REIS, P. (2014). Videopoesia: Produção poética híbrida em língua portuguesa. In: TORRES, R. (Org.). Poesia Experimental Portuguesa: Contextos, Ensaios, Entrevistas, Metodologias. Porto: Edições UFP, p. 101-116. ISBN 978-989-643-121-1. Disponível em < http://po-ex.net/taxonomia/transtextualidades/metatextualidades-alografas/poesia-experimental-portuguesa-contextos-ensaios-entrevistas-metodologias >.


Da Introdução > A época em que vivemos apresenta muitos indícios que nos permitem considerá-la, no domínio cultural, como uma época de transição, ao constatar-se um incremento de interação da palavra com outros discursos, que se afigura suscetível de configurar uma mudança de paradigma cultural. Efetivamente, o predomínio da palavra, como veículo privilegiado de transmissão da informação e do saber, da cultura marcadamente logocêntrica de outrora, parece estar cada vez mais a ceder lugar a modalidades discursivas mais compósitas, baseadas na articulação de palavra, som e imagem. Esta alteração cultural, cujas primeiras manifestações vários críticos tendem a situar na passagem do século XIX para o século XX1 que se encontra já refletida em vários processos de comunicação psico-socialmente dominantes, como revistas ilustradas, o código da estrada, a banda desenhada, manifestações populares como os ‘graffiti’, os posters, a publicidade, a propaganda, agudiza-se ainda mais com o desenvolvimento fotografia-filme-televisão-vídeo-DVD e também com o que tem vindo a designar-se correntemente como “multimedia”, “hipermedia” ou ainda com a web. Todos estes são marcos largamente difundidos deste percurso sócio-cultural, que têm, na história literária, o seu paralelo em movimentos como o futurismo, o dadaísmo, o surrealismo e, mais recentemente, o concretismo assim como diversos géneros textuais orientados para a articulação da palavra principalmente com a imagem mas também com o som. São, portanto, notórias as relações entre a cultura literária e uma cultura visual em ascensão, que desde a segunda metade do século XX, parece possibilitar cada vez mais a emergência de uma cultura “pós-literária” – no sentido etimológico do termo: pós-“litera” (após a letra) – na medida em que, em muitos dos processos comunicativos atuais, a palavra deixa de ser o único veículo, ou mesmo o veículo dominante, para a transmissão de mensagens, passando a surgir em articulação com outros signos. A contribuir para este cenário não são estranhos os desenvolvimentos tecnológicos que originaram novos suportes para a comunicação, como se verifica, por exemplo, com o imediatismo eletrónico da televisão que forneceu, como defende Margot Lovejoy, um forte ímpeto para transformações sociais e culturais rápidas.


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