“A vanguarda está em Coimbra, a vanguarda está em ti”

José Ernesto de Sousa


Ernesto de Sousa, nos últimos tempos da sua vida, convocou os amigos mais próximos a partilharem com ele uma inquietação que então o visitava convulsivamente. Procurava definir o Sentido da vida, e inscreveu-me nesse fórum que procurava palavras. Palavras para dizer uma pretensa felicidade tangível. Ou o seu Ser-Sentido. Nessa agonia de fabricar resposta deixou-me a mestria da dúvida, contudo, desafiadora. Uma dúvida-dívida para toda a vida. Diária. Recidivante.

Esta questão de Ernesto ainda me revisita, convulsivamente, a querer ser catarse de transcendência. Transnavegação. Fazer esculpir o absurdo molhando a mágoa da palavra ausente que se quer certeira. Felicidade é perceber que a vida tem Sentido. E vida com sentido é vida geradora. Que deixa um legado.
Ernesto de Sousa contemplou gerações com um legado de valores de uma Arte comungada com a Vida. De uma Vida caminhante sobre uma Arte de solturas múltiplas. Soltou-se nessa navegação de incisivas procuras, contaminações colhidas a Duchamp, Maciunas, ao Fluxus como comunidade, e a Almada como vontade de uma portugalidade outra. De uma lusitanidade fecundante. De uma “Nova Lusitânia”.

Em Artitude:01 procurei partilhar o rizoma de um possível caminhar consequente nesse sentido alvorante. Uma Nova Lusitânia. Nesse limbo. Na medida dos passos que ditava a minha consciência desenhante. Na soltura de um fluir de caminhos. Andando. Sempre andando, no sentido do Sentido de Ser. Ser. Gerador.

Fiz esse caminhar num lugar adverso. Num país azedo. Rotativo, gastando o seu afogar na pedra. Olho cego. Num abismo umbilical. Afundando a cada hora, como um ganso defunto sem sair do seu lugar findante. Como hoje: Em círculo, sempre em círculo, com a asa morta agarrada ao corpo. Dei convulsivamente forma a essas condições distintivas. Em modos múltiplos: do desenho à escultura; da fotografia ao vídeo em registo e arte; do comportamento à performatividade que ancora o objecto no seu gesto. Obgestualizando. De modo Progestualizante. ConSentindo.

As conversas vadias com Ernesto de Sousa foram sinergizantes e vastas. Proliferaram daí consciências galvanizadoras. ”Contaminações”. Assumiram-se as presenças. E as ausências. O peso cheio e o vazio. A negritude e o mar nocturno. Todas essas inquietações ganharam voz como direito. Razão legítima. Sentido. Todo um Sentido conSentido. Foi esse o lugar da Arte. Lugar de Vida e Condição. Mapa de caminhos e labirintos. O devir dos labirintos a quem deram nó. Dando nós uns nos outros. Convulsivamente. Nós de labirintos até à utopia. À ânsia de soltura. Toda uma aprendizagem a pulso. De Sísifo. Das ideias. Da vida. E do seu Sentido.

Tudo esse mundo galvanizado foi registado em fotografias perdidas. Impressas em papéis depois reciclados. Em registos vídeo que logo eram sobregravados a querer melhor. E porque outra ideia logo nascia. E outra ideia ainda. E todos tinham ideias. E até podiam dar imagem a ideia nenhuma. Gastavam-se os suportes e as máquinas até à explosão. Sem dinheiro para outras. Para novas. Ou reabilitar as velhas vencidas pelas marcas da concorrência. Voltávamos então à tela em branco. Ao pano caiado sobre a parede. À luz desenhando a sombra no ciclorama. As películas de acetato violadas pelos caligramas deixados pelas canetas negras fingiam a imagem. Iludiam que a imagem era nova. Uma imagem outra. Tão amiga do nosso imaginário e desencanto. Surgiam os concursos no mundo. Revistas ilustrando façanhas da Arte Vídeo com imagens tão nada e tão próximas das que resultavam com as lâmpadas nossas moribundas derretendo a tinta coalhada.

Esgotávamos todas as agendas indo à procura de alguém com equipamento vídeo. Resiliências múltiplas. Sempre à procura dos amigos. Dos amigos dos amigos. E até o empenho do Estado levado a adquirir um estúdio (que chegou a ser móvel) e iniciou um arquivo documental na Galeria. Galeria Nacional até um dia em que as ideias, ideias outras, lhe pegaram fogo. Perdeu-se tudo. Quase tudo.

