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Texto-Código [Combinatória, Interactividade, Literatura Electrónica]


De Géneros da Poesia Experimental > Poesia Digital: Forma de poesia que utiliza as potencialidades do computador como máquina criativa, promovendo desse modo uma simbiose entre o artista e a máquina e assentando na construção de algoritmos de base combinatória, aleatória, multimodal ou interactiva. (Também: Poesia cibernética; Poesia electrónica; Ciberliteratura)


Sendo a poesia experimental caracterizada pelas práticas expressivas que se centram na materialidade significante e nos processos de semiose literária, podemos dizer que a literatura experimental baseada em procedimentos computacionais e informáticos, também designada como literatura electrónica, literatura digital, ou ainda ciberliteratura, envolve, igualmente, um trabalho não-trivial e expressivo que podemos associar à ergodicidade cibertextual.

«Texto Ergódico» é um termo proposto por Espen Aarseth que combina as palavras Ergon (trabalho, obra) e Hodos (percurso, via). Trata-se por isso de configurar uma teoria geral do comportamento textual, ao invés de pensar o cibertexto como uma propriedade exclusiva da informatização. Como explica Aarseth, o cibertexto é uma perspectiva acerca das formas de textualidade. Os textos ergódicos "produzem estruturas verbais, com efeito estético" e são "máquinas de produzir variedade de expressão".

Ora, se a escrita é uma actividade espacial, então a textualidade ergódica é praticada há tanto tempo como a escrita linear. O livro, interface de conhecimento, permite o acesso aleatório, o comentário (marginalia), a escolha: o códice, nesse sentido, é "tão importante como o computador no desenvolvimento da textualidade não-linear" (Aarseth 67).


Pedro Barbosa tem explicado esta transição de um conceito unitário de texto para um paradigma que se caracteriza pelos textos múltiplos e generativos, nos quais existe uma dialéctica entre a virtualidade e a actualidade, entre o código potencial e a sua geração.

Na sua teoria da ciberliteratura, resumida no livro-súmula «A Ciberliteratura. Criação Literária e Computador» (1996), distingue entre computador executivo e computador criativo, configuração que nos ajuda a distinguir entre literatura digitalizada (a que utiliza o computador executivo) e literatura digital, ou ciberliteratura (que utiliza o computador como máquina semiótica).

Trata-se de uma nova noção da obra (de uma nova concepção do Universo, também), que nos obriga a distinguir entre múltiplo e cópia, entre autor e leitor, entre actor e espectador.

Também Manuel Portela explicou que a hiperficção e a hiperpoesia resultam, "não apenas na transposição de géneros e formas textuais conhecidos para o novo meio, mas na produção de géneros e formas especificamente digitais."


A revista «Poesia Experimental», arauto da poesia concreta e visual portuguesa, teve inicialmente como intuito, pelo menos pelo relato de Aragão, a publicação de textos combinatórios e computacionais...

Aragão esteve efectivamente com Balestrini (notícia «A arte como campo de possibilidades», 7-8-1963).

Relato de Pedro Barbosa sobre a obra de Angel Carmona (in «Percursos textuais», p. 125) e sobre Fernando Namora [Diálogo em Setembro].

Herberto Helder, no posfácio de Electronicolírica, apresentou também essas experiências de Balestrini, em 1961, com computadores, dizendo: Balestrini, “escolhendo alguns fragmentos de textos antigos e modernos, forneceu-os a uma calculadora electrónica que, com eles, organizou, segundo certas regras combinatórias previamente estabelecidas, 3002 combinações, depois seleccionadas”.

Também textos como os d’“A Máquina de Emaranhar Paisagens”, onde Helder combina livremente fragmentos dos livros do Génesis e do Apocalipse, mas também fragmentos de François Villon, Dante, Camões e do próprio; ou o Húmus, escrito a partir de “palavras, frases, fragmentos, imagens, [e] metáforas” da obra homónima de Raul Brandão, se inserem no conjunto de textos experimentais que encenam a transformação e a devoração da tradição.

Pedro Barbosa, a partir de 1976, motivado por um curso de Linguística computacional leccionado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto por Óscar Lopes, realizou as primeiras experiências com texto combinatório automático no Laboratório de Cálculo Automático (LACA) da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Os trabalhos de Herberto Helder foram expandidos por Pedro Barbosa (1950-) em algumas das experiências iniciais que desenvolveu com poesia generativa.

