In: Jornal de Letras e Artes, Dir. Azevedo Martins, Ano IV – nº 176, 10 Fevereiro 1965, PP. 5, 12 e 14.


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Antes de mais, meu caro Jorge Peixinho, deixe-me traçar uma breve análise sobre a influência que pode operar no meio musical, extensiva, porventura, ao meio cultural português, a sua inclusão no acervo das réplicas que se têm levantado contra a minha crítica. Se as outras vozes não foram, na verdade, eficientes, não só por se terem furtado ao assunto central, como pela carência de autoridade manifesta, não quer isso dizer agora, que não ganhem, pelo menos um certo volume, reforçadas com o seu depoimento.

O primeiro resultado é o seguinte: o leitor está no seu direito de perguntar: «Que espécie de crítico vem a ser este contra o qual todos protestam? Que voz será essa que se levanta isolada e não encontra acolhimento? Um homem só (se não se chama Wagner, Debussy ou Schoenberg) não pode ter razão. Fatalmente um crítico desses não faz sentido. Está a embaraçar a acção das maiorias!»

O objectivo desta breve análise resume-se a provar que seria fácil da minha parte evitar a sua investida, meu caro Jorge Peixinho, uma vez reconhecido por mim, antecipadamente, o seu peso momentâneo. E a forma mais simples de a evitar, toda a gente sabe, era a do elogio. Como já deve ter verificado por experiência própria, nunca um crítico é admoestado desde que se escude por detrás do elogio. Infelizmente é assim. Nunca o artista alvejado apontou erros ao crítico encomiástico. Considerando esta realidade, espero que me faça justiça por me ter abertamente lançado nesta crítica desfavorável a um infeliz espectáculo, que você considera extraordinário, e que eu continuo a lamentar que o Jorge Peixinho nele tenha estado envolvido. Quanto aos outros colaboradores, a sua participação em «assuntos musicais» não teria originado qualquer comentário da minha parte. Como é simples admitir, considerando-me vulnerável em relação a si, Jorge Peixinho, eu tinha dois caminhos a seguir ou, dentro da «teoria da informação», que tão grata lhe é, duas alternativas: ou não fazer a crítica, ou fazê-la à base de elogios.

A escolha entre estas duas possibilidades evitava a sua réplica e, nesse caso, eu teria desanuviado a densidade da pressão contra a minha crítica, sobretudo reconhecendo em si, Jorge Peixinho, uma capacidade polémica mais desenvolvida. E, no essencial, quando se ataca um crítico é sempre para demonstrar a sua incompetência. Só que muitas vezes não é fácil...

Porque motivo então, reconhecendo eu a sua capacidade polémica, me lancei obstinadamente no caminho da minha ruína? Já me referi mais de uma vez à sua personalidade nestas mesmas colunas, com o entusiasmo que a sua aparição na música me inspirou. Vi na sua entrada nas lidas musicais uma nova e valiosa contribuição e entendi que somente o facto de eu ter a oportunidade de poder proclamar a importância desse acontecimento justificava a minha presença nesta tribuna e recompensava, outrossim, a condição de restrita latitude, na qual a maior parte das minhas resenhas críticas eram, devido à escassez do meio, forçadas a manter-se. Você vinha trazer a possibilidade de um novo diálogo, mais rico, mais intenso, mais fecundo.

Portanto, eu não devia arruinar o efeito positivo que, referindo-me a si entusiasticamente, as minhas críticas exerceram, embora relativamente, nessa ocasião, e que a partir deste momento, passa a ser negativo. Porque o erro que você, Jorge Peixinho, foi forçado a verificar nas minhas objecções pode ser um erro de base e que de certo já se encontra nas minhas preposições elogiosas – e esse erro tanto existe quando louvo, como quando condeno.

Ora é justamente o que me custa admitir. Por que se a sua produção musical propriamente dita, e à qual me referi entusiasticamente, representa algo de novo no panorama da música em Portugal, cujo reconhecimento imediato contém do meu lado, permita-me a imodéstia, uma judiciosa compreensão crítica, a sua actual adesão aos poetas experimentais (a mistura dos problemas musicais com esses aspectos literários) afigura-se-me ridícula para não falar na discrepância que reveste.

