Embora desde os 16 anos, altura em que adquiri os meus dois primeiros livros de poesia, tenha começado a juntar livros, revistas, discos e catálogos de literatura e de arte em geral, o meu Arquivo poético e artístico apenas começou a tomar forma, com essa intencionalidade, a partir de meados dos anos oitenta.

Até essa altura lia avidamente, comprava todas publicações que conseguia adquirir, nomeadamente as de poesia experimental portuguesa e, ao iniciar o meu trabalho com a organização de exposições, festivais e livros coletivos, comecei a juntar uma quantidade considerável de documentos, originais e fotografias.

Aos poucos, tomei consciência que esse material deveria ser preservado e minimamente organizado, porque continuava a colecionar, diria que obcessivamente, todos os documentos relacionados com as áreas artísticas que na altura já tinha definido como aquelas que me interessava trabalhar e explorar, com maior incidência para a poesia experimental e a performance, mas também, num plano secundário, a mail-art e a arte contemporânea, de um modo geral.

E a ideia de desenvolver um Arquivo mais ou menos estruturado foi surgindo conforme fui constatando que tinha um significativo conjunto de obras e documentos relacionados com a poesia experimental portuguesa e com a poesia visual internacional, praticamente inexistentes em Portugal, e que esse conjunto estava continuamente a aumentar.

A partir de 1983 comecei a estabelecer contactos internacionais através da participação em exposições coletivas e em publicações periódicas, e também com a organização de exposições, festivais de poesia e de performance, antologias, revistas, e de uma intensa troca de correspondência, incrementada a partir de meados dos anos 80 com a participação em centenas de exposições internacionais de mail-art.

Nenhuma instituição em Portugal possuía um acervo dedicado à poesia experimental portuguesa e, apesar de mais tarde a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação Luso-americana terem adquirido um importante conjunto de obras de Ana Hatherly, o Museu de Serralves ter adquirido várias obras aos poetas que em 1999 participaram na exposição “PO.EX: O EXPERIMENTALISMO PORTUGUÊS ENTRE 1964 e 1984” e, mais tarde, a biblioteca de E. M. de Melo e Castro, a verdade é que nenhuma destas instituições detém obras dos restantes poetas portugueses e muito menos obras de poesia visual internacional.

No que concerne à performance, que por constituir um ato artístico efémero e por não ter gerado, de um modo geral, o interesse dos museus, centros culturais nem de galerias de arte, originou que não existisse um acervo significativo de registos ou de documentos relacionados com esta área.

Por ter organizado vários eventos dedicados à performance e por ter participado em quase todos os realizados em Portugal e depois, também, no estrangeiro, aos quais se somam as várias dezenas de festivais de poesia experimental e sonora em que tenho participado desde os anos oitenta, e por sempre ter tido a preocupação de registar fotograficamente a grande maioria desses eventos, resultou que no Arquivo existam uns milhares de fotografias analógicas e os correspondentes negativos, diapositivos e, mais recentemente, fotografias digitais, o que constitui uma coleção única em Portugal.

Os núcleos dedicados à mail-art, movimento fluxus e à arte conceptual não são tão completos como os dedicados à poesia experimental ou à performance. Ainda assim, são representativos destes movimentos e complementam com obras e documentos os núcleos principais.

O Arquivo é constituído por 6 grandes núcleos:

  1. Núcleo de Poesia Concreta, Experimental e Visual
  2. Núcleo de Performance
  3. Núcleo de Mail-Art
  4. Núcleo Fluxus e Arte Conceptual
  5. Núcleo comum aos 4 anteriores (Publicações, cartazes, imprensa, fotografias, audiovisual)
  6. Núcleo Fernando Aguiar

1 - NÚCLEO DE POESIA CONCRETA, EXPERIMENTAL E VISUAL

Este núcleo constitui o maior acervo de poesia experimental internacional que existe em Portugal, praticamente ausente em instituições e, mesmo a nível particular, os acervos existentes não são tão abrangentes em autores e em número de obras, nem tão amplos em termos geográficos.

A componente portuguesa reúne a quase totalidade dos documentos publicados em Portugal ou até no estrangeiro, desde o final dos anos 50. De alguns destes poetas existe um considerável acervo como os dedicados a E. M. de Melo e Castro, Salette Tavares, Alberto Pimenta, Abílio-José Santos ou César Figueiredo.

O mais significativo é o núcleo dedicado a Ana Hatherly que, antes do seu falecimento, em agosto de 2015, ofereceu ao Arquivo todo o seu espólio artístico constituído por centenas de documentos e mais de duzentas obras originais, a juntar a todas aquelas que já possuía, fruto de uma amizade e relação artística com mais de 30 anos.

Em relação à poesia visual estrangeira, existem igualmente acervos com um considerável conjunto de obras e de documentos, como, por exemplo, os provenientes da Alemanha, do Brasil, de Espanha, Estados Unidos da América, França e Itália.

Este primeiro núcleo contém obras de cerca de 200 dos mais destacados poetas experimentais de 32 países.