A combinatória de que deriva a literatura gerada por computador inscreve-se numa tradição que percorre a história da literatura. Em Portugal, ela foi ainda experimentada, de um modo pré-informático, nos trabalhos de E. M. de Melo e Castro (bastaria lembrar o seu ensaio de cariz combinatório, A proposição 2.01, de 1965, ou, em Álea e Vazio, de 1971, a colocação, como hipótese criativa, de um algoritmo literário), de Ana Hatherly (desde as séries do Anagramático, de 1970, até ao mais recente Rilkeana, de 1999) e até de Alberto Pimenta.

  • Textos de E. M. de Melo e Castro originalmente publicados em Álea e Vazio (1971) e retextualizados em XML (2014), usando o Poemário.js (2014).

O programa Sintext, publicado em 1996 no livro electrónico Teoria do Homem Sentado, tornou-se entretanto a ferramenta de trabalho do autor, correspondendo já a uma espécie de migração, ou pelo menos tradução, para a linguagem de programação C++, dos algoritmos feitos em BASIC atrás referidos. Este sintetizador, com melhoramentos em relação às versões anteriormente experimentadas nos programas Permuta e Texal, foi criado em colaboração com o Engenheiro Abílio Cavalheiro.

Mais tarde, na Teoria do Homem Sentado, alguns dos textos trabalhados por Pedro Barbosa foram reprogramados, em MS-DOS. O programa generativo que actualiza estes textos, publicado numa disquete numa versão em MS-DOS, contém um algoritmo de textos variacionais potencialmente infinitos, mas, além de ter sido programado num sistema hoje considerado em desuso, encontra-se ainda fechado em ficheiros binários, tornando-se assim indisponível para o leitor que o pretenda conhecer.

Reconhecendo esta limitação, Barbosa investiu em 2000 na criação de O Motor Textual, com a colaboração do Engenheiro José Manuel Torres, migrando o gerador textual Sintext para uma nova versão, Sintext-W, concebida a pensar nos computadores mais recentes e também na internet. Esta versão foi desenvolvida usando a linguagem de programação Java, a qual se mostra bastante mais maleável e aberta do que as anteriores.

Textos generativos  disponíveis >


As Releituras que temos vindo a fazer mostram (ou pelo menos tentam mostrar) que já se encontravam inscritos na poesia concreta e visual alguns dos aspectos programáticos da literatura informacional.

  • Transparência / Oblivion, de E. M. de Melo e Castro, publicado no 1º número da Revista PO-EX. Versão hipermédia de Rodrigo Melo com concepção de Pedro Reis.
  • Poemas combinatórios programados por Rui Torres com base em poemas de Salette Tavares | Motor textual, animação, a partir de textos de Salette Tavares e léxico de Salette Tavares e Fernando Pessoa | Realizado no âmbito e por convite do Dia da Poesia, Centro Cultural de Belém, Lisboa, 21 de Março de 2010 | Recursos utilizados: Flash/Actionscript | Colaboradores: Rodrigo Melo, Nuno F. Ferreira.
  • Poema Algarismos Alfinete, de Salette Tavares, publicado no 1º caderno da PO-EX, em versão hipermédia de Rui Torres, a partir de código Actionscript de Jared Tarbel. Clique nas palavras para navegar.
  • Motor textual, som, texto animado a partir de Húmus de Herberto Helder (1967) e Húmus de Raul Brandão (1917) | Recursos utilizados: Flash, Actionscript, XML | Colaborações: Programação de Nuno F. Ferreira, Som de Luís Aly & Rui Torres, Voz de Nuno M. Cardoso | Também publicado em CD-ROM (versão melhorada) no livro Herberto Helder Leitor de Raul Brandão (Porto, Ed. UFP, 2010).
  • Mapa do deserto, de E. M. de Melo e Castro, publicado no 1º número da Revista Hidra, aqui em versão hipermédia de Rui Torres, a partir de código Actionscript de Jared Tarbel | Utilize comando de tecla F5 para refrescar página/refresh - desse modo abrirá um diferente mapa do deserto.
  • Versões / releituras da poesia encontrada de António Aragão: 1. Poemas encontrados, de António Aragão, publicado no 1º caderno da PO-EX; 2. Poemas encontrados em versão realizada a partir de código Actionscript de Jared Tarbel; 3. Poemas encontrados em versão realizada a partir de código Actionscript de Jared Tarbel e programação PHP de Nuno F. Ferreira, "alimentado" por notícias de jornais em formato RSS
  • Gerador de Homeóstatos, em homenagem a Jos-Alberto Marques [por Rui Torres e Nuno F. Ferreira]. v. Homeóstatos de J.-A.M.

