In > Percursos da Narrativa Brasileira Contemporânea, volume II, org. Flávio P. Camargo & João B. Cardoso. Goiás, Editora da PUC Goiás. pp. 15-36, 2011. ISBN 978-85-7103-733-5.


A trajetória da Humanidade tem sido marcada, ao longo do tempo, por uma estreita relação com a linguagem: da escrita do ar (oralidade socrática) à escrita da água (pré e pós-gutenberguiana) e à, então, escrita da luz (a linguagem do pixel). Nesse processo, não restam dúvidas de que vivenciamos hoje uma expressiva transformação nos mecanismos de aquisição e transmissão do conhecimento, na passagem do paradigma gutenberguiano ao paradigma digital. Assim, tendo em conta o advento das novas Tecnologias da Informação e da Comunicação e os variados sítios de compartilhamento que proliferam, ao infinito, na web – ante o estilo de vida “instantâneo” gerado pelos mecanismos de automação do humano – não restam dúvidas que vivenciamos a instauração da cibercultura. Nesse contexto, é necessário repensar com David Valcarce, em seu artigo “Zoon tecnologi.com: entidade emergente da neociberestrutura da informação”, quando descreve essa entidade como uma espécie de “indivíduo com características particulares enquanto sujeito da Sociedade da Informação” (VALCARCE, 2009, p. 87). Nesta sociedade, entendida pelo autor como um ciberlugar onde existe uma nova distribuição de trabalho, onde surgem ocupações inéditas e desaparecem outras clássicas e onde novos mercados emergem e novas formas de vida socioculturais se conguram, qual será o papel da literatura e do escritor?

Refletindo acerca desta realidade, em que as fronteiras geográficas e temporais parecem se diluir, Prado (2005, p. 77) assevera que nos ambientes digitais, as barreiras e os limites são rompidos, “não há horizonte, nem gravidade, não existe um material concreto, não há elementos sólidos intransponíveis”. A obra artística que eclode deste ambiente apresenta-se como uma produção aberta, coletiva e planetária, o ato criativo não fica mais limitado ao momento da realização da obra. A interatividade firma-se como elemento basilar, os próprios limites entre autor e espectador, real e virtual tornam-se oscilantes. É assim que, revisitando o conto “Amor”, da coletânea Laços de Família (1960), Rui Torres elabora seu poema “Amor de Clarice”, cujo suporte é a tela do computador. Aliando recursos audiovisuais e multimédia, o escritor português busca expandir a carga polissêmica do texto original. Com efeito, o estudo das respectivas criações proposto neste ensaio torna-se relevante, uma vez que incita uma oportuna e necessária discussão acerca do entrecruzamento da linguagem literária com os novos média, enquanto recursos interessantes à disposição do artista, na concepção e elaboração de sua obra.