Visopoemas


1965 – 2015

50 anos de Poesia experimental em Portugal

Visopoemas

V(l)er tb > «Concerto e Audição Pictórica»; «Suplemento do Jornal do Fundão»


Visopoemas | Catálogo da exposição | Data: 1965 | Local de publicação: Lisboa | Editora: Galeria Divulgação | Descrição: Exposição inaugurada a 2/1/1965, com a colaboração de A. Aragão, E. M. de Melo e Castro, H. Helder, A. Barahona da Fonseca e Salette Tavares. Exposição colectiva com objectos, pinturas e cartazes.


Capa do catálogo >


António Barahona da Fonseca

Transcrição [lista de poemas] >

ANTÓNIO BARAHONA DA FONSECA

I – HOMENAGEM A ISIDORE ISOU
II – POEMA EM 5
III – POEMA T – O SEXO
IV – POEMA DE LETRAS LÍQUIDO


Transcrição [poema] >

Colho as letras as sílabas
as palavras vivas
e meto-as na máquina lenta
de dizer

as rodas gastam-se no osso do poema
na pedra informe nas sílabas mudas
treme de pavor as letras frias
nos versos recentes saídos da prensa
nos versos fluidos letras apenas


António Aragão

Transcrição [lista de obras] >

POEMAS ENCONTRADOS (1963)
?
!
:
/
poderão ser feitas tantas
leituras quantas combi-
nações e mais outras
tantas quanto a distância
a que de distancia o leitor

VISOLUMINESCÊNCIAS

£
=
:

POEMAS (DES)INTEGRADOS
§
&
*

HISTÓRIA PARA O DIA SEGUINTE
+


Transcrição [texto “a poesia começa…”] >

a poesia começa onde o ar acaba. é qualquer coisa para depois da própria respiração. como o respirar é muito uma maneira nossa e (pre)vista da condição humana a que somos condenados, a poesia surge a partir desta condenação. mais justo ainda, a partir de toda a condenação. deste modo, só nos resta a queda no irremediável: a vertigem sem apelo, o jogo sem olhos, a ausência impecável de nós. daí o repúdio do lirismo e duma semântica convencionada à escala dos pessoais (des)gos / tos mais ou menos audíveis. daí a ambiguidade cómico-dramática em que nos assistimos. nenhuma ordenação é possível. nenhum suspiro pode já (co)mover. em vez de celebrar normas e preceitos que actuam na mediocridade da sujeição, procuramos, mais exactamente, descobrir o belíssimo cáos de nós próprios. antes o indefinido do que ser reduzido ao absoluto infrutescente da indefinição. antes o encontro com o desor / denado, num conflito sem génese nem juizo final, para atingir o risco de estarmos livres mesmo no discurso do desentendimento. um poema deve ser usado como um instrumento feiticista e consome-se em si numa espécie de ludus encantatório. por isso se dão nomes à matéria: inventa-se e destroi-se para que ela viva a sua tremenda metamorfose. a poesia deve ser tomada por todos os sentidos: quando verbal não deixará tam / bém de ser contra o verbo. queremos uma poesia que não explique conteúdos mas forneça estados: donde uma linguagem negra, ausência de estilo e o ataque à fraude da limitação: poesia-contra, poesia-recusa-que-acusa, poesia contra o instituido, o legal, o ordenado e convencional. poesia da liberdade por estarmos demasiadamente perdidos no cúmulo da condenação. antónio aragão

Ver tb > [A poesia começa onde o ar acaba…], António Aragão [in PO.EX: Textos teóricos e documentos da poesia experimental portuguesa, p. 39].


Herberto Helder

Transcrição [lista de obras] >

I – MÁQUINAS E LETRAS – 1963
II – POEMACTO – 1963
III – E ASSIM POR DIANTE – 1963
IV – POESIA DEPRESSA – 1963
V – AUTOBIOGRAFIA COM LÂMINAS
(ausente da exposição por razões
pessoais muito fortes).

HERBERTO HELDER


Transcrição [texto] >

Numa fábrica de papel registou-se um invulgar desastre no trabalho: um operário caiu num misturador e ficou literalmente transformado em pasta para papel.
Só se deu pelo acidente quando os filtros da pasta se entupiram. Nessa altura, já só restavam no misturador uma das mãos da vítima, uma rótula, uma madeixa de cabelos e tiras de pele. O corpo achava-se integrado nas folhas de papel que continuavam, entretanto, a sair das prensas.
(Dos jornais e para servir de epígrafe a um poema chamado «O Homem Que Se Fez Papel», que o Autor talvez um dia escreva).
[ver também Herberto Helder, Photomaton & Vox, «o humor em quotidiano negro» (p. 121)]


E. M. de Melo e Castro

Transcrição [lista de obras e textos de enquadramento] >

poemas-in-visíveis

A númeropoema
B sexopoema
C esqueletopoema
D geopoema
E fimdesemanapoema
F termopoema
G luminopoema
H fonopoema
I quasinfinitipoema
J rodopoema

se nada disto lhe diz nada então nada os poemas-in-visíveis são PARA ver in (dentro) PARA inver PARA não ver PARA agir dispõe o utente de interruptores para agirdicotómicamente sim-não em diversas combinações liga desliga etc. etc. pode utilizar os poemas conforme desejar rodas PARA movimentar peças PARA transformar em signos PARA construir poemas PARA ir-à-noite-PARA-a-cama-dormir-desassossegado PARA viajar PARA também ser oosso PARA ir PARA a praia PARA se aquecer PARA vir da praia PARA ouvir música tão bela notícias-sempre-últimas PARA estar tudo a aumentar PARA discutir eruditamente aos sábados PARA não me importar nada PARA fazer contas PARA iluminar fazer frio PARA recordar PARA apagar PARA ir quase até ao infinito PARA ficar triste PARA queimar a lareira PARA não ligar boia PARALELIPÍPEDO etc.

se a vanguarda é necessária na desmitificação das estratificações sociológicas anquilosadas (quaisquer que eles sejam) a poesia experimental é já maturidade do CAOS como rigor da invenção – vidé princípio da entropia: medida da desorganização de um sistema. o grau de entropia do universo está em constante aumento. o trabalho criador do artista experimental é precisamente criar estruturas atomizadas de grande entropia pois quanto maior for a entropia dessas estruturas maior será e mais vasta será a informação possível – baseada no cálculo das probabilidades. o utente do poema que se aperceba das informações que for capaz. por isso e para isso aqui se experimentam os objectos e as pessoas em actos vulgares muito simples deliberadamente fora do seu contexto organizado quotidiano – redescobrindo o cáos com as nossas mãos – experimentando.

