Publicado inicialmente em 20/02/1972; republicado in In-novar, pp. 71-75.


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Falo por mim. A década de 60 foi de renovação e de revalidação DADA. Se tivesse vivido em 1914 em Zurique teria sido DADA. Após a exposição DADA no Museu de Arte Moderna de Paris em 1968, tornou-se muito difícil passar por cima de DADA. Não há razão nenhuma para que eu não possa ser DADA Hoje e Aqui. Mesmo para os surrealistas ortodoxos de Paris e de cás DADA voltava. Era um Perigo. Vendo bem que diferença havia entre Zurique 1914 e Lisboa 1964?

O regresso de DADA não era o regresso do Filho pródigo. Era o regresso do Pai pródigo Eu/NÓS tivemos que ser DADA em 60 e tantos quando lançamos o EXPERIMENTAL – tal como o Cesariny foi DADA quando em 47 andava no JUBA e foi pré-surrealista de cá e mais. Há todas as razões para se ser DADA. O Pai pródigo era o DADA que fora Morto em Paris pela moral, cartesiana, burguesa, do subconsciente colectivo que informava sub-repticiamente o subconsciente individual (Freudiano) dos antimorais, anticartesianos, antiburgueses surrealistas franceses de 1920 (todos eles óptimos Poetas, escritores, críticos, que bem escreviam eles! não há dúvida). Que isto DADA CÁ É MUITO CÁCÁ e por isto quando se é DADA acaba tudo mal. Falo por mim. Se DADA foi uma situação histórica de ruptura. Eu sou DADA. Mesmo quando conceptual e barroco escrevo meus versos; quando levanto a voz arrebatado e romântico nos colóquios para perguntar: QUO VADIS NÓS? QUO VADIS EU? E ninguém me responde; quando concretamente me calo nos comboios. É certo que em 1920 eu não estava lá, mas nunca teria sido surrealista. Faltava-me o sentido perimoral da moralidade e a dimensão mágico-cólica do medo de existir. Falo por mim já se vê, que de outro modo nunca seria surrealista (safa!). Mas em 1960 pudemos todos nós poetas lusaquáticos (ó vocação dos mares! ó águas termais) herdar a imagem fragmentada pelos surrealistas e fazer não-discursos, não-poemas, não-versos, como muito bem quisemos Experimentalmente.

Outro tanto não aconteceu aos coitados dos franceses – que fizeram tudo em 1920 quando acabaram com o DADA. E desde então nikles!

Foi assim que eles lá viraram Estalinistas (vide Aragon) e até os surrealistas franceses se transformasse em Poetas da Resistência e VIVA ELUARD. AÍ DADA NÃO, QUE BRETON É quem sabe! Mas por cá foi outra coisa. Falo por mim que nasci em 1932 pós-antiDADAISTICAMENTE na Serra da Estrela às 8 horas da manhã. PUM – Diria o Almada. Esse que mais seria AlmaDADA se não tivesse sido desalmado cá. (DES é um prefixo que se põe quando se quer tirar alguma coisa – OK?)

E depois tive que fazer o DADA meu. Mas houve mais manifestações críticas DADAMUSEOLÓGICAS e a gente (toda) ficou a saber que DADA tinha nomes em todo o mundo. Ficamos muitos contentes e então CÁCÁ começou-se a falar muito bem dos DADA de lá (do museu – que os de Zurique 1914 sabe-se lá quem são?) e a falar muito mal dos DADA (neo) de cá, pela força das circunstâncias DADA em que todos vivemos CÁCÁ. (Que os de cá sabe-se lá quem são?)

Assim é preciso ter muito cuidado: nunca dizer bem ou fingir que se entende um contemporâneo. Nisto foram exímios principalmente os críticos musicais (com Manuel de Lima a evidenciar-se na avançada da reacção ao Neo-DADA, no Artes e Letras já há muito defunto) – Ambas descansem em Paz – o crítico perante a TV – O Jornal no cesto dos Papéis – Que DADA é DADA. Digo – eu. E isto de eu o dizer é DADA. Porque ninguém me autoriza a isso. E eu DIGO-O. DADA. DADA. DADA. DADA.

Foi assim que foi na noite de 7 de Janeiro de 1965 quando do famigerado criminoso – Happening perpetrado pelo Jorge Peixinho e por nós os safados Experimeta – DADA – LISTAS. Ó Jorge que esbanjamento de talento! E a Ana Hatherly empoleirada num banco a dizer NEO-DADA no Diário Popularismo onde na véspera tinha decomposto o piano em peças soltas...

E quando eu fui a Paris em 1966 (depois de não ter lá estado em 1920) fazer uma exposição de objectos-cinéticos na Galeria do Chopin (1), foram os surrealistas de lá e disseram: MORRA, logo pela manhã. E eu já era noite e ainda não tinha morrido. VIVA DADA! VIVA! Verifico isso porque ainda estou vivo. DADA.

Mas lembro-me muito bem de que hoje já não sou bem o mesmo DADA que era. Hoje parecendo que não, é muito mais difícil. Há tanta coisa a ter em conta. A ética. A dialéctica. A dieta. O estrutural. O postal. O carnaval. O lúdico. O público. O bule. O concreto. O concerto. O recto. O abstracto. O acto. O retrato. O conceptual. O conceptivo. O anti. O económico. O eco. O cómico. O cibernético. O bernáculo. O bera. As finanças. O fim. As danças. A TÊVÊ. A DÊDÊ e a Poesia fonética que foi inventada por DADA em Zurique para dizer NADA – DADA a quem sabe tudo – MUDO (mesmo que grite) até quatrocentos mil anos depois (Hoje) que sempre há ainda quem seja tão inteligente que seja merecedor de ser DADA CAPITADO. ÁMEN.

E isto tudo porque «com a verdade me enganas» e «é a brincar que se dizem as verdades».

ISTO DIGO-O EU mas não fui eu que o disse. E «para brincar só com as coisas sérias» e assim é que elas se tecem, etc., etc. Que o lúdico é o sério ao contrário e como sério é um jogo contra outro jogo. O jogo do desinteresse contra o jogo dos interesses; o jogo descomprometido contra o jogo dos compromissos; o jogo não respeitável contra o jogo dos respeitos; o jogo das invenções contra os jogos inventados. O jogo DADA contra o jogo ganho. ISSO. Que a incongruência CÁCÁ é a congruência DADA e vice-versa (VICE = sub, tal como vice-rei, vice-reitor, etc.) ou seja igual a sub-versa. DISSE.


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