O texto visual gerado em "Não posso", parte integrante da coleção operativa Urban Life, resolve-se na exploração de vocação situacionista que procura uma escrita urbana. Onde a cidade e seus envolventes resultam como as páginas de um livro do, e no lugar. Do lugar comprometido.

Na cidade de Coimbra, em diferentes suportes dos espaços sociais e suas circunstâncias, surge um texto de autor anónimo. E é a revisitação deste mesme texto que surge desafiadora de novas leituras. Esta apropriação visualista assume-se como obra compósita convocando o leitor a formular novas consciências semânticas.

Se o texto revisitado e galvanizado enuncia inquietações socializantes, conjuga ainda, e de modo nevralgicamente dialogante, com uma artitude sarcástica. E é nesta ironia que algum dramatismo se diz convulso.

O despojamento dos meios é uma constante, assim como a recidivante recorrência a uma arte de situação que parece não se esgotar.

Se a "poesia está na rua", nela se expressa uma vitalidade constante dos autores sem rosto. Gerador de gritos urbanos agora resgatados para uma outra dimensão que procure contrariar a sua condição perecível e defunta. A palavra regenera-se. Reinventa-se e revolta-se de novo. Diz-se, e faz-se dizer na pedra. Sobre a pedra. Tudo num tempo em que estranhamente a infoescrita não dispensa, ainda, a matéria bruta caída na rua. A matéria primitiva. Nómada. Ou não estivessemos a falar de poesia. Essa que nada disPensa quando tudo é disPensável. DisPensando-se disPensada. Ou não seria Poesia.


Urban Life_"Não posso", António Barros, Coimbra, 2015 >

 

António Barros Urban Life [animated]

[Animação cortesia de Bruno Ministro]