Ver tb > Poemas-in-visíveis, de E. M. de Melo e Castro [in PO.EX: Textos teóricos e documentos da poesia experimental portuguesa, org. Ana Hatherly & E. M. de Melo e Castro, pp. 40-41].


Salette Tavares

Transcrição [lista de obras] >

1 Al gar ismo
Poema de amor
(alumínio anodizado)

2 Gal i cismo
(Colagem em laca)

3 Maquinim
(Arame anodizado)

4 Ourobesouro
Caixinha da minha infância
(Pelica e ouro)

5 Ourobesouro
A infância cresceu espaço
(Chapa de cristal e ouro)

6 Voz de peixe
(Olaria)

7 Sinais de trânsito
(Olaria)

8 Senhora do Ó
(Olaria)

9 Jarra ferida
(Olaria)

10 Antropofagia
(Metáfora em pau, gesso e papel)

11 e 12 Campa inha inha
(Cristal gravado)


Transcrição [poema] >

Partitura do Maquinim

Eu visto o que vesti ao manequim
sou poeta que mente o que se sente
e de só fico contente quando visto
aquilo que se ri atrás de mim.

Manequim do meu amor como te vejo
todo de cera e sedas emprestadas
em meu desejo sou eu que de manejo
em não, em flor
em tempestade e nadas

Salette Tavares


Salette Tavares

«Carta de Salette Tavares para Ana Hatherly» [9-01-1975] >

Outra actividade interessante do grupo de Poesia Experimental foi a Exposição na Divulgação. Criei vários objectos sendo os principais o MAQUININ e OUROBESOURO. OUROBESOURO, uma caixa de cristal com letras de ouro foi o meu primeiro poema experimental quando tinha 12 anos. Há quem se recorde, fi­lo no Colégio da Pena em Sintra. Partido, acabo de o refazer. O outro objecto, MAQUININ, era um mobile em arame anodizado, feito com letras enganchadas de maneira que se podia ler o poema, que publicara já, com o mesmo nome. Uma colaboração que demos para o Jornal do Fundão, escrevi esse poema destruindo as palavras na ligação das sílabas, conforme as várias maneiras rítmicas como o digo. Quanto ao MAQUININ mobile saiu mais pobre da exposição pois houve também o peso da gravidade da recordação Kitch que fez com que algumas letras fossem desenganchadas nas algibeiras dos amantes da poesia, talvez só assim. Ainda não tive ocasião de o restaurar. Exposto alto, bem alto, no Instituto Alemão, não tinha o ar giro do objecto que se toca e até se lê.


Reproduções da Exposição Visopoemas, seguidas de Nota sobre exposição, publicadas no SUPLEMENTO ESPECIAL DO «JORNAL DO FUNDÃO», POESIA EXPERIMENTAL (24 Janeiro 1965)

Transcrição >

Realizou-se com princípio no dia 2 de Janeiro deste ano, na Galeria Divulgação, em Lisboa, a anunciada exposição de VISOPOEMAS. Expuseram E. M. de Melo e Castro, Salette Tavares, Herberto Helder, António Aragão e António Barahona da Fonseca. Tratava-se de poemas para ver: poemas visivos ou pintura-poemas. Sendo poemas, viveram como objectos plásticos sobretudo devido à sua matéria e polarização. Conquanto objectos plásticos, mergulharam no campo da poesia rompendo com a fronteira que extrema estas duas posições. E. M. de Melo e Castro além do «quaseinfinitopoema» expôs uma série de «poemas-in-visíveis»; Herberto Helder apresentou poemas-colagens; Salette Tavares, além das olarias, expôs objectos em cristal, alumínio, pelica e colagem; António Barahona da Fonseca realizou gráfico-poemas; António Aragão apresentou poemas encontrados, visoluminescências e poemas (des)integrados.


Poesia experimental – Suplemento do «Jornal do Fundão»


1965 – 2015

50 anos de Poesia experimental em Portugal

Poesia experimental – Suplemento do «Jornal do Fundão»

V(l)er tb > «Visopoemas»; «Concerto e Audição Pictórica»


Poesia experimental – Suplemento do «Jornal do Fundão», 24 Janeiro 1965, org. António Aragão e E. M. de Melo e Castro


Suplemento [aberto, frente e verso] >


Conteúdos


E. M. de Melo e Castro

«Tontura» [ideograma]


«Sete megatoneladas»

Transcrição >

sete megatoneladas

o discurso

ante VISION al
post EFECTU al
in TELECTU al
a CTU al
ex PERIMENT al
per PECTU al

uma rosa

ante EFECTU al
ante TELECTU al
ante CTU al
ante PERIMENT al
ante PECTU al

um dente

post VISION al
post TELECTU al
post CTU al
post PERIMENT al
post PECTU al

a súbita surpresa

in VISION al
in EFECTU al
in CTU al
in PERIMENT al
in PECTU al

a carga cega rega

a VISION al
a EFECTU al
a TELECTU al
a PERIMENT al
a PECTU al

uma gota de sangue

ex VISION al
ex EFECTU al
ex TELECTU al
ex CTU al
ex PECTU al

a última esperança

per VISION al
per EFECTU al
per TELECTU al
per CTU al
per PERIMENT al


António Ramos Rosa

«Crise – experimentação – liberdade»

Transcrição >

Creio que toda a poesia moderna, como, aliás, toda a arte e toda a literatura autenticamente modernas, nascem da experimentação. Há uma crise, sem dúvida, mas esta tem sentido positivo – e não de decadência. Crise, que, como diz Harold Rosenberg, põe em causa os próprios instrumentos da avaliação da crise. Esta crise é a da própria liberdade – melhor, é a própria liberdade. O artista moderno já não aceita nenhuma determinação, já não é o eco, o porta-voz, o reflexo de nenhuma ideologia, religião ou partido – é ele próprio, um homem nu, essencial, um nada e um tudo, um tudo-nada, procurando-se, refazendo-se, desfazendo-se refazendo-se, sempre segundo este espírito experimental: o espírito da liberdade, o espírito da procura. Em vão se procurará subestimar esta liberdade: ela é o próprio espírito da nossa época, o único estatuto do poeta. Não se trata de um mito – ou será, antes, o único mito válido e fecundo do nosso tempo –, porque é por ela que o poeta se assume ante o descalabro de todos os mitos desumanizantes. Esta liberdade não lhe pertence em exclusivo, é pertença de todos os homens humanizados, embora a maioria destes não possua ainda os meios de a reconhecer, reconhecendo-se nela. À simplificante imagem salvadora que lhe apresentam as ideologias políticas, o poeta autêntico do nosso tempo contrapõe a sua liberdade criadora: não serve o homem, nem dele se serve, antes o revela, assumindo-o inteiro, ao nível mais complexo, mais «contraditório» e assim o edifica na liberdade.