2 - NÚCLEO DE PERFORMANCE

Em Portugal nunca houve a preocupação de se registar de um modo sistemático as performances, que tiveram o seu apogeu na década de oitenta até meados dos anos noventa. Por essa razão, os registos fotográficos ou em video são escassos e dispersos pelos vários artistas que, ao realizarem as suas obras, eram normalmente também os responsáveis por essas gravações, quase sempre produzidas de um modo amador.

Por ter organizado vários dos eventos dedicados à performance, e por ter participado em numerosos encontros e festivais de performance e de poesia sonora em 25 países, constituí um considerável conjunto de documentos fotográficos analógicos e, depois, em suporte digital.

Estão representados quase todos os artistas portugueses que realizaram performances nessas décadas, e mais de uma centena de performers estrangeiros, que representam um acervo de cerca de 6.000 fotografias e diapositivos (às quais se podem juntar mais cerca de 4.000 fotografias de obras visuais, exposições e performances minhas) e cerca de 15.000 negativos fotográficos no total, para além de um número indeterminado de fotografias digitais. Assim como várias dezenas de videos que registam performances individuais e eventos coletivos.

O Arquivo alberga ainda centenas de catálogos, cartazes, revistas, desdobráveis e livros sobre teoria das artes performativas, que abrangem áreas como o happening, body-art e outras correlacionadas.


3 - NÚCLEO DE MAIL-ART

Núcleo constituído por centenas de obras de arte postal e também por documentos relacionados com a temática, maioritariamente da década de oitenta até aos anos dois mil. Contém igualmente um acervo de selos e carimbos de artista e outro constituído por envelopes de artista, ambos com uma extensa representação de originais de autores de três dezenas de países.


4 - NÚCLEO FLUXUS E ARTE CONCEPTUAL

Apesar deste núcleo ter pouca representatividade no Arquivo, possui, no entanto, umas dezenas de obras de artistas como Wolf Vostell, Monty Cantsin, Milan Knizák, Ben Patterson, Dennis Oppenheim, Dick Higgins, Phillip Corner, Charles Dreyfus, Orlan ou Shozo Shimamoto, e um relevante conjunto de documentos sobre estas temáticas.


5 - NÚCLEOS COMUNS AOS 4 NÚCLEOS ANTERIORES

O conjunto documental é o mais complexo devido à sua variedade e também à sua classificação, porque muitos desses documentos referem-se a várias disciplinas artísticas em simultâneo (resultante de encontros, festivais, exposições coletivas, etc.).

Engloba revistas (cerca de 1.500), e inclui um conjunto que intitulo de “artzines”, com revistas de artista constituídas apenas por originais, revistas fotocopiadas e muitas outras artesanais e de tiragens bastante reduzidas. Algumas têm um número de exemplares praticamente igual ao número de participantes, pelo que apenas estes possuem exemplares dessa publicação.

O acervo de cartazes integra 800 exemplares diferentes e mais cerca de 1.200 cartazes repetidos de todas as áreas artísticas relacionadas com festivais, exposições, lançamento de livros, encontros literários, poesia verbal e experimental, mail-art, performance, artes visuais e outros.

O conjunto de escritos com notícias publicadas em jornais e revistas, assim como recensões de livros, críticas, reportagens e entrevistas, constituem a componente de recortes de imprensa generalista.

O já referido acervo fotográfico integra também registos de exposições, inaugurações e dos bastidores de festivais e de encontros artísticos e literários.

Finalmente, num último grupo, incluem-se todos os livros (romances, teoria, poesia verbal…), catálogos e outras publicações que não se inserem nos núcleos anteriores, mas que constituem um testemunho de todo o período de constituição do Arquivo e representam igualmente um percurso de vida ligado às atividades literárias e artísticas.


6 - NÚCLEO FERNANDO AGUIAR

O núcleo dedicado ao meu próprio trabalho, que pode ter algo de subjetivo, é também o mais óbvio e o mais fácil de completar, considerando que durante todo o período de criação do Arquivo, fui um interveniente ativo nas atividades relacionadas com os diferentes núcleos, e organizador de muitas delas.

Estão presentes os documentos produzidos por mim enquanto poeta, performer, teórico, artista plástico e organizador, relacionados com as exposições, encontros, festivais, antologias e a coordenação de colaborações coletivas em publicações.

Quanto às obras originais, o critério utilizado é o de pertencerem ao Arquivo os trabalhos com que participei nos eventos que organizei, de onde é proveniente também uma parte considerável dos itens que o integram.

Abordando agora os aspetos quantitativos, a acrescentar aos que já foram referidos, temos:


ORIGINAIS
 
O Arquivo é constituído por cerca de 2.800 obras originais ou com um carácter original (fotocópias carimbadas, assinadas ou coloridas manualmente, por exemplo) produzidas a partir da segunda metade dos anos 60, com especial relevo para a poesia visual dos anos 80 e 90.  Neste número estão incluídos todos os originais dos diferentes núcleos.

De alguns dos poetas existe um considerável conjunto de obras e de documentos, que constituem importantes acervos do trabalho desses artistas.