Sem meios físicos percebi que não encontraria condição maior do que o Conceito. E voltei ao Conceito de onde partira já no Cinema. No Cinema sem Imagens. No teatro. No Teatro sem Actores retomando o desafio situacionista.

Os meus vídeos. A minha Arte Vídeo reservou-se aos projectos e ao Conceito. Dada a súbita emergência de um acidente severo tive a ameaça de cegar. E essa ameaça revisitou-me passando a nortear a marcha no labirinto que agora era, poderia ser, outro e fatal. Os meus vídeos procuravam narrativa para esses cenários amblíopes. Para a exaltação da luz soluçante e da escuridão. Para o branco e a sua ausência no negro-noite. Sem cinzas. Sem mágoas. Sem morte. Uma sonoridade singular. A respiração animal. O basalto rolado pelo mar. O som do feto no ventre, e a chuva. A chuva tão vulgar e tão solta desenhava no vidro da janela na mesma narrativa como fossem os nossos primeiros vídeos a quererem ser Arte Vídeo.

Havia um grupo de arte a trabalhar em vídeo em Lisboa. Sem máquinas capazes também. Como o país era pequeno, e os meios escassos, juntámos o Centro e o Norte e fizemos um grupo. O VideOporto. Porto, porque o equipamento era pertença das Belas Artes do Porto. Da Escola. Aqui, em Coimbra, dávamos a força, o entusiasmo e a loucura. O espaço suporte era o Teatro Estúdio do Citac. Começámos com uma razão operática. Sensibilidades diversas, ideias múltiplas, cénicas e performativas. Musicais e da escrita visual. As Tendências, os Ecos, eram múltiplos e a primeira edição chamou-se Multi/Ecos. Programa fundador (e consequente) do que veio a surgir durante anos consecutivos - em modo simpósio - como Projectos & Progestos, galvanizado pelo grupo da revista Artitude:01.

Na falta do vídeo, do equipamento, a imagem em fotografia convocou então a collage, ancorando-se ao gesto, ao comportamento performativo e à performance, e resolvia soluções cénicas imperativas de objectos plásticos nutridos por uma realidade fantasista que os novos media começavam então a proporcionar.

A fotografia em diaporama é aí logo revisitada com requalificações surpreendentes, essas votadas pelo desenho de luz e a cenografia. As televisões terminais no seu ciclo de vida retomavam os corolários de [Nam June] Paik e conjugavam valores de mobiliário ou adereços cénicos.

Resulta daí um compromisso com o objecto. A arte como objecto. A sua subversão semântica revitalizava a função, tudo para além da já antes cumprida com a janela McLuhaniana. Uma arte de guerrilha estava assim instalada.

Enquanto Vostell atirava as câmaras de vídeo ao alto (para provocar raster na sua escrita) deslocávamos os projectores de diapositivos regando a horta das imagens e dos quereres na dinâmica das sombras, da luz reflectida. Todo um mundo ciclópico a tentar iludir que os novos equipamentos e tecnologias estavam já aqui ao lado. Mas não estavam aqui para contrariar a nossa pobreza. Os resultados eram contudo surpreendentes dado o potencial cromático e de definição do desenho na fotografia analógica. Encantamento cénico que a projecção digital ainda hoje está longe de fazer superar. Estes cenários risíveis estão então de volta, e as ideias-conceito trabalhadas para potenciais objectos de vídeo, tantas delas, continuam num lumen de grande pertinência e actualidade.

Hoje, na senda das remediações, é, na verdade, particularmente fácil reeditar alguns projectos distintivos de uma época como foram os anos 70 e 80, resultando paradigmáticos de uma arte da imagem em movimento e das disciplinas afins ao comportamento nas suas dinâmicas operativas diversas. Quem visitar, atentamente, o trabalho performativo em Portugal logo apreende a dimensão sociológica que estas artes aqui denunciam.

Estes novos primitivos pululam, sem complexos, numa constelação imensurável de possibilidades comunicacionais e narrativas de uma arte povera; tecno-povera, que bem pode resultar ilustrativa de como o país dificilmente se fazia emancipar.

Esta arte - de grande componente situacionista no mais fulcral entendimento debordiano -, é uma arte assumida. E é afirmativa, não de uma negação das tecnologias em si, e dos media, mas da dificuldade em as sustentar numa malha social tão galante de impunidades múltiplas perante a pedagogia da gestão dos meios. Tudo numa geografia onde urge uma requalificação dos conceitos, e no devir da vivênciação legítima, advogada por novos modelos sociais.

