Hoje dormi com uma outra. Ou melhor, com uma outra insónia: Geração.

Depois de Wark com a "terceira natureza" - que é também e fundamentalmente um desafio à criação/gestação de uma quarta natureza - "natureza" outra, não tem mais sentido, presumo, falar de gerações. Essa viciosa divisão por castas resulta redutora de sentido e justeza dos conceitos.

Viciosamente fomos programados para formular um automático raciocínio (portador de grandes e plurais patogenias) que nos conduzem, de modo automático, para a convulsiva sucessão de gerações umas após as outras. Sempre no redutor entendimento que sucedem de pais para filhos anulando-se e rivalizando umas com as outras.

Hoje este entendimento parece-me uma fórmula ultrapassada, e mesmo obsoleta. Valores e qualidades, ou a ausência delas, procuravam ser uma métrica. Sempre faliciosa. Primária mesmo.

Na verdade, cheguei mesmo a obrigar-me a usar esta metodologia, até porque era a ferramenta que a sociedade então me imponha. Questionei-a múltiplas vezes. E agora cansei mesmo. Obrigo-me assim a uma requalificação do sentido e do pensamento. E reprogramo-me no propósito de encontrar uma nova, e outra, formulação: não há mais sentido para raciocinar suportado no entendimento do perfil de diferentes gerações. Ganhou para mim até a palavra geração, a palavra dita - assim dita -, uma certa repugnância. "A minha geração". "A nova geração". "Uma outra geração". Castas diversas e diferenciadas obrigam a uma castração [cast(r)ação] fria das vontades e não permite, tal gesto, território para a gestação de qualquer acto poético.

Hoje não há mais gerações, ou identidade de geração, mas pessoas. A Pessoa e a sua Condição e Sentido. E é aí que a Identidade se formula, agora, numa pretensa definição. Pessoal e individualizada. Depurada.

Esta consciência premonitória surgiu-me quando estruturei o objecto de reflexão: "GerAcção". Reprogramando a sua semântica. Essa revisita-me agora. Ou seja: proporciona-me hoje contributos procurando razões conclusivas.

Ernesto de Sousa, que me ofereceu a sua mestria, dizia-me que era preciso surgir uma nova geração capaz de colocar (de novo) os bigodes à Gioconda. E dizia ainda que teria de ser uma geração que acreditasse que a pedra (um dia) daria flor.

Aqui havia teimosamente, ainda, uma narrativa de geração. Uma consciência grupal. Gregária. Mas, na verdade, os malefícios do comportamento gregário rápido fizeram desmontar a legitimidade do fluxo colegial e grupal. E logo dos benefícios da identidade gregária. Assim, num mar de inquietações, desde esse tempo, testei e questionei os propósitos aí enunciados.

"GerAcção" - o objecto pretensamente artitude, formulado em objecto-texto, objecto-livro, poético-visual, que questiona. Questionando.

Um carro caído na estrada, na sua falência motora, logo abandonado à sua sorte e inércia inapta, mereceu-me atenção pelo seu desenho. Mas também pela sua atitude convocando uma artitude. Tudo obrigava uma resposta ao acto urbano. Confrontei-me várias vezes com o objecto defunto. E logo toda aquela matéria ganhou uma animalidade narrativa. Ganhou vida. Era pedra. Mas começava a dar flor.

Apropriei-me do animal. Adoptei-o como um animal doméstico encontrado na rua afogado de mazelas. Lambi-lhe as feridas, e passei a habitar nele. Passou a ser a minha casa. A nossa casa em muitos dos momentos, nesse tempo em que vivíamos numa velocidade ciclópica.

"GerAcção" era um texto que enunciava um propósito. Um sentido de marca e Manifesto. Gerar Acção era a palavra de ordem para a Geração que me transportava, e que eu transportava comigo. A minha Geração, essa que havia recebido um legado perante a Gioconda e a pedra. Mas o tempo desenhou-se em fluxo constante. O tempo mutável, mutante, trazendo consigo uma geração proliferativa e miscegenada com plurais referentes, esses que convulsivamente, a cada momento, chegavam esculpindo uma identidade obrigatoriamente dinâmica. Elástica. Geração que logo fez dissolver os seus mais rígidos alicerces em busca de soltura. Uma geração de soltura é uma não geração. Convoca e enuncia alternativa. É a chegada das pessoas. Da Pessoa. Pessoa sem geração. Logo pertencendo a várias gerações. Pluralizante. Numa miscegenação agora assumida para uma outra natureza - "natureza" outra. Com pessoas - Pessoas. Sem geração. Gerando Acção.

Um dia cheguei a 'casa'. Cheguei ao carro ["GerAcção"] e ele já não estava. A sociedade tinha levado o livro-casa, obrigando a rua à sua disciplina. Essa disciplina que não ensina. Que não vive. A rua voltou a ser pedra. E a pedra não voltou a dar flor.


Texto também publicado na Revista TRIPLOV de Artes, Religiões e Ciências, nova série, número 50, fevereiro-março, 2015 [http://novaserie.revista.triplov.com/numero_50/antonio_barros/index.html]


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