«Canto primaveril»

Transcrição >

Canto primaveril

Canto patinem
per sete ovale
se quo si novo
tel i vis ale

Canto qual tinen
ruisuno solino
ad tela suno
ad sola risa

Api in fluxo
cun saxi fi len
exo te alio
alti vi lúmino

Ex alis alens
a braces te nudis
parsi riparsi
tel ali pubis


«o filho a crescer»

Transcrição >

o filho a crescer

marTeLo ou Tempo esTALa
soBe
soBe no Berço soBe emBALa
cAuLe à janeLa Rompe ao soL

marTeLo BATe inocenTe
BATe como um Barco como um TímPano
nas TêmPoras BATe Primavera
BATe marTeLa um corPo nas fonTes

BATe aBATe deBATe reBATe
rede no venTo roda no venTo
Ata desATa reATa reArde
marTela emBALa BATe e aBATe

reALBa reALBa


Álvaro Neto

«[dolor DOLLAR]»

Transcrição >

dolor
DOLLAR
doloris
dolorem

dolorem
DOLLAR
dolorem

dolore
DOLLAR
dolor
door dor
DOLLAR

DOLLAR
dor


Maria Alberta Meneres

«[Eu moro aqui]»


Luís Veiga Leitão

«figuras de uma poema por eliminação de partes»

Transcrição >

figuras de um poema por eliminação de partes

uma árvore uma actriz dois poetas e uma criança
uma árvore uma actriz um poeta e uma criança
uma árvore um poeta e uma criança
uma árvore e uma criança
uma ÁRVORE


António Barahona da Fonseca

«[Colho as letras as sílabas]»

Transcrição >

[Colho as letras as sílabas]

Colho as letras as sílabas
as palavras vivas
e meto-as na máquina lenta
de dizer

as rodas gastam-se no osso do poema
na pedra informe nas sílabas mudas
tremem de pavor as letras frias
nos versos recentes saídos da prensa
nos versos fluidos letras apenas


José Alberto Marques

«enclíticopoema»

Transcrição >

enclíticopoema

me te as
lhe de se
fe ufe se
aga ch o a os as

, ; « =
. : … ?
e lhe se ?
,, o l =

(« »)
(-me -se)
-se -ia -lhe -ei

– – ?) :
/ » / . :
e i ih ei


Herberto Helder

«comunicação académica»

Transcrição >

comunicação académica

«A minha posição é esta: todas as coisas que parecem possuir uma identidade individual são apenas ilhas, projecções de um continente submarino, e não possuem contornos reais». Charles Fort

Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos vermelhos no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo: pimentos dormindo num gato vermelho: verdes redondos no sono do pimenteiro 😮 amarelo: cabeça de gato de onde nascem pimentos verdíssimos de sono: sono vermelho: sombras amarelas no gato redondo de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo: a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos: água: secura sombria do gato vermelho: o sonho da água dorme no pimenteiro: a sombra da cal das secas paredes dorme no gato de água amarela: a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato: o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho: a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro: a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo: pimenteiro redondo: pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo: o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho: o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo: o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdíssimo enrolado no sonho: e dorme o pimenteiro com as sombras dos gatos redondos enrolando-se nas folhas: silêncio de sonho sono de tempo: tudo amarelo: noite do pimenteiro sono da cal folhas do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite: noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempo debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme: a noite dos tempos: um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro: pimenteiro desaparecendo: a cal morrendo no sonho das folhas pequenas: o silêncio de tudo no mundo inteiro:
etceteramente vosso inteiro:

herberto helder:
em janeiro:
mil novecentos e sessenta e três


Salette Tavares

«Maquinin»

Transcrição >

Maquinin

Eu visto o que vesti ao manequim
sou poeta que mente o que se sente
e de só fico contente quando visto
aquilo que se ri atrás de mim.
Manequim do meu amor como te vejo
todo de cera e sedas emprestadas
em meu desejo sou eu que de manejo
em não, em flor
em tempestade e nadas.

Euvis tuque  versti auma  nequim
osou poé  taque men  tuque  sessen
ti de só  fico  con ten  tequan
duvis  tuaqui  luque  serri atraz de mim.
Ma  nequim  dumê  uamô
rcomo  tevê  ju
tô  dude  cê  rai  sê  dazen prestá
dazem  meude  zê  jussoueu quete manê
juem  nã uem  flô
remten  pestá  di  nádas


António Aragão

«Telegramando»


«Intervenção e movimento»

Transcrição [excerto] >

1

O excessivo culto do indivíduo afastara a possibilidade duma intensiva participação dos outros no objecto artístico mesmo até desse modo recuado como já fora praticado em velhos ateliers, escolas e comunidades primitivas.

O endeusamento extremista da individualidade ofereceu, sem dúvida, um flanco bom de comportamentos e válidas oportunidades, mas, por outro lado, cavou mais largo e fundo o fosso entre o artista e o público, distanciando o fruidor do plano de participação que é afinal o único plano em que o sentir toma posse física ou material, ou seja, a posse total do objecto artístico.

Mas o prestígio do individualismo atingiu o seu termo: o seu estado é agónico. Tendo perdido a base ontológica sobre que assentava, poroso e esgotado, atingiu o seu máximo grau de fusão, dentro já dos limites do colectivismo.

Assim, no interior desses limites colectivos, o indivíduo que cria qualquer coisa, cria não apenas para os outros mas com os outros.

