A inquietação do inexplicável

Fernando Aguiar, A inquietação do inexplicável

Livro de poesia verbal de Fernando Aguiar. [Descrição. Poemas]


A INQUIETAÇÃO DO INEXPLICÁVEL é constituído por dois conjuntos de poemas, sendo que o primeiro integra trabalhos mais recentes [“Criações”] e o segundo agrupa textos também inéditos mas concebidos a partir de outros já publicados [“(Re)Criações”].

A inquietação do inexplicável
autor: Fernando Aguiar
capa e desenhos: Fernando Aguiar
ISBN: 978-989-35590-4-8
n.º de páginas: 232
tiragem: 300 exemplares
1.ª edição: Janeiro, 2025
não (edições)
COLECÇÃO MUTATIS-MUTANDIS, #29

URI: https://livrosnaoedicoes.tumblr.com/


Fernando Aguiar, A inquietação do inexplicável

Fernando Aguiar, A inquietação do inexplicável


Poemas disponíveis >

I – CRIAÇÕES

O IMPORTANTE DAS PALAVRAS (p. 12)
BALANÇO POÉTICO (p. 20)
O TODO EM TUDO (pp. 26-27)
É-SE (p. 81)
UMA ROSA (pp. 92-94)
QUE ASSIM SEJA (pp. 102-104)
(IN)DECISÕES (pp. 114-116)
SIGO / SEM MIM (pp. 143-144)
AO SANTº, VALHªM-LHE OS CÉUS ! (p. 153)

II – (RE)CRIAÇÕES

MORDER COM FORÇA (p. 159)


O IMPORTANTE DAS PALAVRAS

Para E. M. de Melo e Castro

Dizer o que importa com as palavras essenciais.
Expor o importante com a essência das palavras.
Afirmar a essência com o que importa nas palavras.
Dar importância às palavras, na sua essência.

Escolher as palavras que no essencial importam.
Valorizar as palavras que sempre são essenciais.
Perscrutar o importante na essencialidade da palavra
e convir que o que importa é o significado da essência.

Palavras que exortam ao significante fundamental.
Palavras que se essenciam na sua própria importância.
Intuir que palavras e importância são a essência
ou ouvir o impróprio, na essência de cada palavra.

Palavras, importância e o essencial indispensável
dessacralizar o significado que a palavra suscita.
Saber o que da palavra implica na palavra, porque
essência e importância são afinal meras palavras…

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


BALANÇO POÉTICO

Fosse por que razão fosse
mudasse o que se mudasse
acontecesse ou desconhecesse
sempre que mais não houvesse.

Fizesse o que se fizesse
dissesse ou não se dissesse
ter-se-ia mas não se tecesse
mesmo que nunca amanhecesse.

Soubesse o que se soubesse
ficasse ou bem se trouxesse
olhasse para onde se visse
até que se determinasse.

Fosse que culpa desculpasse
achasse o que se encontrasse
acabasse, ou enfim, continuasse
sem alterar o desenlace.

Quer se afogasse ou salvasse
pagasse ou endividasse
fosse, não fosse, livrasse a face
ainda que o fim não terminasse…

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


O TODO EM TUDO

I

Quase mudo
sempre tudo.

Olhos, chão
sempre iludo.

Língua, corpo
algo surdo.

Sinto, pulso
quase turvo.

II

Acordo, acorro
sempre ajudo.

Seja, vejo
sinal agudo.

Trilho, valho
quase entrudo.

Prevejo, revejo
sonho graúdo.

III

Alterno, reduzo
salto imundo.

Permuto, seduzo
sempre sisudo.

Quase sempre
quase tudo.

Quase todo
tudo mudo.

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


É-SE

Ser o que
se seja.

Não (a)pesar
(d)o que se foi.

Ter como
se não fosse.

Ou reter o que
em vão se sente.

Ser diferente
é ser igual
ao que se é.

É-se.