A «GESTALTPSYCHOLOGIE» AO SERVIÇO DE BALÕES E OUTRAS BUGIGANGAS

Jorge Peixinho, você defende (só, sem o auxílio os outros seus colaboradores, que se mantêm inexplicavelmente mudos e quedos) a sua última posição com habilidade suficiente e servindo-se do seu prestígio (autêntico), ainda que sejam inadmissíveis as conclusões a que chega, como se verá no fim; mas esqueceu um outro aspecto da questão: é que a sessão a que chamou «concerto» ou «audição pictórica» enfermou de uma total falta de êxito.

Foi fastidiosa, insípida, monótona, enfim, primária em toda a linha. Foi tudo convencional, e aqui você não pode sair-se airosamente se pretende rectificar a seu favor a opinião da crítica que foi de resto unânime. Ficaria na mesma ingrata situação do executante de música clássica que viesse defender-se cada vez que a crítica o julga rigorosamente, depois de uma infeliz execução de Mozart, Beethoven ou Chopin. Você próprio, Jorge Peixinho, tem exercido a crítica na «Seara Nova» e tem sido severo com alguns executantes que, na sua actuação, estiveram sem dúvida acima dos seus colaboradores quando tocaram em chocalhos, rebentaram balões, desenrolaram papel higiénico, incluindo você mesmo quando bebeu água no bidé, na tal audição pictórica por si assim consderada – atendendo à minha gravata que, nesse dia, por acaso, não tinha. Até porque deve forçosamente reconhecer que tocar Vivaldi no violino não é o mesmo que tocar num chocalho – salvo o devido respeito pelas vacas, uma vez que aqui, ou em qualquer país desenvolvido, ser vaca não é mais fácil do que ser violinista. São coisas diferentes. O que é fácil, quando não se arrisca nada (como é o caso dos seus colaboradores que nunca estiveram interessados no destino da nossa música), é badalar num chocalho pretendendo ser engraçado. Enquanto o violinista que tocou Vivaldi lutou muito para ultrapassar barreiras que nunca mais vencerá totalmente, talvez, porque um violino não é um chocalho! O violinista está mais de acordo com a Revolução Industrial e com um proletariado cada vez mais consciente e em nítida ascensão, a que você se refere, do que António Aragão, ou Melo e Castro, ou Salette Tavares quando tocam chocalhos, rebentam balões ou exibem qualquer dessas meras brincadeiras inconsequentes. Acredite.

Se você, Jorge Peixinho, não tivesse caído em transe (e possivelmente os seus colaboradores foram pela mesma), teria reparado que o público se aborreceu imenso, que as pessoas saiam de vez em quando para ir tomar um café, ou qualquer outra coisa, no café do lado, e que alguns conversavam de assuntos que nem sequer se ligavam ao acontecimento. Outras lamentavam vê-lo envolvido naquela exibição grotesta. Ouvi um jovem dizer para a pessoa que estava a seu lado: «A mim, o que me custa é ver o Peixinho metido nisto!»

Esta exclamação era ainda um elogio.

QUANDO TEMOS X HARTLEYS = BIDÉ + PAPEL HIGIÉNICO

Por conseguinte, não é já a falta de originalidade que está em causa. É a sua realização. E você, meu caro Jorge Peixinho, deveria, quanto a isso, desta feita, ter a mesma «disciplina» a mesma «moral», que demonstraram ter os artistas a quem você na «Seara Nova» julgou severamente e decerto com toda a razão. Por que, nesse caso, eles poderiam também rebatê-lo, para o que não faltam teorias – incluindo a da Revolução Industrial.

Admitir que Salette Tavares, António Aragão e Melo e Castro estão aptos a informar e interessar uma assistência sobre as perspectivas actuais da música, o que a crítica unanimemente entende que não, e que, aliás, é fácil demonstrar, e vir por último defender uma actuação completamente falhada, não lhe parece um acto incoerente, uma atitude em desacordo com a sua actividade crítica?

Quanto ao resto, a sua defesa parece-me dar sintomas de ter entrado no capítulo das miragens.

Com certeza o leitor já reparou que todas as considerações de Jorge Peixinho são o reflexo de uma sólida cultura, de um espírito inquieto, sequioso de conhecimento e aterrado com a ideia de «não ser moderno». A avaliar pela sua «resposta» que chegou a cair na fraqueza do auto-elogio, fraqueza própria dos seres de eleição (como Ingre que se vangloriava do seu desafinado violino!), dir-se-ia que a famigerada «audição-pictórica» foi, na realidade, uma das mais extraordinárias manifestações artísticas que se realizaram em Portugal – porque não na Europa? Porque não no Mundo?

