terTúlia

terTúlia

Arte de situação, artitude_objecto_poema de António Barros. [Imagem. Texto]


Na senda Das Vanguardas nas Artes em Portugal, e se a geografia chama Coimbra, logo temos na órbita que me cumpre, Túlia Saldanha. Tem a sua, bem digna, obra artística publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, e o aturado estudo editado merece atentas leituras, múltiplas. Um património a estudar, esse o da História das Mulheres na Arte, na Sociedade, em Portugal, da história das suas fatalidades sofridas nos desígnios do “Estado Novo“. José Ernesto de Sousa foi talvez o maior admirador da obra de Túlia Saldanha. Eu também, e ainda hoje, com grande humildade trago nos meus objectos poemas um pouco de negro luto em elegia. Contaminações. Escrevi com grande comoção palavras avulsas, dolorosas, ao relatarem-me a sua finitude – “Um voo em círculo antes da morte” [Rua Larga, revista da reitoria da Universidade de Coimbra].

O mensageiro entre Túlia a terminar, em Macedo, e eu em Coimbra, veio a seu tempo transmitir-me a vontade de que fosse eu a ficar no lugar dela, dirigindo o Círculo [CAPC]. Mas comecei, categórico, por recusar. Tinha a minha vida orientada bem longe de Coimbra, e gerindo territorialidades e disciplinas bem distantes das que ali, naquela Coimbra, se apresentavam. E tinha eu já cumprido o Círculo, e bem mais do que a Academia pedia. Foi transmitida a minha recusa, mas logo uma solicitação em desespero me foi veiculada, e como sendo a última vontade de Túlia antes de falecer. As últimas palavras, transmitiram-me, era que Túlia não queria morrer sem o meu sim.

Aceitei, mas não devia ter aceite. Cedi, mas não devia ter cedido. Fiz, o que fiz, pela Túlia. Fraqueza minha, mas é deveras difícil ser indiferente a uma vontade de alguém tão assertivamente dita antes da morte. Convulsivo apelo. (E de alguém que, recordo, me solicitou um dia, no Círculo, para que eu trouxesse o meu estetoscópio para auscultar-lhe os pulmões já em sofrimento. Ainda hoje ouço a ruidosa sonoridade clinica recolhida nesse primeiro prognóstico que logo presumi fatal. Aconselhei urgente hospitalização, era eu estudante finalista de medicina. O diagnóstico de certeza, confirmou, que havia uma morte já ali ao fundo).

Túlia, em Coimbra, bem cedo deslocada de Trás-os-Montes, viveu em Santo António dos Olivais, onde em casa dela privei, como convidado, e lá nos encontrávamos com o José Ernesto de Sousa, o Alberto Carneiro, o João Marques. Lugar bem próximo de onde está edificado o enigmático Auditório das utopias. Aí gerei um progesto em elegia a Túlia Saldanha. Um poema visual de quem quer reinventar a vida, de novo — a de entes queridos. A aqui palavra da invenção é: terTúlia. E o dicionário das emoções ficou mais rico. Uma elegia a Túlia Saldanha, Pintora. Há Mulheres com M grande, bem grande. Com T grande, bem grande — para além do T de Tempo; T da Terra pintada de negro. Bem negro.

Ao saber deste fórum de tertúlias, visionária artitude –terTúlia – no Auditório de Santo António dos Olivais, na Coimbra das utopias, para além da utopia, José Ernesto de Sousa ficaria contente.

António Barros, VR, 28 março, 2024  

[ Arte de situação, TRIPLOV_Das Vanguardas em PortugalterTúlia, artitude_objecto_poema, 2024, António Barros ]