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


UMA ROSA

Para Ana Hatherly

Se uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa
E o amor o amor é o desamor de amar o amor
Se o verde tão verde é o verde que te quero verde
E o gosto que gosto é um gosto é o gosto
Se a pedra é a pedra no meio do caminho de pedra
E o caminho é o trajeto por onde me encaminho
Se o orgástico orgasmo é o espanto do organismo
E o corpo é um corpo e um corpo é o corpo
Se fogo é amor que arde e se contempla na queima
O sentimento que sinto é o sentido de um momento
A palavra palavra é toda a palavra numa só palavra
A razão da razoabilidade da causa fica sem fundamento
O encanto que enleio enlaço no canto da sedução
O estigma é o enigma da enigmática mácula
A força da força é o esforço que forço e reforço
Assumir é o arrogar do que depressa se assume
A sonoridade que nos soa e ecoa é a maviosidade
O processo é o possesso de um longo processo
O fecho é um conluio que se abre e logo se fecha
O abismo onde precipito é no abismo que principia
O adensar é o compacto que pretensamente adenso
O pasmo é um êxtase que pasmo em pasmar
O adágio é o desaforo de um atrevido aforismo
O reflexo é um clarão que se flete e reflete
O que digo é o que digo mesmo quando desdigo
O que sinto é o que vejo é o que oiço é o que toco
E sonhar é o desejo com que todo o sonho sonha
A hipótese é a hipotenusa de um neutro hipotético
O que refiro é o refrão da referência a que se refere
A forma que deformo é uma forma noutra forma
O quando é a mera circunstância do quanto
O súbito é um súbdito dependente da subida
O agrado é um dilatado deleite por agradecer
A cerca é um cerco que cerca que nos cerca
A certeza é decerto a incerteza pela certa
A saída é a entrada por onde saio onde se sai
A tardia tarde regressa tarde ao entardecer
E o tardar a retardar o atraso que regride
Os veios vazios ou cheios são sempre meios
A sombra a macular a mesma sombra
Outra sombra a somar à sempre sombra
Sombra que sombreia o m que sobra
Escasso é o processo por onde passo e repasso
As mãos são uma mão que se revê noutra mão
Um olhar é o observar de quem me olha
O cheiro é um odor cheio de aroma
O saber é a sabedoria de quem se encontra
O alguém é o ninguém perduravelmente além
E ninguém é o alguém eternamente aquém
A verdade é a veracidade da inverdade
A realidade é o realismo de outra realidade
O presente é o futuro que tarda em chegar
O passado é o presente que logrou passar
O nome é um nome nome que se nomeia
O anseio é o que almejo quando não o sei
Retornar é onde torno quando regresso
O outro é sempre o outro um mesmo outro
Ceder é conceber o que se cede e concede
O todo é o tanto enquanto tento o portanto
E o tanto é o pleno prodígio de todo o portento
O encontro são os desencontros que em vão encontro
Aquela esta lua minguante ou crescente a mesma lua
Os dedos os idênticos dedos são outros dedos os dedos
A dádiva é um presente que raramente se oferece
A questão em questão suscita muitas outras questões
E uma rosa é uma rosa é uma rosa sempre rosa…

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


QUE ASSIM SEJA

Que se trame o trauma.
Que se rache a racha.
Que a luz apenas reluza
no material da matéria.

Na adversidade do adverso
onde se encaixa o cosmos.
Ou na versatilidade do verso
em que se palavreia a palavra.

Que se abandone o abandono.
Que menos por mais seja o sinal.
Que a coisa se coisifique
e se cruxifiquem as crises.

Que se envolva sem rodeios.
Que se assuma o somenos.
Que a contradição se contradiga
e se silencie entre o silêncio.

Que retorne o rumor da fonética.
Que o som sonorize o espaço.
Que o sistema se sistematize
e o advento se entrelace.

Que a evidência se evidencie.
Que a pressa se apresse.
Que o signo se ressignifique
e se reveja no significado.

Que a demonstração se comprove.
Que o sobressalto sobressaia.
Que o adiantado se antecipe
e se instigue a sã estimulação.

Que a tarefa se afadigue.
Que a condição se condicione.
Que o sacrifício se sacrifique
e o processamento entre em processo.

Que a atitude se assevere
e o desejo retorne ensejo.
O estímulo sofra um impulso
e se conserte a conjuntura.

Que o bloqueio se situacione.
Que o requisito não recuse.
Que o contexto se contextualize
e na circunstância se distancie.

Que a espécie se especifique.
Que a ordem se desordene.
O efémero se torne perene
e o término se determine.

Que a situação não sofra recuo.
Que o olhar seja transparente.
Que o género se generalize
e o final nunca prescreva.

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


(IN)DECISÕES

Nem sim nem não
Nem hoje nem amanhã
Nem por dentro nem por fora
Nem assim
nem assado.

Nem por cá nem por lá
Nem agora nem depois
Nem por baixo nem por cima
Nem acima
nem abaixo.

Nem preto nem branco
Nem acordado nem a dormir
Nem mudo nem a falar
Nem inteiro
nem ralado.

Nem demora nem p’ra já
Nem se quero nem se não
Nem frito nem costurado
Nem tudo o que abana
cai.

Nem moderno nem inverno
Nem Verão nem verão
Nem todo o que luz reluz
Nem algo que é prata
mata.