No aspeto técnico, o Arquivo integra obras de desenho, caligrafia, datilografia, pintura, colagem, fotografia, eletrografia, poema-objeto, livro de artista, videopoesia, serigrafia e gravura, selos de artista e envelopes com colagens e pinturas. Contém também fotografias de inúmeros poetas, milhares de fotografias, slides e negativos de leituras e de performances, mas também de instalações, esculturas e de outras obras plásticas.

As dimensões dos originais situam-se maioritariamente entre o formato postal (15x10,5 cm ) e o A-3 (42x30 cm). No entanto mais de 500 dos originais têm dimensões superiores.

Cerca de 150 obras, estão emolduradas, as restantes estão em pastas, devidamente acondicionadas.


DOCUMENTOS

A componente documental do Arquivo é constituída por livros, catálogos, revistas, revistas de artista, cartazes, desdobráveis, fotografias e slides, provas de contato, vídeos, poesia digital, cassetes, discos e Cd’s de poesia sonora, postais, textos, recortes de imprensa, recensões, dissertações de mestrado, teses de doutoramento, negativos  e correspondência. No total, e excetuando os negativos e a correspondência, calculo que andem à volta de 30.000 documentos de 53 países. Se considerarmos também as obras originais e com um carácter original, negativos e a correspondência, teremos um número a rondar os 50.000 itens.

Esse material está organizado por países e por documentos, guardado e dividido por pastas plásticas ou de arquivo, mas não está classificado ou inventariado.

O Arquivo encontra-se em depósito no meu atelier e em minha casa.


INVESTIGAÇÃO

Ao longo dos anos têm sido bastantes as dissertações de mestrado e as teses de doutoramento e de pós-doutoramento realizadas com o recurso às obras originais e aos documentos, muitos deles únicos em Portugal. Essas dissertações e teses têm abordado diferentes temáticas, com motivações e objetivos diferentes, mas maioritariamente incidem sobre a poesia experimental e visual e sobre a performance nacional e internacional. Os investigadores são oriundos de Portugal e do Brasil.

O facto de o Arquivo não estar disponível num espaço público, como uma Biblioteca, por exemplo, tem dificultado esse trabalho, porque os investigadores dependem sempre da conjugação de horários, o que prejudica uma pesquisa continuada e mais profunda. Tenho colmatado essa dificuldade com a oferta ou a cedência de documentos, sempre que é possível.

Em 2014/2015 fiz uma tentativa junto do município de Lisboa e de outros nos arredores da capital, no sentido de colocar o Arquivo em depósito para que pudesse ser inventariado, catalogado e, depois, exposto, consultado e investigado, mas a quase totalidade dos oito municípios não se mostraram minimamente interessados, quer por falta de condições logísticas e humanas para o seu tratamento, ou simplesmente pela falta de interesse em manter, preservar e divulgar um Arquivo com estas temáticas e características.

O único que se mostrou interessado e que tinha boas condições para proceder à sua preservação, disponibilizando espaços que pudessem promover o seu estudo, iria igualmente digitalizar todas as obras originais e os documentos históricos ou mais raros e divulgá-los no website da Biblioteca, para que ficassem acessíveis a toda a comunidade internacional.

Esse aspeto foi dificultado pela resposta da Sociedade Portuguesa de Autores, que exigiu a autorização expressa dos mais de 300 autores (se considerarmos todos os autores de obras visuais no seu conjunto), ou aos familiares dos poetas e artistas já falecidos, o que configurava uma tarefa praticamente impossível.

O vereador da cultura, que estava entusiasmado com o depósito das obras e dos documentos na principal Biblioteca da sua cidade, acabou por desistir da ideia com o argumento de que não havendo um parecer positivo dos serviços jurídicos da própria autarquia, depois de consultada a S.P.A., o depósito e a utilização do Arquivo não seria autorizado em reunião de Câmara.


DIVULGAÇÃO

O Arquivo foi publicamente apresentado em 2010, na cidade de Abrantes, com a exposição “LINGUAGENS D’ESCRITA(S) – POESIA EXPERIMENTAL DO ARQUIVO FERNANDO AGUIAR”, em dois espaços diferenciados (Galeria Municipal e Biblioteca Municipal António Botto) dedicados respetivamente à poesia visual estrangeira e à poesia experimental portuguesa.

Mais recentemente, o Arquivo emprestou algumas obras e documentos de Ana Hatherly para a exposição “OBRIGATÓRIO NÃO VER”, que se realizou na galeria do C.A.P.C., em Coimbra, após o falecimento desta poetisa e artista plástica, e organizou a exposição “ANA HATHERLY: PINTURA DE SIGNOS”, na Fundação Portuguesa das Comunicações, integrada no Festival Silêncio, realizado em Lisboa, em julho deste ano.

De salientar, finalmente, que o Arquivo foi constituído essencialmente por ofertas e trocas de obras e de documentos com outros artistas, e de várias aquisições, a partir dos anos dois mil.

O Arquivo nunca foi objeto de apoio de entidades oficiais nem de qualquer instituição particular. Foi constituído exclusivamente pelo meu esforço e empenhamento pessoal em termos de tempo, organização, manutenção e financeiro.


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