O ponto originário

António Barros, O ponto originário

Texto de António Barros sobre ‘Tal como a chama’ – Estudos das narrativas do comportamento e Objectos de Representação. [Texto. Ligações]


“O acto de se transcender a si próprio é, por toda a parte o acto supremo – o ponto originário – a génese da vida. Tal como a chama, que é um acto semelhante” (Novalis).

Recordo de uma história contada, afro-carnívora e que me chegou por Herberto Helder, uma imagem que me acompanha em múltiplas visitações:

“A história carnívora foi colhida algures, de leitura, e respeita a uma tribo que sepultava os mortos no côncavo de grandes árvores. As árvores, a que tinham dado o nome do povo: baobab, devoravam os cadáveres, deles iam urdindo a sua própria carne natural. Pelo nome tirado de si e posto na alquimia, a tribo investia-se nas transmutações gerais: a morte levava o nome, e o nome, activo e tangível, crescia na terra. Emocionam-me a fome botânica e o triunfo das copas, o empenho tribalmente mágico, regrado pelo insondável entendimento das metamorfoses da carne no esquema orgânico da matéria. E apanho aqui o símbolo uma imagem de si mesma, uma imagem absoluta, universal, devora esta gente, e esta gente põe a assinatura na imagem devolvida ao mundo. É quase tudo quanto há para dizer no plano prático da poesia” (1).

Ora hoje, e partindo de uma reflexão, de Patrick Baudry, vivemos numa sociedade na qual a morte, aceite sem condições, se encontra integrada no dinamismo social de parceria com uma ‘negação da morte’ (Thomas). Uma tal sociedade é mortífera.

“É sob a aparência de vitalismo que as práticas mais mórbidas, podem aí apresentar-se e desenvolver-se. A urgência da “performance”, a competição desenfreada, na qual o inimigo principal se torna ele próprio, a superação de si e dos limites. O culto do ‘esforço profundo’ difundido por inúmeros media (revistas, publicidade, programas de televisão), a confusão mais uma vez que se dá entre a vida e a morte, o gozo e o sofrimento – tudo isto marca em massa a nossa sociedade contemporânea. Assim é bastante difícil acompanhar a tese do ‘vazio social’ e da ‘inflexão corporal’: é muito mais um corpo rebentado que se mostra e pertence ao domínio da provocação social. Na ausência de ritos – articulando a pessoa com o limite comunitário da morte, assegurando a transmissão dos primogénitos e abrindo a perspectiva da filiação – intensifica-se a angústia da morte. E se os comportamentos mais mortíferos se multiplicam numa sociedade desritualizada, não é uma contradição. Mas talvez seja necessário compreender que são estes comportamentos suicidas que vêm no lugar de ritos colectivos, nomeadamente iniciáticos, que cruelmente faltam hoje.

Numa sociedade em que o corpo deixou de ser o suporte de uma pessoa (persona: máscara), mas se tornou no todo de um indivíduo, uma sociedade em que ‘eu sou o meu corpo’, é o mesmo corpo inteiro que se empenha em comportamentos de risco num jogo múltiplo com os limites e, nomeadamente o da morte (2).

É assim que podemos concluir que “depois de uma imagem de equilíbrio entre o corpo e a alma, de uma ‘mens in corpore sano’ e de um ideal platónico em favor do espírito a libertar do encarceramento corporal, o nosso tempo parece pretender assegurar o direito do corpo à autonomia promovendo um autêntico culto das suas performances” (3).

Visitados estes textos, julgo estar reunida para o leitor uma aproximação ao projecto, ainda que sempre de uma forma referenciada – do território da pesquisa que a esculturalidade contempla no presente estudo de forma. Forma cujo desenho resulta de uma reflexão sobre a experiência social contemporânea do corpo. Uma exploração que parte de uma análise da situação espacial corpo nos seus discursos de relação, e como habitante de um lugar comprometido. É assim que o desenho do comportamento sucede coagido pelas diferentes colheitas da temporalidade. Solicita dinâmicas de mutação, hibridizações e anuncia um percurso de busca no devir do corpo na sua identidade e sentido de um corpo ‘pós-humano’. Em suma, o que aqui se infere é uma procura na arte dos percursos da transcendência – um transcender a si próprio que, como o definiu Novalis, conduza ‘à génese da vida’, que não a mera superação de si – ‘tal como a chama’.


Notas >

(1) Helder, Herberto, org.; “Edoi Lelia Doura”, Lisboa, Ed. Assírio e Alvim. 1993.
(2) Baudry, Patrick; “Da Máscara ao Invólucro: A Liquidação do Humano?”, Lisboa, Comunicação e Linguagens. 1990.
(3) Rodrigues, Adriano Duarte; “O Corpo e a Linguagem”; Lisboa, Comunicação e Linguagens. 1991.


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