Desenhada a paisagem suporte para ideias de um tempo ferido por condicionamentos tão diversos, estamos agora mais próximos de iniciar um estudo e um entendimento maior sobre a arquelogia dos meios. Esses, os disponibilizados para construir condição a uma arte do vídeo em Portugal nos tempos em que, identitariamente, este modo-arte se fez afirmar como gerador de novos modelos de comunicação poética.

Com todos estes cortejos de animosidades, e cortinas de fumo, é possível, contudo, reunir ainda hoje uma constelação de objectos que merecem ver contrariada a sua condição de obras tão precocemente perecíveis.


António Barros, Arte Vídeo, 1979 [Imagem Ausente_Objecto Conceito]

[António Barros, Arte Vídeo, 1979 - Imagem Ausente_Objecto Conceito]


Anos 70. Onde surge a arte?

Para a exposição no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian "Anos 70 Atravessar Fronteiras", solicitaram-me uns trabalhos dessa época em Arte Vídeo que eu já não tinha presentes.

Abordavam um tema que curiosamente hoje ainda se inscreve no meu trabalho - a (in)visibilidade.

Vejamos então um registo do texto enunciando a sinopse de cada uma das peças:

P e r p l e x i d a d e s, 1979 [Arte Vídeo] Desenha um itinerário de visitação através do olhar de um amblíope profundo.

Este olhar, em negro, resolve-se na sonoridade da marcha com rudeza na calçada basáltica, envolto pela força do odor da húmida vegetação. Convoca a fundamentação do "ambiente" como eleição do lugar habitado (aqui o negro quarto do castigo), mas já muito próximo da escuridão total onde a imagem sofre outras transcendências.

Este apelo à conceptualidade resulta redentor, e o objecto visível esgota-se na própria dimensão física do ecrã como janela de um abismo castigador.

Mais do que um estilo de Arte Vídeo é uma arte (a)videografada pela impotência do olho que se quer soltar do crânio revoltado pela sua condição anulatória.

Em suma: é um objecto autofágico, como razão de imagem, dando lugar ao espaço comprometido obrigado a uma arte do "environment" que aqui já se fazia anunciar.

Para construir este objecto acompanhei um jovem amblíope, no seu tempo e lugar de vivenciação, em Coimbra, na Escola Martim de Freitas, paralelamente aos meus estudos em Medicina que na altura surgiam.

Recorri em Lisboa ao Instituto Helen Keller, e trabalhei durante algum tempo em Psicodinâmicas e Exploração do Potencial Sensorial para a afirmação plástica. Tudo para reunir elementos que resultassem rigorosamente adequados.

Portanto o objecto, "Perplexidades", obrigaria (para além do odor da sala), um espaço vazio, em negro, para "instalar" os envolventes que a dramatização do tema convida. Tudo para nada ver. Ou quase nada.

M u l t i / E c o s, 1979 [Arte Vídeo] Há aqui uma leitura videográfica de uma obra compósita: a performatividade latente num corpo anulado no seu movimento total - Rui Orfão (o então performer-pintor), empresta o escultural estar. E sobre a sua máscara de alceste - o texto "VerDade" aplicado sobre as apagadas lentes dos óculos que, intervencionadas, reduzem a quase total visão condenando-o à reflexão introspectiva e à agonia, sempre profícua, da oração
["ignOrar"].

Portanto, "Perplexidades" e "Multi/Ecos" [título em compromisso com o evento pluridisciplinar onde este exercício vem a ser formulado] são, na verdade, uma arte do não ver. Da não imagem. Ou mesmo do pânico de, em algum momento, poder já não ver.


[In revista Via Latina #11, "REDES" [SJ_AAC] Academia de Coimbra, REDES XVI Semana Cultural da Universidade de Coimbra, 2014.]


Ler tb >

  • Testemunho de António Barros [Coimbra, Maio de 2011] no âmbito da Dissertação "Televisor e Monitor em Contexto Artístico Português: 1952-1981", de Inês Gouveia, Orientação de Fátima Lambert, para o Mestrado de Estudos Museológicos e Curadoriais da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
  • "VideOporto" por António Barros, in "(+de) 20 grupos e episódios do Porto no séc. xx", Galeria do Palácio, Porto 2001 Capital Europeia da Cultura.