De facto, no seio das comunidades modernas de grande consumo e forte informação, acontece como não podia deixar de ser, uma maior interpenetrabilidade dos campos campos de criação e participação (arte colectiva), quer dizer, surge uma aproximação mais densa entre o fabricante ou criador e o necessário consumidor.

Todos se interpelam, convocam e actual em comum.

Hoje o fruidor, o comum dos homens, o denominado público, em frente de certos objectos artísticos, deixa de lado a cómoda ou incómoda posição estática de simples receptor de sensações e passa a actuar como interveniente, como elemento activo, participante, como provocador das suas próprias emoções.

Ele já não necessita apenas. Necessita-se. Já não está em frente munido somente da sua antena receptiva, mas, pelo contrário, prolonga-se, estende-se, projecta também os seus dados, joga o seu prazer.

Por seu lado, o artista deixou de ser o isolado, o solitário, o bruxo exilado na clássica torre de marfim e mistério, para descobrir o seu jogo, oferecer os seus segredos, exibir os seus truques, pedindo em troca que os outros desvendem os seus e se descubram.

A reciprocidade tornou-se lei assente e idioma social no respectivo entendimento. A penetrabilidade dos dois campos um no outro, o do artista e do fruidor, destruiu as posições extremas em que até aí se separavam: fundiram-se, interligaram-se irremediavelmente mediante o objecto criado. À posse apenas «espiritual» sucedeu-se a posse física. Em lugar da dourada contemplação surgiu a interessada intervenção contemplativa: inter-acção: acto-mútuo de concordância criativa.

Ler transcrição completa de «Intervenção e movimento», de António Aragão


E. M. de Melo e Castro

«[A arte experimental…]»

Transcrição >

A Arte Experimental é genericamente uma tendência para a reestruturação sistemática dos métodos e razões da criação artística integrada no tempo tecnológico e no espaço vivencial em que nos encontramos. É assim que se pode dizer que toda a arte nasceu e nasce sempre experimental, só deixando de o ser quando cessam as suas motivações existenciais. Então passa a haver documentos para a história de arte, abrindo-se o campo à valoração electiva de determinados períodos, correntes, autores como percursores ou mestres de actuais tendências e experiências criadoras.

Pode dizer-se que a forma sob a qual se entende hoje a Arte Experimental pode ter começado com a tendência, desde há muito verificada em diversos autores, para a abolição de géneros literários convencionais, dando-se à poesia o significado de criação e sendo ela o denominador comum de todas as formas artísticas quer plásticas quer verbais, etc. Uma tendência geral para a síntese deve ser, pois, apontada como o primeiro passo para o entendimento da estrutura das artes, actualmente. Mas esta síntese deve fazer-se rigorosa e seguramente. De outro modo parece-nos inalcançável. Para isso é necessário um momento de análise, de estudo da estrutura da obra de arte e dos métodos da criação. Tudo isto na busca dos elementos fundamentais para a síntese estrutural. É assim que a Arte Experimental de hoje se desenvolver num aprofundamento sistemático de todas as manifestações do espírito humano, quer subjectivas quer objectivas, servindo-se de todos os recursos e vias tecnológicas de que vamos dispondo e que vamos dominando cada vez mais eficientemente e mais amplamente no nosso dia-a-dia. O artista de hoje, além de si próprio, como criador de arte, dispõe de recursos que lhe são tão próprios e específicos como os naturais, e que são as suas próprias criações de carácter tecnológico, científico ou utilitário, isto é, as máquinas e as teorias científicas.

No estado actual da experimentação de tipo analítico, podemos considerar os seguintes tipos de Poesia Experimental, cada um deles ligado a funções biológicas e intelectuais específicas e também a uma determinação da forma de percepção:

  • Poesia visual – Caligramas de Apollinaire, Experiências gráficas do Futurismo, Poesia concreta
  • Poesia Auditiva – Experiências com a voz humana tratada ou não pela magnetofone. Poesia fonética, rítmica ou melódica com palavras, sílabas ou sons puros independentemente do seu significado convencional. Algumas experiências dadaístas e letristas. Composição directa na banda sonora.
  • Poesia táctil – O Poema é um objecto. Objectos encontrados. Todos os métodos de construção que dão ao poema um corpo material.
  • Poesia respiratória – Experiência de Pierre Garnier com o sopro humano.
  • Poesia linguística – E. E. Cummings. James Joyce. Ezra Pound e muitos outros. Criação de palavras e línguas novas muitas vezes de carácter não directamente semântico. Poesia poliglota.
  • Poesia conceptual e matemática – Cibernética. Métodos combinatórios. Estrutura numérica da obra de arte. Poemas electrónicos.
  • Poesia Sinestésica – Desenvolvimento das sinestesias (Rimbaud). Produtos híbridos dos tipos de poesia já referidos.
  • Poesia Espacial – Mallarmé «Un coup de dés». Poema concreto.
  • …………. – Muitos outros tipos de poesia se podem prever ligados aos sentidos e a outras actividades humanas diferenciadas.
  • De um modo geral, o sentimento espacial manifesta-se como denominador comum de todas as formas actuais de arte.

A poesia concreta não é mais que um momento deste vasto processo analítico. Mas o poema visual é também um factor de síntese, pois ele resulta de um equilíbrio plástico-imagístico de uma qualidade diferente da do poema convencional, encontrando as suas raízes nas escritas ideogramáticas orientais, e estando simultaneamente ligado ao visualismo sintético que caracteriza o mundo de hoje. Ver que caracteriza o mundo de hoje. Ver, e possuir! Por outro lado, o espacialismo, isto é, a proposição de um espaço habitado de palavras sobrecarregadas de tensão imagética, é como se sabe, típico do poema concreto.

Neste Suplemento incluem-se poemas concretos, linguísticos, combinatórios, plásticos e fonéticos.


