TORRES, R. (2014). Poema-objeto em Salette Tavares. In: TORRES, R. (Org.). Poesia Experimental Portuguesa: Contextos, Ensaios, Entrevistas, Metodologias. Porto: Edições UFP, p. 137-152. ISBN 978-989-643-121-1. Disponível em < http://po-ex.net/taxonomia/transtextualidades/metatextualidades-alografas/poesia-experimental-portuguesa-contextos-ensaios-entrevistas-metodologias >.


Resumo > Salette Tavares (1922-1994) dedicou a sua vida à arte e à escrita. Estas duas actividades estão de tal modo interligadas que se pode dizer que a compreensão de uma passa necessariamente pelo conhecimento da outra. De uma forma semelhante, também na sua obra, poesia e teoria comunicam e informam-se mutuamente. Este aspecto está próximo da poeprática do grupo de que fez parte - e cuja ligação com a teoria e a crítica literárias fica bem patente em vários dos seus trabalhos. Os interesses teóricos da autora são, no entanto, variados, reflectindo não só sobre a Teoria da Informação e o Estruturalismo, mas também sobre as relações entre a Estética e a Filosofia. Durante o auge da produção concretista portuguesa, em 1965, Tavares leccionou Estética na Sociedade Nacional de Belas Artes, tendo publicou as lições correspondentes, sem ilustrações, na revista Brotéria. Um livro com essas mesmas lições, mas completas, intitulado “A dialética das formas”, estava composto em 1972, mas foi rejeitado pela editora Livros Horizonte.Por outro lado, a sua obra poética deve ser entendida no âmbito de uma vanguarda literária. Podemos adiantar duas razões que justificam esta classificação: primeiro, a ênfase dada aos valores expressivos da materialidade da linguagem; segundo, um sentido de constante vigilância, que a colocam no âmbito das poéticas auto-reflexivas. Estes aspectos são, entretanto, informados por uma busca da invenção e do novo.De salientar também é o seu interesse pela música contemporânea, principalmente pela articulação entre som e silêncio, proposta nos trabalhos de John Cage, nos Estados Unidos, e Pierre Schaeffer, em França, cujas obras permitiram o início do estudo do som como entidade autónoma da música. O silêncio, no caso de Cage, e os “barulhos” do quotidiano, no caso de Schaeffer, passam a ser parte constituinte das unidades significantes com que interpretamos a música, da mesma forma que, na escultura, Marcel Duchamp introduz o objecto encontrado (objet trouvé) na configuração artística. É esta polifonia de influências, abertamente expostas e admitidas por Salette Tavares, que acompanha a sua produção poética.


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