Uma saudável rajada de sonoridade lusitana

Enzo Minarelli

Texto de Enzo Minarelli sobre disco de Poesia Sonora de Américo Rodrigues. [Texto. Ligação]


Conheci o Américo no longínquo mês de dezembro de 1999, durante o Festival de Poesia Sonora Correntes de Ar, no Auditório do Paço da Cultura, na Guarda, uma bela cidade nas montanhas de Portugal. Ele era o diretor artístico e, devo mencionar que, institucionalmente falando, sempre ocupou posições de poder, como a atual de Diretor-Geral das Artes. Naquela ocasião, descobri que ele também era um poeta sonoro competente e excelente, dotado de uma voz formidável capaz de competir com Demetrio Stratos ou Fatima Miranda. De fato, ao apresentar o seu CD (O Despertar do Funâmbulo, 2000), impressionou-me a forma como utilizava a voz, explorando de maneira cuidadosa e equilibrada o poder pulmonar num “rumorismo significante”, para usar uma definição de minha autoria. A habilidade do funâmbulo que arrisca cair mas não cai e alcança o objetivo. Nesta transcendência da linguagem, ele tocava o ultraletrismo, especialmente quando se concentrava na transgressão do grito. No entanto, ter uma voz incomum não é suficiente para criar boa poesia sonora; é sempre necessário atuar dentro de um contexto projetual onde cada gesto, cada sopro, cada respiração ocupe o seu papel próprio, tanto estético quanto técnico, e é essa habilidade que deve ser reconhecida ao longo de toda a sua carreira de mais de três décadas.

Depois, voltei a ocupar-me do seu trabalho quando organizei na Biblioteca Sala Borsa e em algumas universidades de Bolonha, o Arquivo La Voce Regina, conforme a nota que escrevi no verão de 2005, disponível em https://www.lavoceregina.it/la-voce-regina-1/poesia-sonora-polipoesia/americo-rodrigues (também em Enzo Minarelli, La Voce Regina, Lecce, Manni, 2006). Além da rarefação vocal característica do Zaum, Américo Rodrigues introduziu uma análise da palavra em si, aplicando esquemas precisos para penetrar no seu interior, o que é definido, a partir de Starobinski, como uma pesquisa intraverbal e, ao mesmo tempo, uma expansão da mesma, considerada claramente incapaz de comunicar algo novo na sua configuração comum. Isso é evidente em dois CDs lançados com quase dez anos de diferença, cicatriz:ando (dezembro de 2009), onde são registadas ações em diversos locais públicos e privados da Guarda, dando amplo espaço à fala quotidiana, e Parlatório (2018), que desenvolve um diálogo cativante entre as confissões amargamente tristes de quem suporta a prisão e a voz do poeta que, em contraste, voa livre no ar.

Também no CD recentemente lançado, que já no título explora a sedutora paronomásia entre Fala e Falha, surgem fortes dúvidas sobre a língua tradicional como veículo de transmissão. É frequente dizer-se, mesmo nos diálogos mais acalorados, que “são apenas palavras”, esquecendo que uma palavra pode matar ou dar vida, sendo, de fato, corpos contundentes capazes de atingir diretamente o coração.

No entanto, aqui Américo Rodrigues realiza uma obra de poesia sonora completa, revendo todas, e sublinho todas, as práticas desta disciplina em mais de cem anos desde o seu nascimento, recordando o famoso “verso sem palavras” de Hugo Ball de 1916. Já numa faixa como “Que te que te”, resume-se a quintessência do seu procedimento; aqui domina uma espécie de gaguez incipiente que lhe permite insistir num tempo suspenso de incerteza até que a explosão fonética desapareça no nada. O instrumento vocal, como a eletrónica, é sempre muito controlado, não lhe escapando qualquer imperfeição tecnológica, recorrendo à energia disruptiva da voz apenas onde é necessário, especialmente mantendo a experimentação vocal claramente separada do canto. Por exemplo, noutro CD, Aorta tocante (2005), ele confronta-se com a música mas, no final, pode-se admitir que são mais canções do que poemas. Em “Contratempo”, além do intraverbalismo temperado por persistentes aliterações, surpreende o ouvinte com um efeito eufónico, ainda que não desdenhe uma cacofonia aberta e provocante em “Atraczug” (não poderia ser de outra maneira sendo a peça dedicada a Isidore Isou). Enquanto o fundador do Letrismo agia sob um impulso instintivo, aqui a impressão é, como já dito, que há uma direção cuidadosa, por exemplo, em “Terror”, a oposição entre “morto-porto” acaba inevitavelmente por ser engolida pela onda gritante, como em “A morte é uma”, onde o tom escolhido não pode ser outro senão o sussurro murmurado. Emblemático é “O significante e o significado” porque a dupla saussuriana é abordada através de uma longa sequência de neologismos que denunciam um desalento profundo em relação à própria linguagem, e esta é a razão pela qual na “Declaração final”, entre explosões de ruído mediático e estalidos fonéticos, apesar de o poeta inventar “novas palavras e novas línguas”, no final só o silêncio importa, invocado, se não mesmo gritado como uma ordem de absoluto “silêncio!”


Originalmente publicado no dia 17 maio 2024 em https://www.enzominarelli.com/blog-03-poesia-performance-sonora-arte/

Recensão de: Américo Rodrigues, Acto da Fal(h)a, Poesia Sonora, Lisboa, Bosq-íman:os Records, 2024.

Traduzido por Rui Torres e Bruno Ministro com autorização do autor.


V(l)er tb


[Agradecemos a Enzo Minarelli a autorização que permitiu disponibilizar este texto no Arquivo Digital da PO.EX]