Reproduções da Exposição Visopoemas, juntamente com uma Nota sobre exposição


Valores concorrentes para a formação da poesia experimental [Diagrama “a palavra… poesia experimental”]


Ficha de O Experimental Português e suas relações internacionais [Cronologia]


José Blanc de Portugal

«Notas sobre a moderna poesia experimental portuguesa [Fragmentos]»

Transcrição [excerto] >

Se me permitem um leve «humorismo» de expressão, começarei por vos dizer que a Poesia foi, é e continuar a ser o nosso mais sólido valor na economia literária. Como me atrevo eu a repetir uma tão evidente banalidade? Talvez porque, de tanto ter sido repetida, muita gente nem sequer dá por ela, e muitos têm a tendência de todos os tempos para considerar que novas formas poéticas, novas ou remoçadas tentativas de novas tentativas de expressão poética, coroadas ou não de êxito literário, correspondem antes a sintomas de decadência literária. O repisar de palavras que deliberadamente usei, pleonástico quanto a estilo, não o será quanto ao que quis dizer com suficiente precisão… É que, a mor das vezes, as novidades são repetições, ampliações, variações – ou o que lhes queiram chamar – de novidades de outros tempos – cá estou eu de novo a repetir pleonasticamente as palavras…

Ler transcrição completa de «Notas sobre a moderna poesia experimental portuguesa [Fragmentos]», de José Blanc de Portugal


Concerto e Audição Pictórica


1965 – 2015

50 anos de Poesia experimental em Portugal

Concerto e audição pictórica

V(l)er tb > «Visopoemas»; «Suplemento do Jornal do Fundão»


Concerto e audição pictórica | Happening realizado na sala de exposições da Galeria Divulgação, 7 Janeiro 1965, no contexto da exposição Visopoemas. Poesia, música e performance. Participaram: Jorge Peixinho, António Aragão, Salette Tavares, E. M. de Melo e Castro, Clotilde Rosa, Mário Falcão e Manuel Baptista.


Programa >

Transcrição >

CARTRIDGE MUSIC — JOHN CAGE

no INTERVALO I:

… escutar-se-á como música de funto

O FUNERÃO DO ARAGAL — ANTÓNIO ARAGÃO

PEÇA 59 (MÚSICA NEGATIVA) — E. M. DE MELO E CASTRO
(1.ª audição mundial)

A PORTA NEGRA — JORGE PEIXINHO

Zzzzzzzz………………… Rrrrrrrr!…
(esta obra não será dada ao público por provocar sono)

SUITE FOR TOY PIANO — JOHN CAGE

ELECTROVAGIDOS — JORGE PEIXINHO

SONATA AO LU…AR LIVRE
(esta obra não será apresentada cá porque não há ar livre)

no INTERVALO II:

FOCO E RUÍDO

CONCERTO A METRO (MARCHA MILITAR)

BALOPHONIA
(com a participação do Espírito Humano)

BIDOTRÁFICO

extra-programa (se houver bises):

ÁRIA À CRITICA — SALETTE TAVARES
(interpretada pela autora)

(a ordem do programa será alterada pelos seguintes motivos
(im)previstos):

______
______
______

intérpretes
antónio aragão
clotilde rosa
e. m. de melo e castro
jorge peixinho
manuel baptista
mário falcão
salette tavares


Conteúdos >


O FUNERÃO DO ARAGAL — ANTÓNIO ARAGÃO


PEÇA 59 (MÚSICA NEGATIVA) — E. M. DE MELO E CASTRO

Peça 59 música negativa ou Poema, in Poesia Experimental: 2º caderno antológico (1966)

Transcrição >

[antes da pauta]
[sinal quadrado] – percutir no ar ou procurar uns olhos em plena rua
[sinal triângulo] – agitar no ar ou estar definitivamente só
[sinal círculo] – percutir pousado ou a inquietação
[depois da pauta] — segundo esta pauta foi apresentada em lisboa – concerto e audição pictórica de 7/1/65 – a música negativa : então A B C eram 3 instrumentos de percussão. Agora, no poema, que deve ser lido segundo o valor morfosemântico dos sinais indicados, A B C podem ser 3 caminhos de procura .


Música negativa [Realizado entre 1965 e 1977 | Duração: 3’56”]

“Este filme é sonoro”, lê-se no início de “Música Negativa”, de E. M. de Melo e Castro, que explica ainda: “Música negativa (1965) nada tem a ver com a valorização musical do silêncio. Tem a ver (porque é para ser vista) com a ausência do som. Começou como uma brincadeira infantil e continuou como metáfora contra a impostura do silêncio e da censura salazarista, em Janeiro de 1965, sendo uma das participações no happening organizado por Jorge Peixinho Concerto e Audição Pictórica na Galeria Divulgação, em Lisboa. Este filme foi realizado por Ana Hatherly em 1977, tendo o autor como performer.” (in ‘O Caminho do Leve’).


ÁRIA À CRITICA — SALETTE TAVARES

[Manuscrito cedido pela família de Salette Tavares]

Transcrição [a partir de manuscrito autógrafo] >

ó Ó Oh!
cricricri
cri     cricri     cricri
óó cri
óó   óó   cri   ticri   cricri
criticri    ticri    criti
criticri   criticri   ticriti
Oh!
criti… criti… criti… criti… criti…
criti… criti… criti… óóóóóó criti…
criti… Criti criti criti (intervenção sonora)
CRITI         CUS
(Lírica)
Da nó     da nó     da nossa terra
Oh! das cátedras nos jornais
ou noutros muitos sítios onde instalados
com grande espaço para o dito traseiro
surrealisticamente amputados
am     putados
am     putados
(intervenção sonora) da parte superior do
corpo por uma secção paralela ao nível
do assento
para     lela
para     lela
pa   ra   lela ao nível do assento e
que passa com a inclinação vulgar que
têm as cómodas instalações em relação à horizontal,
por cima das sobrancelhas mutilando o ouvido interno
até à base que as vértebras cervicais estabelecem
nesse cimo mais cimo mas deixando-vos
as orelhas     (o pavilhão)
o pa  vi  lhão     completamente à solta bem como o recheio das órbitas intocadas
Ó    cricri    ti    cus
nós servimo-vos há muitos anos
a simplíssima consciência de um ofício agora
que o peso dos anos antes que [viveis]
transformou em enormes ratoeiras
nascidas de pequeníssimas rasteiras.
Os nossos espelhos são logicamente cegos
sem metáfora
devolvem a imagem
os sonetos patetas são patéticos como o João pateta da história
os adjectivos são substantivos ou vice versa e reversa
porque construímos a gramática
as virgulas inúteis já não separam substâncias que sempre se usaram separadas
pomos intervalos nas linhas, pausas sem sinai[s]
impostas na estrutura caminho
que o trânsito dos olhos exigiu
na variedade crescente da hora e dos sentidos novos
Invenção de espaço
ritmos e antiritmos
as palavras inteiras
as palavras cortadas em bocados inteiros
as palavras cortadas que não suportam os vossos
erros de ortografia quando suprimis o espaço
que assim as partiu e recriou
ó irresponsáveis e ignorantes,
que a toda a hora usais a linguagem culinária
das formas e conteúdos
(para não dizermos tudo).
Nós servimo-vos pasteis de massa tenra
com recheio e
pela vossa preguiça não désteis pelo recheio tão intensamente exigido.
O nosso recheio pede só as faculdades normais
dos sentidos todos a trabalharem e
sobretudo      um sobretudo bem talhado
à moda, que muda em cada hora no sentido crescente do espírito que se actualiza e
acrescenta na medida em que sabe consumir.
Mas vós preferis pasteis de massa tenra
comidos com garfo e faca, talhados com
a antiquíssima fôrma do hábito
e heis-vos
cri    cri    cri    ti    cus
(silabado rápido)
cricriti    cus (intervenção exterior: da Ca[fetaria]
cricriti    cus da nó ssaté rra
guardai as vossas cátedras nos jornais
ou nos outros muitos sítios onde instalados
com grande espaço para o dito traseiro
podeis continuar surrealisticamente amputados
da parte superior do corpo pela secção paralela
ao nível do assen[to]
e que passa com a inclinação vulgar das cómomodas instalações em relação à horizontal
por cima das sobrancelhas mutilando o
ouvido interno até à base que as vértebras cervicais estabelecem nesse cimo
deixando-vos as orelhas, o pavilhão,
completamente à solta
bem como o recheio das órbitas intocadas
óó     óó-óó     cricri     cricri     ti     cus.