Ora acontece que nem Jorge Peixinho conseguiu passar da teoria à prática (e nenhuma teoria é válida sem a sua realização prática), nem os seus colaboradores possuem conhecimentos musicais que lhes permitam debruçar-se sobre problemas tão complexos como o princípio serial combinatório e, muito menos, serem portadores da sua significação. Este contra-senso leva-nos a pensar que Jorge Peixinho se encontra em crise. Pomos, portanto, de lado os seus colaboradores, atendendo a que o assunto é demasiado importante no que respeita à nossa problemática musical para se compadecer com a presença de leigos, e vamos encarar os pontos em que me parece que Jorge Peixinho deveria deter a sua atenção, o que o levaria sem dúvida, a rever os seus processos de criador. Pomos também de parte (e isso acima de tudo) as teorias da «Gestaltpsychologie» que não podem vir a propósito de um jogo com materiais adquiridos nas tabacarias... Se me permitem! (Para não dizer que o assunto é assaz transcendente e há leitores que o conhecem com certeza melhor do que Jorge Peixinho e incomparavelmente melhor do que eu...) Podemos admitir, por ser mais acessível, a «teoria da informação» ainda que, claro está, debaixo de grandes reservas porque pode originar situações ambíguas como as que se verificaram na «audição pictórica».

Quer isto dizer que o facto dos «Happenings», de Cage, se transferirem para as filosofias orientais não implica a sua segregação irrevogável das alternativas da «teoria da informação». Basta para tanto estabelecer o sistema de convenções, o código, que permite as traduções fiéis dos sinais, dos caracteres, para se entrar na operação que conduz à solução clássica da análise combinatória sobre o número de significações possíveis, que nos permite calcular a capacidade de informação. E isto tanto poderia ser feito a priori como a posteriori – se não fosse cairmos num sincretismo que em matéria de arte acarreta grandes desilusões. (Que é, finalmente, onde me parece ter caído Jorge Peixinho). Porque o mal de Jorge Peixinho está em não se ter precavido contra o perigo que espreita os que se deixam seduzir pelo lado fácil dos sistemas. Assim, Jorge Peixinho, resvala para a gíria e para o pastiche a que se refere Guilbaud. Reportando-se aos processos utilizados para imitar uma linguagem real, Guilbaud considera gírias certas extensões de formas verbais (musicais, etc.), que podem produzir a arte do comediante ou a do doente mental e que a estes se junta uma terceira espécie de gíria mecânica, tirada das cadeias de Markov. Guilbaud pergunta por fim: «Convirá fabricar máquinas que produzem gírias? Que destino daremos às suas produções? Deixemos de parte as utilizações estéticas preconizadas pelos inovadores ousados: não é impossível que seja agradável ler ou escutar sons ou palavras encadeadas por um processo de Markov. Mas o prazer de sonhar sobre os cortes da linguagem justificaria o trabalho de as fabricar?

Outro especialista como Claude Shannon diz que não há relação entre ponto de vista semântico e o do engenheiro; a opinião reforçada por Brillon: A informação recebe uma definição puramente estatística que exclui todos os elementos humanos, sentido moral, importância científica, social ou financeira. Assim, os especialistas distinguem arbitrariamente informação de: Ciência, Sabedoria, Conhecimento.

Por essa razão, e para terminar (porque ainda dentro da teoria da informação podemos nunca mais sair daqui), continuo a afirmar que a proposição de Jorge Peixinho não tem uma génese de Informação. Tem sim, como todos os jogos ou manifestações «mais ou menos aleatórias» (que é o caso), sinais susceptíveis de dar uma mensagem que no meu ponto de vista (chegamos finalmente a este resultado) são dadaísticas, via John Cage, no mais ínfimo coeficiente. É uma manifestação sentimental, humana, moralista como sem querer Jorge Peixinho designa: a nossa emoção comunicativa; nós atingimos um verdadeiro estado de transe; a adesão espiritual, a comunicação mágica entre actor e fruidor... Isto não é John Cage primário, «malgré tout»?

Decididamente Jorge Peixinho tem de rever as teorias que julga seguir. Ou então voltar para a sua música, ou melhor, para a corrente musical sob a qual apareceu pela primeira vez. E não ser falso-cientista para gáudio de falsos filósofos voltando costas aos músicos – o que é um espectáculo triste para uma cidade!


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