Descrição > Texto de António Barros sobre PreSente/AuSente, 1979 • Coimbra • Coleção da Fundação de Serralves


Ele sente se está presente. Ele sente se está ausente . Ele sente sempre se é um ente (poético). Elege (a poesia). Procura o ser (poético).

Esta peça - PreSente/AuSente -, transporta-nos para a esfera vivêncial de José Ernesto de Sousa nos últimos anos da sua vida maculada por uma cavalgante aproximação da morte que então o passou a enfrentar. Ernesto desafiava os seus companheiros, mais cumplíces, a reflectirem sobre valores essênciais da esculturalidade da vida e do seu próprio 'sentido'. A urgência desse 'sentido' resultou alegoria de uma das suas últimas (talvez pretensas) "contaminações".

Em torno da comunidade artística que José Ernesto criou na Cooperativa Diferença, em Lisboa, os convites-desafios surgiam. Os pretextos eram múltiplos e diferenciados. Todos os objetos-suporte eram passíveis de serem lugares de manifesto. A exposição colectiva "A Caixa", inscreve-se nesta constelação. Apenas as medidas-formato de uma caixa x eram fornecidas aos múltiplos intervenientes desafiados à catarse. Eu fui um dos que aceitaram responder ao desafio, assim como Helena Almeida, E.Melo e Castro, Ana Hatherly e.o. Ficou por saber o porquê destas medidas (1). A razão e condição do enigma.
Construi três caixas. Duas em tecido branco. Uma em madeira. Um objeto-livro. Um tríptico.

As três páginas do livro que eu fiz por escrever, num pretenso diálogo com o José Ernesto, surgem progressivamente geradas. A verbalidade das palavras já estava em muitas circunstâncias obstruída. Mas a comunicação não estava de todo concluída e obrigava recorrer ao objeto, à imagem, ou à atitude para comunicar com Ernesto.

Na primeira página, ao centro, escrevi a plavra: PreSente [Ele sente quando o objeto do sentir está presente]. Na segunda página a palavra: AuSente [Ele sente também mesmo estando ausente o agente-estímulo do sentir].

A primeira página, em forma de caixa de tecido [PreSente], tem no interior do corpo uma outra escrita: um pequeno ramo mostrando uma folha de loureiro. Todo o objeto, em negro, resulta suporte do texto - a palavra Poesia resulta distintiva. Identitária da comunhão.

Este elogio à natureza (transportando-nos para o memorial de uma 'land art') refresca-nos . Tudo aqui sinaliza registo e atenção para as próprias origens. A matéria.

A segunda página [AuSente], tem o seu interior vazio. A ausência do ícone poesia não penaliza o sentir. O não poeta, a existir, sente, assim como aquele, o poético, porta também o sentir mesmo na ausência de qualquer catarse presente. Do objeto. Da dinâmica sensorial poética.

O sentimento resiste.

A terceira página do livro, agora em matéria dura, em madeira, na parte exterior da página-caixa, enuncia a palavra: sEnte [ele sente se fôr um ente]. A moldura sublinha o Ente. Sacraliza.

No interior um texto, que por resultar escrito nas pedras entretanto fragmentadas, logo surgia ilegível. O segredo. A essência. A identidade. O ente querido. Procura. O procurante. O significante.

Como nos refere Lacan "o significante produzindo-se no lugar do Outro, aí faz surgir o sujeito do ser que não tem ainda a fala, mas é pelo preço de fixá-lo". Assim, a linguagem é um órgão na medida em que, não contente de assegurar a relação entre um organismo e o seu meio, revela, reproduzindo-o, o sentido de órgão de reprodução: " o sujeito falante tem esse previlégio de revelar o sentido mortífero desse órgão, e por aí sua relação com a sexualidade. Isto porque o significante como tal fez, ao barrar o sujeito por primeira intenção, entrar nele o sentido da morte. A letra mata, mas o aprendermos através da própria letra. É pelo que toda a pulsão é virtualmente pulsão de morte" como bem sublinhou Lacan.

O conotativo transeunte [o leitor interacionante] podia, então, assim colher estes pequenos calhaus e construir um novo texto sobre o livro. Para o livro. Do livro. E atirá-lo para dentro da página, pois estaria já objetivando essa pulsão de morte.

(1) medidas necessárias para instalar o residual fúnebre de um corpo cremado.


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