Todas as Cópias são Originais: eletrografia e copy art em Portugal

Bruno Ministro, Todas as Cópias são Originais: eletrografia e copy art em Portugal

Tese de doutoramento de Bruno Ministro sobre trabalhos de Abílio-José Santos, António Aragão, António Dantas, António Nelos e César Figueiredo [Resumo. Ligação].


Título: Todas as Cópias são Originais: eletrografia e copy art em Portugal | Autor: Santos, Bruno Daniel Ministro dos | Orientador: Portela, Manuel; Torres, Rui | Palavras-chave: fotocopiadora; apropriação e remistura; performatividade material; arte postal; autoria coletiva | Data: 11-09-2020 | Tese de doutoramento em Materialidades da Literatura apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Ligação externa (pdf): http://hdl.handle.net/10316/91050

Resumo > Enquanto práticas de criação experimental assentes no uso da fotocopiadora, eletrografia e copy art problematizam a oposição histórica entre cópia e original ao conceber, através do processo de fotocópia, artefactos que podem ser considerados originais. Comercializada a partir dos anos 60 do século XX, a fotocopiadora foi de imediato apropriada por artistas para produzir obras de arte. Ao desviar a máquina da sua funcionalidade pragmática de origem, o seu uso enquanto meio de criação interpela as noções de autenticidade e singularidade ao explorar a transformação material sob um eixo diferencial de repetição e variação. Nesse gesto, abre-se lugar ao múltiplo em substituição do igual, posto que tais práticas revelam a natureza produtiva do meio de reprodução. Os trabalhos de Abílio-José Santos, António Aragão, António Dantas, António Nelos e César Figueiredo integram-se num quadro amplo de práticas, processos e projetos caraterizados pela apropriação, remistura e experimentação intermedial. Dialogam, por isso, com a instabilidade do conceito de arte, proposta pelas vanguardas do início do século XX e intensificada, a partir da década de 1960, pelos experimentalismos poéticos, conceptualismos, práticas Fluxus e artes dos novos meios. Esta investigação propõe entender a eletrografia e copy art portuguesas nas suas dimensões materiais, mediais e sociais, criando um lugar para o estudo desta prática artística enquanto poética transgressora de linguagens, meios e géneros. Nesse sentido, importa perceber de que forma é que a materialidade destas obras, aqui entendidas enquanto artefactos que inscrevem em si mesmos os processos que as geram, contribui para a reconceptualização das noções tradicionais de autoria e obra de arte. Considera-se, assim, que entender o objeto de estudo, tanto no contexto da prática internacional que o engloba, como na sua relação com outras práticas artísticas disruptivas do século XX, permitirá fornecer um contributo crítico para repensar a obra de arte no contexto de uma ecologia da mediação técnica. Deste modo, questiona-se a linearidade cronológica do desenvolvimento e uso dos sistemas técnico-mediais ao estabelecer pontos de contacto entre a colagem, a experimentação copigráfica e os meios programáveis digitais e em rede. Enquanto práticas de apropriação material, transferência sígnica e ressignificação performativa, eletrografia e copy art interpelam diretamente o universo das imagens técnicas e os seus programas. As práticas coletivas de criação em torno da fotocopiadora e a associação dos seus autores a comunidades alternativas como a rede internacional de arte postal permitem tecer uma malha de ligações críticas nos trabalhos dos artistas portugueses. Em particular, são relevantes as obras que assentam na transformação, remistura, erro, ruído visual e ilegibilidade e que, dentro desse quadro semiótico e técnico-medial, se dão a ver enquanto gestos de interferência material, social e política.