaísmo, o construtivismo ou ainda a “minimal art” entre outras manifestações artísticas como a “pop art” conforme lembrança conceptual. Pendendo mais para uma determinada vertente do que para outra, a instalação instala-se sem receio e indiscrição. E assistimos sem restrições à combinação de meios e uso de elementos díspares como, por exemplo, objectos fotográficos, projecções fílmicas; construções escultóricos ou cenográficas, onde a audio e o video fazem a sua aparição desassombrada como no caso da proposta de ANTÓNIO DANTAS. Assim, numa certa interacção que não exclui um determinado monumentalismo surge, por vezes, uma atitude espectacular que saboreia o próprio espectáculo como um todo imanente. Por outro lado, o tecido cultural das instalações internacionaliza-se, isto é, afasta-se da situação geopassadiça das culturas nacionais para ir muito mais longe.

Realmente o homem busca outra face, outro rosto, que julga mais exacto na subjacente emanação. Se acredita é para ir mais distante até ao fundo de toda a sua crença, mesmo que esta não ultrapasse o carácter de uma negação. ANTÓNIO DANTAS mostra o que faz e basta-lhe. Fica por aí. Até parece que o seu processo de comunicação rejeita toda a transcendência. De facto, assim o homem acaba mesmo onde parece querer começar. Apetece sublinhar que o conceito de arte transformou-se sempre através dos tempos. Porém, o prazer de usufruir um diverso dado estético é datável, tal como se passa com as belas instalações de ANTÓNIO DANTAS. Daqui a sua perenidade. A sua valência. A sua ductilidade. Muitas vezes apenas permanece a descoberta numa promissora mutabilidade de valores artísticos ou culturais. Ou, um tanto mais do que isso, uma técnica, um estilo ou tendência. Assiste-se de um modo geral, nas instalações, ao procedimento não canónico da forma num dado espaço, a qual, em lugar de elementos tradicionais, associa-se à inovação lançando mão de diversos meios criativos de representatividade. De facto, na “Trust Art” como em “Genesis 2:2.1”, ANTÓNIO DANTAS experimenta nova substância formal entendida como o objecto artístico do “corpóreo”.

No primeiro exemplo dá-se a consumação da face, ou seja (pergunto) do princípio do conhecimento? E, no segundo caso, onde tudo parece reduzir-se ao movimento do corpo e à instabilidade das roupas, cada imagem aponta para a violência do desespero?

Sobretudo em “Genesis 2:21” uma dada limpidez impõe-se sem fábulas nem hesitações. E, neste último caso, a temática é simples. Trata-se do próprio autor que se despe, que se afasta dos lugares comuns às suas roupagens obsessivas e permanece finalmente nu, despido de toda a retórica sem antes nem depois. António Dantas demonstra assim que começa e acaba em si mesmo. Nada mais interessa para satisfazer a sua dignidade humana. Em si mesmo reside o único privilégio que lhe resta — estar conscientemente vivo e respirar, como se o mundo conturbado em que vive já não servisse para qualquer reencarnação. E a dádiva do seu coração lá está persistente e palpitante de infinito como se a diástole e a sístole dos seus movimentos não servissem senão para deixar de existir quando quisesse conforme a eficácia dolorosa de coisa nenhuma.

O monitor vídeo em que o coração se encerra, veemente e constante, guarda ciosamente a vida que pulsa latejante numa imparável persistência de existir. E ouve-se, através de cada diástole e de cada sístole, o ruído sobejado do coração que, numa constância desesperada, pretende querer ser o próprio Ser. E ANTÓNIO DANTAS reafirma um espaço nu onde flutua determinada súmula balética dum esperado horror. Por sua vez, ANTÓNIO DANTAS entroniza-se na dor que expressa em cada gesto de despir-se. Trata-se de facto do calvário da própria dor servida pela anatomia do corpo e das roupagens. Então as imagens laser (electrografia) resultantes de sistemas interactivos, associados ao monitor vídeo oferecem uma representação cenográfica acabada.

E apetece perguntar: trata-se de um baile diabólico nascido na recente recusa de estar vivo para em seguida morrer? Ou pior ainda, será um bailado impenitente onde se morre bailando para se continuar vivo morrendo?

[António Aragão, Ilha da Madeira, Março 1996]


Fonte > PORTA33: ANTÓNIO DANTAS 1993—2000


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[Agradecemos a António Dantas e à Porta33 a autorização que permitiu disponibilizar esta entrada no Arquivo Digital da PO.EX]