Recepção crítica >


Ana Hatherly

«Uma manifestação de Neodadaísmo», in Diário Popular, «Semana Musical», 28-01-1965 [in PO.EX: Textos teóricos e documentos da poesia experimental portuguesa, org. Ana Hatherly & E. M. de Melo e Castro, pp. 46-48].

Transcrição >

Na Galeria Divulgação realizou-se, há dias, um «Concerto e Audição Pictórica», a que fui convidada a assistir. Este espectáculo realizou-se na sala de exposições da Livraria onde estava decorrendo uma exposição de «Visopoemas» de alguns dos autores do volume «Poesia Experimental», recentemente publicado em Lisboa.

O «Concerto», chamemos-lhe assim por enquanto, foi o que se poderá chamar uma manifestação de «neodadaísmo». Músicos e poetas, colaborando neste espectáculo, quer pela sua presença, quer pela presença das suas obras, retomam o entendimento «dada» primeiro entre escritores e artistas.

Para realizá-lo colaboraram também, entre outros, os seguintes elementos: o público, um caixão, um piano de meia cauda, instrumentos de percussão vários, balões, metrónomos, uma harpa, um piano de criança, palavras soltas, chocalhos de várias espécies, com e sem badalo, uma flauta de bisel, uma couve, um bidê, risos, pandeiretas, música de Chopin, um ré-ré, um despertador, um rolo de papel higiênico, um jarro de água, um brinquedo de corda, 2 violinos de criança (brinquedos), uma máquina de barbear eléctrica, um cravo (flor), uma casa de cão que ladra (brinquedo), pratos, guizos, um apito, espaço tempo, ritmo, luz, silêncio, uma pistola (brinquedo).

Para dar uma ideia da maneira como decorreu o espectáculo, descreverei sumariamente o número do funeral, que foi mais ou menos assim: E digo mais ou menos porque só consegui ver relativamente bem a partir do momento em que consegui subir para um banco que providencialmente apareceu na livraria. Devo acrescentar que na segunda parte do espectáculo consegui um lugar sentado no chão, mas na primeira fila. Quando então subi para o banco vi sentados a uma mesa alguns indivíduos comendo. Junto deles um caixão de defunto, verdadeiro, preto, decorado a fitas de prata. Dentro dele estava alguém, que eu não via, mas supunha ser o denominado Aragal. Ruídos de talheres, de mastigação, de sílabas confusas, marcha nupcial tocada ao piano (neste momento todos se lembraram do Noivado do Sepulcro), etc. Quando terminou a refeição, que durou cerca de dez minutos, os indivíduos que até então tinham estado sentados à mesa dirigiram-se para o caixão e começaram a atirar lá para dentro: cascas de laranja, bocados de pão, flores, polvilhando o morto de sal e pimenta. Então o número termina: ergue-se o morto-vivo e retiram o caixão da cena.

A seguir transcrevo um escrito impresso num dos vários cartoes-catálogo da exposição que me foram distribuídos e que creio ser da autoria do poeta E. M. de Melo e Castro. Na minha opinião ele elucidará os leitores quanto aos fins visados por estes artistas: «se a vanguarda é necessária na desmitificação das estratificações sociológicas anquilosadas (quaisquer que eles sejam) a poesia experimental é já maturidade do CAOS como rigor da invenção – vide princípio da entropia: medida da desorganização de um sistema. o grau de entropia do universo está em constante aumento. o trabalho criador do artista experimental é precisamente criar estruturas atomizadas de grande entropia pois quanto maior for a entropia dessas estruturas maior será e mais vasta será a informação possível – baseada no cálculo das probabilidades. o utente do poema que se aperceba das informações que for capaz. por isso e para isso aqui se experimentam os objectos e as pessoas em actos vulgares muito simples deliberadamente fora do seu contexto organizado quotidiano – redescobrindo o caos com as nossas mãos – experimentando.»


Salette Tavares

«Carta de Salette Tavares para Ana Hatherly» [9-01-1975] >

Durante a exposição na Divulgação fizemos um espectáculo, escândalo para muito parvo, com a excelente colaboração de Jorge Peixinho, Mário Falcão, Manuel Batista e outros artistas. Fraco o primeiro número por defeito do texto ou da falta de tempo para a colectivização da acção a outro nível. Mas excelente tudo o resto. A partitura do silêncio de Melo e Castro, Foco e barulho em que tivemos o prazer de surpreender o público em flagrante hipnotismo. A minha ODE À CRÍTICA, ainda inédita, foi dita como quem canta um lied encostada a um piano de cauda, e maravilhosamente acompanhada a bombo com o extraordinário humor de Mário Falcão. A gravação feita pelo Melo e Castro dá muito bem, tanto o silêncio espantoso durante a execução da sua partitura, como a minha ode. Uma história divertida aconteceu com o piano que para lá foi e a que eu assisti. No momento em que transportadores do piano com a sua técnica cuidadosa o inclinavam, rolou lá de dentro um ovo verdadeiro. Parecia uma história surrealista ao vivo. Um neto do proprietário usava o piano para esconder os ovos que roubava na cozinha.