Nem caminhar nem marear
Nem só de pão nem pó de chão
Nem tudo o que raia é peixe
Nem sempre rede
nem sempre rende.

Nem juiz nem casa própria
Nem profeta nem abjeta
Nem no pano nem na nódoa
Nem ladrar nem
corja a passar.

Nem entendedor nem palavra
Nem só basta nem bacalhau
Nem passarinhas nem ninho
Nem remédios
nem outros males.

Nem oitenta nem sustenta
Nem por dizer nem a verdade
Nem equivocar nem a saudade
Nem tanto ao mar
nem sempre enterra.

Nem o feio nem o bonito
Nem a espera nem o alcance
Nem tudo ter nem tudo a arder
Nem emprestar aos pobres
nem dar adeus.

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


SIGO / SEM MIM

se quero / se moro / se esmero / se fero /
se penso / se senso / imenso / se venço /
se faço / se firo / se foco / se gero /
se manso / se tenso / se tanso / suspenso;

e:

se sigo / se digo / se migo / se vigo /
se sonho / reponho / se ponho / suponho /
se figo / se trigo / se ligo / prossigo /
disponho / imponho / componho / oponho;

mas:

se meço / se peço / esqueço / se teço /
se lanço / se lenço / se lince / avanço /
se aqueço / se apreço / obedeço / se espesso /
se canso / se ranço / alcanço / não danço;

ou:

se oiço / se foice / se fosse / se trouxe /
se acho / agacho / diacho / se tacho /
se torso / no dorso / baloiço / não oiço /
se racho / fogacho / coaxo / riacho;

só:

atiro / admiro / se tiro / se firo /
nomeio / permeio / no meio / semeio /
respiro / refiro / permito / sugiro /
se seio / se sei / asseio / não sei-o;

acaso:

se saio / se saia / se ceia / soslaio /
se sinto / se minto / se cinto / se pinto /
se caio / lacaio / desmaio / que raio ! /
pressinto / o instinto / se tinto / repinto;

então:

se santo / se tanto / se manto / se canto /
se sento / se tento / se lento / se cento /
se janto / entretanto / se quanto / sebento /
invento / o sustento / e lamento / o relento;

portanto:

se acorre / se corro / se escarro / se escorro /
se encaro / comparo / separo / ou aparo /
discorro / socorro ! / não morro / e lá corro /
reparo / amparo / e declaro: NÃO PÁRO !

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


AO SANTº, VALHªM-LHE OS CÉUS !

Es$a falha n\esta folhª, asso, s-olha e desfloro de fora
no rep.olho só re»ponho, vou rep asso, minto, flora.
Cres^ce o fa=c=to, cato o gato, vou+me rooming embora.
Soltº o ego, naõ soss,ego, abro fogo E logo ag-ora…

T’arre}nego, m’apro.chego, faço check-in & go out n(a)/(o) fªce
re;colho a ceia, re:pasto a meia, no know-how se re#nasce.
Re-retrocesso, embuste espes-so, e es%peço-te que ñao vá-s.
Aleg(o)ria que se traduz, sonho cheiº que seduz. (T)Às ?

Ag”ora o todo, a tudo o sem-pre, vago som que des-faço
embora o lei@, de sos~laio en-leio, e logo o logo(s) tr_aço
sol-eira na pedra, mão que medra, n*em pre-sinto ao que v/ou
e sob a Né-voa regr*esso, luª adensada, qeu esque-ço, halô?.

C-olho a calha, sobra a falha, o san-tº a s)altar no adro sua,
flor+es no reg/aço, c-lima que amord:aço, ma)n(dona no altar nua,
sem r#odeios se acende, no ro;dado se apreeeende, e logo espreita
qu§em meio torto se re!faz, no dir;eito se sub«jaz, e atrás se sujeita.

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


MORDER COM FORÇA

de manhã § de manhã § de manhã
ao acordar § ao acordar § ao acordar
mordi com força § com força § força mordi
a almofada.

e fiquei § fiquei § e fiquei
com a boca § a boca § com a boca
cheia de § cheia § cheia de
espuma.

como se § como § como se
ela se § se ela § ela se
estivesse a § estivesse § estivesse a
babar.

bom § bom bom § bom bom
bom § bom bom § bom bom
pensei eu § pensei § eu pensei
ou bem § ou que § ou bem que
bem § ou que § ou bem que
estou nas § estou § estou nas
nuvens.

ou bem § ou que § ou bem que
bem § ou que § ou bem
que não § não § que não
estou.

[Regressar ao menu de poemas disponíveis]


[Agradecemos a Fernando Aguiar a autorização que permitiu disponibilizar estes poemas no Arquivo Digital da PO.EX]