Transformar

Bruno Ministro, Transformar

Texto de sala de Ecce Algorithmus, exposição de António Dantas na Capela da Boa Viagem, Funchal, por Bruno Ministro. [Texto. Ligações]


Eis aqui vos digo um mistério:
Na verdade, nem todos dormiremos,
mas todos seremos transformados

1 Coríntios 15:51

Aquele que do alto tudo observa, tem nestes habitantes na terra o seu fiel rebanho. Ele, que formou os seus corações, sabe tudo o que fazem. Nada, em toda a criação, está oculto aos Seus olhos. Tudo está descoberto e exposto diante dos olhos Daquele a quem havemos de prestar contas no fim dos tempos. Feliz é o povo que Ele escolheu para si. Soberano, todo poderoso e omnisciente é o Satélite. Ámen.

Quando Marshall McLuhan viu a ascensão do Satélite ao reino dos céus, percebeu de imediato que ele ligaria o mundo. Ao terceiro dia, quando Friedrich Kittler olhou para o céu, percebeu que o Satélite vigiaria o mundo todo. Recentemente, com os Satélites em rotação contínua por cima do mundo, Jussi Parikka observou uma sucessão de imagens que apelidou de “imagens operacionais”. Estas são imagens produzidas por máquinas, como o satélite, mas também aquelas registadas pelo drone e pela câmara de vigilância, entre outras. A imagem está presente em todo o lado. Assim na terra como no céu. Assim nas cavernas de Lascaux como nos scripts que as codificam e reproduzem no Google Earth.

Vem por isso a propósito lembrar as palavras de Isabel Santa Clara a respeito de António Dantas quando afirmou que as suas obras se enquadram num mundo e enquadram um mundo que é o da “civilização da imagem, da imagem, da imagem”. Assim repetido e com o acrescento: “Mecanicamente colhidas, mecanicamente reproduzidas, proliferam incessantemente as imagens já sem dono”. Longe de querer apropriá-las para serem sua propriedade, Dantas tem vindo a tomar para si diferentes tipos de imagens circulantes no mundo. Através da apropriação e ressignificação pela prática artística, Dantas incorpora essas imagens nos seus trabalhos e volta a colocá-las de novo em circulação no mundo. Trata-se de um ciclo potencialmente infinito. Não sei se isto serve para provar aos mais céticos que o mundo é redondo. Serve pelo menos para dizer que ele se move – e nós nos movemos com ele.

Mais importante, serve ainda para afirmar que, se as imagens que resultam da intervenção de Dantas são já outras que não as originais uma vez transformadas pelo poder da cópia, o mundo continua porém a ser o mesmo. Para mal dos nossos pecados, há que continuar a questioná-lo, como tem sido prática crítica do artista em trabalhos a que raramente faltam a ironia e o humor. Através deles, Dantas interpela diretamente a sociedade contemporânea e questiona o lugar que o indivíduo nela ocupa. Nos seus trabalhos esse lugar pode tomar várias formas. Esse lugar está sempre abaixo do Satélite.

A prática artística de António Dantas tem-se expressado através de imagens multímodas. Em determinados momentos estas relevaram-se através da fotocópia (na eletrografia) e noutros momentos do filme (na vídeo-arte). Mais recentemente – mas não propriamente de agora – as suas operações têm investido na manipulação de imagem em software de edição digital, prática essa que incorpora aprendizagens das experiências anteriores.

António Dantas é um poeta da imagem em movimento. Chamá-lo de poeta não quer dizer que escreva versos. Produzir imagens em movimento não implica chamar-lhe cineasta. Dantas é um operador de imagens. Soa estranha a expressão “operador”, mas logo o ouvido é apaziguado se considerarmos que a sua obra é de facto percorrida por uma acutilante produção de estranhamento. Ao longo das últimas décadas, as suas imagens foram-se fixando no suporte horizontal da folha impressa ou na verticalidade das paredes do espaço expositivo. Ainda assim, elas movem-se.

O movimento das imagens de Dantas não advém só do gesto de movê-las, por vezes literalmente como nas suas obras de eletrografia. A sua energia cinética vem também de estranhá-las, nesse movimento crítico que interpela diretamente a ordem das coisas no mundo e do mundo em cada uma das coisas. Dantas é um operador de imagens num sentido afim daquele que Bruno Munari propôs com o termo “operador estético”. Sugiro que o é também no sentido, por exemplo, do “operador de câmara”, sendo este aquele que olha, seleciona e captura as imagens em movimento. Dantas é ainda e simultaneamente um “director”, na acepção que no inglês se dá à expressão, traduzida por realizador ou cineasta. Talvez de facto António Dantas não realize, mas antes opere as imagens dirigindo-as rumo à sua realização própria.

Por esta e toda uma outra ordem de razões, para voltar às “imagens operacionais” de Parikka, há que sublinhar que as imagens de Dantas são, em rigor, “anti-operacionais”. São-no na justa medida em que o operador manuseia o aparelho mas fá-lo contra o próprio aparelho. Isto é, contra o programa determinista da máquina e dos seus sistemas, Dantas procura obter os resultados mais improváveis. Para parafrasear Vilém Flusser, o artista luta contra a caixa negra que tem diante de si, mesmo que ele próprio se coloque, como é aqui o caso, “dentro” da própria máquina.

Não é de agora que António Dantas se coloca à frente (ou “dentro”) da objetiva de uma máquina fotográfica. Essa que, quando inventada, foi olhada com medo – e também enquanto sacrilégio – por supostamente roubar a alma do fotografado. Em Ecce Algorithmus, como noutros trabalhos anteriores, Dantas arrisca a sua alma ao dar o corpo aos disparos da máquina fotográfica. Por outro lado, também não é a primeira vez que o seu retrato capturado pela máquina serve depois de input ao computador, outra máquina que manipula e distorce signos. Assim, estes autorretratos de Dantas nunca nos devolvem uma representação impecável do artista. Manipulação e deformação são aqui palavras-chave. Transformação também.

António Dantas talvez seja apenas mais um entre os transeuntes observados pelo Satélite. Mas ele é, não obstante, um transeunte irrequieto e problematizador – transformado, transformativo, transformador. Sem grande mistério vos digo enquanto olho para o Satélite: “Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados”.


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