Literatura electrónica no século XXI. Alguns exemplos, apresentação e análise:

Antero de Alda >

Poesia hipermédia (RT) >

  • Amor de Clarice. Versão hipermédia; versão combinatória. Texto animado, som, video, interactivo | Recursos utilizados: Flash | Colaboradores: Carlos Morgado e Luis Aly (som), Ana Carvalho (vídeo), Nuno M. Cardoso (voz), Texto de Rui Torres a partir de "Amor", de Clarice Lispector | Trabalho publicado na Electronic Literature Collection, Volume 2, DVD-ROM & Web e disponível em CD-ROM editado pelas Edições da UFP.
  • Amor-mundo ou a vida, esse sonho triste. Texto animado, som, poema visual generativo, interactivo | Recursos utilizados: Flash, Actionscript, XML | Colaboradores: Jared Tarbel (programação), Filipe Valpereiro e Nuno F. Ferreira (programação de som), Sérgio Bairon e Luís Aly (som), Nuno M. Cardoso (voz) | Texto de Rui Torres a partir de poemas de Florbela Espanca
  • Do peso e da leveza. Motor textual, com som, a partir de textos e léxico de Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner Andersen | Realizado no âmbito e por convite das Oficinas do Convento de 2009, Conversas à Volta do Peso e da Leveza, Montemor-o-Novo | Recursos utilizados: Flash/Actionscript | Colaboradores: Nuno F. Ferreira (programação) e Luís Carlos Petry (imagens da v. horizontal)
  • PoemAds. Motor textual, animação, a partir de slogans publicitários | 2012 | Corpus: slogans publicitários de manteigas, cervejas, águas, carros, refrigerantes, bancos, cartões de crédito, champôs, supermercados | Léxico: Outros Slogans publicitários disponíveis em linha | Fontes (tipográficas) utilizadas: The League of Moveable Type's Open Fonts | Recursos utilizados: Flash/Actionscript | Colaboradores: Nuno F. Ferreira | Trabalho publicado na Anthology of European Electronic Literature.
  • Poemas no meio do caminho. Motor textual, com som | Recursos utilizados: Flash/Actionscript | Colaboradores: Nuno F. Ferreira (programação), Luís Aly (texturas sonoras), Nuno M. Cardoso (voz), Luís Carlos Petry (imagens da v. horizontal) | 4t Premi Internacional "Ciutat de Vinaròs" de Literatura Digital | Trabalho também publicado na Electronic Literature Collection, Volume 2, DVD-ROM & Web | Disponível em CD-ROM com livro (Ed. UFP)

Misturando a performance >

  • .txt is an interactive performance work, mediated by several sensorial technologies, that explores contemporary transversal forms of artistic languages. The result is the creation of a unique vocabulary articulated physically, through interactive soundscapes, visual composition and real time choreography; an array of artistic expressions that support the dramaturgic intention. [Multimedia National Prize 2010, Art and Culture).
  • Terra Google. Performance de Manuel Portela, 2009-2012 | Duração: 20:11 min. Ficheiro vídeo [Quicktime / MP4]
  • Miguel Azguime | Título: Itinerário do Sal [Op-ErA, Miso Ensemble] | Editora: Miso Records | Data: 2008 | Colaboradores: Miguel Azguime - performer, composição, concepção e textos; Paula Azguime - desenho de som e electrónica em tempo real, concepção, vídeo e encenação; Andre Bartetzki - programação vídeo e vídeo em tempo real; Perseu Mandillo - filmagem e realização vídeo; Apoios de Instituto das Artes/ Ministério da Cultura, DAAD Berliner Künstlerprogramm & TU-Studio Technische Universität Berlin, Fundação Centro Cultural de Belém.
  • AlletSator. Pedro Barbosa & Luís Carlos Petry | Outros colaboradores: Rogério Cardoso dos Santos, Rui Torres | Publicado como CD-ROM na Revista Cibertextualidades, 2, 2007.