E. M. de Melo e Castro

«António António Aragão Aragão» (Cibertextualidades 7, 2015)

Transcrição >

Este primeiro e talvez único happening em Portugal, foi um autêntico escândalo!

A proposta foi feita pelo músico e compositor Jorge Peixinho que numa posição interdisciplinar, contatou os poetas colaboradores da Poesia Experimental, mas também músicos como Clotilde Rosa (harpista da Orquesta Sinfónica Nacional) e Mário Falcão (multi-instrumentista da Banda da Guarda Nacional Republicana) e também o pintor Manuel Baptista.

O evento realizou-se na Galeria Divulgação, no espaço onde estava patente a exposição dos nossos trabalhos experimentais, chamada VISOPOEMAS.

António Aragão representou um papel que evidenciou uma outra faceta da sua múltipla personalidade: a transgressão, o humor, a denúncia e o absurdo.

O Funerão do Aragal foi um momento de absoluto humor absurdo …

Ao redor de uma mesa que foi trazida já posta, com pratos de comida, sentamo-nos e começamos a comer ruidosamente, mastigando e batendo com os talheres nos pratos… ao lado da mesa foi colocado um caixão de pinho onde o Aragão se deitou. Então todos nos levantamos um a um e despejamos os restos de comida dos pratos por cima do corpo do Aragão. Seguidamente levantamos o caixão e saímos lentamente da cena enquanto se ouviam acordes da marcha fúnebre do costume. O simbolismo era evidente tendo em atenção os mortos das guerras nas colónias de África…

Seguiu-se um solo da harpa …

No happenning cada participante tinha uma parte programada e outra improvisada… mas ninguém tinha a certeza do que iria acontecer, pois não conhecíamos o que cada um iria fazer.

A minha participação consistia na realização do poema gestual silencioso Música Negativa, na improvisação de Foco e Barulho e na participação em várias ações espontâneas e simultâneas com as dos outros participantes.

A Salette Tavares, entusiasmada, atirava rolos de papel higiénico coloridos sobre a assistência enquanto declamava a sua Ode aos Crí…Cri…Cri…Criti cus da nossa terra !!!

Creio que seria interessante estudar as reações que este acontecimento teve, principalmente nas páginas dos jornais, como Diário de Notícias e Jornal de Artes e Letras, onde ocorreu uma violenta ‘polémica’ entre o violinista surrealista Manuel de Lima e Jorge Peixinho… sobre a degradação moral e estética que o nosso happening representava (dizia o Lima !!!)

O intérprete das peças de John Cage foi Jorge Peixinho, mas com interferências de percussão e de harpa!… O Jorge Peixinho manipulou, que eu me recorde, pelo menos, um bidé, um revolver, um violino sem cordas… e um piano de brinquedo… mas de repente dirigia-se ao piano e tocava fragmentos de peças suas (?)…


E. M. de Melo e Castro

«Dois Acontecidos happenings», in In-novar, [pp. 57, 61 de O Fim Visual…].

Transcrição >

Na noite de 7 de Janeiro de 1965, na Galeria Divulgação em Lisboa, aconteceu alguma coisa a que se chamou “Concerto e Audição Pictórica”. (…) A equipa que realizou o “Concerto e Audição Pictórica” era a seguinte: Jorge Peixinho, António Aragão, Salette Tavares, Manuel Baptista, Mário Falcão, Melo e Castro, conforme consta no programa (…). (…) Esse programa parece-nos, a nós portugueses, simplista, de tão genérico que é, em relação à gravidade dos problemas que pretende resolver ou só equacionar. É que nós estamos de tal modo metidos e mantidos nos nossos compartimentos estanques do “nosso tabuleiro de ovos” que uma sucessão de actos insólitos ou meramente só simples feita colectivamente e segundo um mais ou menos vago programa nos parece antes de mais nada ridículo e inútil. Comunicação, nessa série de disparates? – Não!

Arte? – Nunca!

Educação? – Que ideia!

A arte, a educação, a comunicação são coisas muito sérias, que só seriamente (sem rir?) se podem realizar…

Tal foi o tom da crítica e da polémica que em 1965, nos jornais de Lisboa, se seguiu à realização do “Concerto e Audição Pictórica”. E creio que ainda haverá pessoas ressentidas com o esbanjamento de “talento” que nessa noite realizou Jorge Peixinho, ao tocar violino com uma arma de fogo, ao beber champanhe por um bidé, etc. etc., ou então Salette Tavares a cantar esganiçada uma ária à cri-cri-cri-crítica, ou António Aragão dentro de um caixão, ou até Melo e Castro (eu) a tocar música em instrumentos (chocalhos) silenciosos e a agredir as pessoas com focos de 1 000 W!!!

Foi de facto uma pena. Mas não é bem a essa pena que os críticos (principalmente musicais) apontaram que eu me desejo referir. Nesse happening a margem de improvisaçao foi enorme e por isso o ritmo diluiu-se um pouco e o envolvimento do público manifestou-se apenas pela excitação e indignação, em palavras azedas e discussões em termos pouco comuns (ai, como nós gostamos de nos indignarmos e depois não fazer nada…).


Depoimento de E. M. de Melo e Castro, por email, a Sandra Guerreiro Dias (12-04-2014)

O escândalo de todo esse happening [Concerto e Audição Pictórica] foi enorme e penso que dura até hoje… pela curiosidade que ainda suscita e a ambigüidade do conceito de happening ! Teve também as suas conseqüências pessoais, pois Mário Falcão perdeu o emprego … e Jorge Peixinho teve que suportar uma inacreditável polémica nos jornais, com o músico e crítico surrealista Manuel de Lima … mas muito tempo depois ainda os surrealistas argumentavam que aquilo não era um happening e que não tinha sido o primeiro…!!! Nunca encontrei a justificação objetiva destas afirmações.

