O experimentalismo literário apresenta-se ciclicamente ao longo da história da literatura, correspondendo a uma prática, mais do que um período literário específico. Na segunda metade do século XX, o experimentalismo poético português, marcado pela descoberta da poesia visual e concreta internacional, levou um grupo de poetas a escolherem a designação de Poesia Experimental para catalogar as suas actividades. A origem deste nome encontra-se nos dois cadernos antológicos denominados Poesia Experimental, publicados em 1964 (org. António Aragão & Herberto Helder) e 1966 (org. António Aragão, Herberto Helder & E. M. de Melo e Castro). O acrónimo PO.EX (POesia.EXperimental) é uma criação de E. M. de Melo e Castro para a exposição PO.EX/80 (Galeria Nacional de Arte Moderna, Lisboa), tendo sido usado no título do livro 'PO.EX: Textos teóricos e documentos da poesia experimental portuguesa' (org. Melo e Castro e Hatherly, 1981).

O primeiro poema concreto português de que há informação é "Solidão", de José-Alberto Marques, publicado na Revista dos Finalistas do Colégio Andrade Corvo (Torres Novas, 1958) e recentemente republicado no livro I'man, do mesmo autor (Lisboa: Pangeia, 2009). No ano seguinte, Ana Hatherly escreveu um artigo para o Diário de Notícias de 17 de Setembro de 1959, com o título de “O idêntico inverso ou o lirismo ultra-romântico e a poesia concreta”, artigo esse que veio acompanhado de poema pré-concreto da autora. No que diz respeito a livros dedicados ao assunto, A Proposição 2.01--Poesia Experimental, de Ernesto M. de Melo e Castro, apareceu em 1965.

As origens da poesia concreta já se encontram no primeiro livro de Salette Tavares, Espelho cego, publicado em 1957, onde é possível testemunhar um recurso à substantivização que está muito próximo do utilizado pelos poetas concretistas brasileiros desde o princípio dos anos 50, bem como em alguns poemas da mesma altura de Melo e Castro, Ana Hatherly e António Aragão.

A tendência para situar o aparecimento da poesia visual no início do século XX, com as parole in libertà dos futuristas ou os  poemas-colagem dos dadaístas, é contrariada por Ana Hatherly, para quem uma cronologia da poesia visual deveria incluir séculos de experiência de textos-imagens, que compreendem hieróglifos, ideogramas, criptogramas, diagramas, e outros textos e objectos poemáticos identificáveis como tal (Textos 141). De qualquer modo, com a poesia concreta, como os poetas brasileiros afirmaram, dá-se por encerrado o ciclo histórico do verso, inaugurando o espaço gráfico da página enquanto agente estrutural, e não apenas linear-temporal, como nos caligramas e ideogramas estudados por Hatherly.

O Movimento da Poesia Experimental portuguesa caracteriza-se essencialmente pela contestação da crítica literária vigente, denunciando a inadequação da crítica aos novos materiais do poema. Por outro lado, encontra na repressão política generalizada que então se vivia no país, as origens do desfasamento dessa mesma crítica às práticas poéticas. Deste modo, a poesia experimental, como os seus principais autores não se cansam de insistir e mostrar, precisou de se apoiar numa teorização da sua prática poética. As teorias do texto e da comunicação dos anos 60 foram, neste sentido, fundamentais, verificando-se nos autores um conhecimento profundo da teoria da informação, da semiótica, ou do estruturalismo, mas deixando-se ao mesmo tempo impressionar pela utilização criativa da tipografia, e da publicidade.

Outra das razões que poderá ter conduzido à ostracização do Movimento da Poesia Experimental nos anos 60 foi o facto de o clima literário português estar, nessa altura, controlado pela tendência onírico-psicologista dos poetas de cariz surrealista. A rejeição inicial do Surrealismo por parte dos poetas concretistas poderá de facto ter originado uma impressão negativa generalizada, uma vez que o Surrealismo é uma tendência dominante e visível na literatura portuguesa contemporânea. No entanto, ao contrário dos interesses subjectivistas dos surrealistas, os experimentalistas centram a sua atenção na palavra como valor absoluto e substantivo. Também a prevalência da noção de autor e individualidade dos surrealistas é substituída pelos experimentalistas por uma preocupação com o processo de criação e leitura do poema. A demarcação proposta pelos membros da PO-EX também se verifica em relação a outras tendências literárias.

Em forma de resumo das propostas desenvolvidas ao longo dos textos que os experimentalistas deixaram, devidamente documentadas em Po.Ex: Textos teóricos e documentos da poesia experimental portuguesa, é possível concluir que a PO-EX opõe-se ao sentimentalismo e ao discursivismo da poesia tradicional em geral; rejeita a rigidez da métrica e da rima; propõe o objectivismo e o trabalho colectivo para contrabalançar uma herança demasiado pesada de psicologismo individualista próprio da geração do Orpheu; sugere a resistência e o internacionalismo como forma de rejeitar o projecto nacionalista do Futurismo português; e rejeita o discurso ideológico do Neo-realismo e o automatismo do Surrealismo, propondo em vez disso uma aproximação ao cientismo (Textos 26-27).

Deste modo, e uma vez que o grupo da PO.EX desarticula os papéis tradicionalmente atribuídos à poesia e à crítica, Hatherly e Melo e Castro entendem que a atitude de perplexidade dos críticos representa a resposta possível à “pura falta de adequação às matérias em questão…” (169). Para os autores, uma crítica “desinformada” só pode alimentar mitos tais como “a verdade, a autenticidade, a inspiração, a pureza do lirismo, o génio e o talento, ou outros conceitos mais ou menos metafísicos, que ele instituía arbitrariamente (impressionisticamente?) em critérios de apreciação literária” (Textos 170-71).


Referências >

Aguiar, Fernando & Gabriel Rui Silva, eds. Concreta, experimental, visual: poesia portuguesa, 1959-1989. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1989.

Aguiar, Fernando & Silvestre Pestana, eds. Poemografias: Perspectivas da Poesia Visual Portuguesa. Lisboa: Ulmeiro, 1985.

Ana Hatherly & E. M. de Melo e Castro, eds. Po.Ex: Textos teóricos e documentos da Poesia experimental portuguesa. Lisboa: Moraes, 1981.

Melo e Castro, E. M. de. A proposição 2.01. Poesia Experimental. Lisboa: Ulisseia, 1965.

Reis, Pedro. Poesia Concreta: uma prática intersemiótica. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa, 1998.

Antologia da Poesia Experimental Portuguesa, Anos 60 – anos 80, org. Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro, Coimbra, Angelus Novus, 2004.