A minha participação, chamada MÚSICA NEGATIVA, consistiu na interpretação ritualizada gestualmente, de uma partitura especialmente criada, usando três grandes chocalhos metálicos, sem os respectivos badalos que, portanto, não emitiam som algum. Essa execução durou cerca de 3 minutos. Passados alguns anos repeti esta performance para ser filmada em 16mm por Ana Hatherly. Mas muitas vezes a repeti com outros instrumentos sem som, como por exemplo garrafas de Coca-Cola… A metáfora do silêncio era polissêmica e facilmente apreensível… no sufoco que nessa época se vivia em Portugal.

FOCO E BARULHO consistiu em escurecer a sala para depois acender inesperadamente um foco de 1000 watts, voltando-o para a assistência, durante cerca de 30 segundos. Então apaguei o foco e começou um enorme barulho feito simultaneamente por todos os instrumentos ali existentes, o qual durou 15 segundos. O efeito sobre a assistência foi devastador pois a simbologia era evidente… Tudo durou pouco mais de 1 minuto, voltando depois a sala à luz normal.


E. M. de Melo e Castro

EU-DADA-HOJE [in In-novar, pp. 71-75, publicado originalmente em 20/2/72]

Transcrição [excerto] >

Falo por mim. A década de 60 foi de renovação e de revalidação DADA. Se tivesse vivido em 1914 em Zurique teria sido DADA. Após a exposição DADA no Museu de Arte Moderna de Paris em 1968, tornou-se muito difícil passar por cima de DADA. Não há razão nenhuma para que eu não possa ser DADA Hoje e Aqui. Mesmo para os surrealistas ortodoxos de Paris e de cás DADA voltava. Era um Perigo. Vendo bem que diferença havia entre Zurique 1914 e Lisboa 1964?

Ler transcrição completa de «EU-DADA-HOJE», de E. M. de Melo e Castro


Arnaldo Saraiva

«Um novo ‘espectáculo’: happening», in Jornal de Letras e Artes, Lisboa, 6 Julho 1966, pp. 1 e 3.

Transcrição [excerto] >

Recordam-se de uma sessão que há tempos foi levada a efeito pelos experimentalistas portugueses da Livraria Divulgação de Lisboa? António Aragão levantou-se um caixão, exalando um lírico e telúrico cheiro à cebola que sobre ele tinha sido derramada; Salette Tavares mostrou o seu candelabro alfabético, a que eu tiraria algumas letras (pura experiência), e leu uma violenta sátira aos cri-cri ticos, que infelizmente não acabou com a raça, o que terá levado o próprio O’Neill a repetir, mais tarde, o calembour; Melo e Castro compôs uma notável sinfonia com o movimento sincopado das mãos, só foi pena que ninguém a tivesse escutado; Jorge Peixinho descarregou o seu saco de pêndulos sobre uma mesa, pô-los a funcionar e abandonou-os assim aos assistentes que, durante minutos largos, tiveram os seus bocejos ritmados; e Falcão e Baptista animaram a cena com pífaros e pífias que, não obstante, acabaram por provocar a mais terrível tempestade que já se viu no mundo. Se não houve senhoras desmaiadas, gente espojando-se no chão (atapetado!), saltos, pinotes, livros surripiados à generosidade de Bruno da Ponte, gritinhos histérico-estéticos – isso deveu-se apenas ao facto de os presentes detestarem francamente todo e qualquer exibicionismo, confiando à sua psique os sons e movimentos que o corpo pedia.

Ler transcrição completa de «Um novo ‘espectáculo’: happening», de Arnaldo Saraiva


Polémica >


Manuel de Lima

«Concerto e audição pictórica sob a orientação de Jorge Peixinho na Galeria Divulgação» in Jornal de Letras e Artes, Lisboa, 20 Janeiro 1965, p. 11.

Transcrição [excerto] >

Partindo deste postulado de John Cage: Todas as coisas nos dão a sua música, uma porta que bate, um automóvel que passa, um grito perdido no silêncio, ou mesmo os instrumentos ortodoxos executados de qualquer maneira menos aquela que é apropriada, enfim, desde que toda a matéria sonora saída de qualquer fonte é logo música, torna-se aparentemente fácil, comodamente acessível, a realização de uma sessão musical à maneira de Cage, mesmo que não sejam músicos a elaborá-la.

Ler transcrição completa de «Concerto e audição pictórica sob a orientação de Jorge Peixinho na Galeria Divulgação», de Manuel de Lima


Jorge Peixinho

«Resposta a Manuel de Lima» in Jornal de Letras e Artes, Lisboa, 10 Fevereiro 1965, p. 5 e 12.

Transcrição [excerto] >

Uma primeira coisa me chocou na crítica eivada de inexatidões, falsos pontos de partida e contradições, que Manuel de Lima dedicou ao nosso concerto experimental: o facto do referido senhor haver subordinado toda a nossa participação espiritual à adesão incondicional ao compositor John Cage, tentando circunscrever o nosso acto artístico a uma simples identificação (ou imitação?) dos princípios estéticos, teóricos e ideológicos que têm norteado o referido compositor. Pergunto: o que é que autoriza Manuel de Lima a tirar semelhantes conclusões e porque razão tão facciosa (por ele e ó por ele aceite como válida) lhe irá servir para a sua posterior verborreia? O simples facto de havermos incluído no programa duas obras de John Cage? Ou por termos levado a efeito a realização de um concerto experimental, um espectáculo de teatro musical directamente aparentado com os «happenings» do referido compositor?

Começarei por aprofundar a segunda questão, mais ampla e fundamental.

Ler transcrição completa de «Resposta a Manuel de Lima», de Jorge Peixinho


Manuel de Lima

«Quando os Androides de Cage renegam o do no» in Jornal de Letras e Artes, Lisboa, 10 Fevereiro 1965, pp. 5, 12 e 14.

Transcrição [excerto] >

Antes de mais, meu caro Jorge Peixinho, deixe-me traçar uma breve análise sobre a influência que pode operar no meio musical, extensiva, porventura, ao meio cultural português, a sua inclusão no acervo das réplicas que se têm levantado contra a minha crítica. Se as outras vozes não foram, na verdade, eficientes, não só por se terem furtado ao assunto central, como pela carência de autoridade manifesta, não quer isso dizer agora, que não ganhem, pelo menos um certo volume, reforçadas com o seu depoimento.

Ler transcrição completa de «Quando os Androides de Cage renegam o dono», de Manuel de Lima