Este texto faz parte de Dossier de Homenagem a José-Alberto Marques. Leia outros textos e releituras em > Homeóstatos de José-Alberto Marques: Uma Homenagem pelo Arquivo Digital da PO.EX.


Ao receber o convite de Rui Torres para redigir um texto de apresentação ou elaborar uma releitura dos Homeóstatos de José-Alberto Marques, de imediato imaginei um breve ensaio teórico, mas a ideia de uma intervenção gráfica também me pareceu oportuna. Para o ensaio, imaginei uma relação entre os poemas da série e a teoria da Autopoiesis formulada pelo biólogo chileno Humberto Maturana e pelo médico chileno Francisco Varela na década de 1970. Nesta teoria, o conceito de homeostase exerce um papel fundamental para sua compreensão.

A reorganização constante dos versos presentes nos Homeóstatos de José-Alberto Marques traduz claramente para o campo poético, os postulados fisiológicos dos pesquisadores chilenos, pois de fato, tal teoria não se restringe ao campo biológico mas exerce também forte influência na fenomenologia da percepção e nas ciências cognitivas.

O aspecto gráfico e espacial incomum dos Homeóstatos são familiares para mim, que pesquiso ao longo de 8 anos, as relações gráficas entre a imagem e a palavra na poesia impressa e digital. Portanto, a ideia de apropriar-me de um poema da série redefinindo-o em sua espacialização surgiu ao perceber que o espaço onde estão impressos os Homeóstatos de José-Alberto Marques recusa a planaridade tradicional da página e insurge contra sua topografia promovendo uma dobra no espaço e no tempo.

A descrição mencionada acima pode ser melhor avaliada a partir de um poema digital criado pelo poeta brasileiro André Vallias em 1991 intitulado Nous n'avons pas compris Descartes (Figura 1). Trata-se de um poema animado por computador no qual são exibidos dois diagramas de um plano. Enquanto a primeira representação (Page) exibe uma forma plana aludindo à geometria euclidiana e cartesiana, a segunda representação (Poem) surge com sua superfície ondulada representando o tempo e o espaço da física moderna.


Figura 1. Nous n'avons pas compris Descartes. André Vallias, 1991.


A sugestão da referência de Maturana e Varela decorre de 2007, período em que realizei meu curso de mestrado na disciplina de Teorias Avançadas nas Ciências Cognitivas ministrada pelo professor Winfried Nöth. Envolvidos em questões sobre a formação do pensamento humano e a evolução das máquinas semióticas discutíamos como os computadores e robôs se desenvolveriam à nossa imagem e semelhança no futuro. Entre as inúmeras abordagens teóricas presentes na ementa da disciplina, a perspectiva cibernética merece destaque neste texto pois ela se vale da homeostase como princípio de conservação das propriedades internas dos organismos vivos através de mecanismos biológicos configurando-se como um modelo ideal para a concepção de máquinas auto-reguladoras.

Neste período, a poesia em meio digital, tornou-se meu objeto de pesquisa e desde então este tema conduziu minha produção acadêmica sempre enfatizando as produções em poesia digital brasileiras e portuguesas. As primeiras manifestações da poesia e da literatura realizadas com a ajuda de computadores cruzam, em alguma medida, com modelos cibernéticos. Acredito que os “motores textuais”, softwares desenvolvidos para gerenciar e organizar a sintaxe de um banco de dados de palavras previamente alimentado, podem ser considerados como um mecanismo com funções homeostáticas. Motores textuais como o Sintext de Pedro Barbosa, José Torres e Abílio Cavalheiro e aquele utilizado por Rui Torres em Poemas no Meio do Caminho são exemplos interessantes de regulação interna de um sistema.

A adoção de um título correlato à homeostase para sua série de poemas em 1965, manifesta a sensibilidade de José-Alberto Marques para as inovações, pelas quais passava, a linguagem poética. Para Ernesto de Melo e Castro, José-Alberto Marques entendia a homeostasia como uma metáfora da própria especificidade da poesia. Depreende-se desta asserção, que a poesia pode ser considerada um organismo vivo. Nesta concepção, o poema é fruto de um sistema formado não apenas por órgãos complexos que compõem sua estrutura semântica e cultural, mas também por unidades celulares que por vezes se agrupam, por outras se separam formando novas cadeias de sentido.

Em todos os Homeóstatos de José-Alberto Marques percebe-se uma representação do universo na página. Os versos fragmentam-se no espaço como constelações e comportam-se como corpos em movimento, verdadeiros signos em rotação. Nestes poemas não surgem ideogramas explícitos ou tautológicos, quando muito, estes sugerem dispersão e onomatopéias, porém, a decomposição vocabular do poema despe pouco a pouco toda estrutura sintática da linguagem poética deixando revelar a potencialidade de sua essência.

Tomemos como exemplo, o Homeóstato nº 04, onde o verso: “tenso. a luz corta. amo. amo e posso. quero: vivo” vai se decompondo e se reestruturando até formar o verso: “força. arde. cor para. o homem. ainda”.


Figura 2. Imagem de Homeóstato 4, José-Alberto Marques, 1965, in Operação 1 (1967).


Neste poema, elaborado com extrema precisão, o verso “corpo” derivado de uma secção dos vocábulos corta e posso, demonstra a habilidade do poeta para recuperar o sentido do poema através da decomposição silábica. Não obstante a este recurso estilístico, a referência ao corpo, seja em suas sensações, seja em sua anatomia, é uma constante na série Homeóstatos. A flagrante presença de relações no poema entre elementos físicos e o meio ambiente, entre o dentro e o fora, a luminosidade e a escuridão demonstram uma preocupação em alcançar o equilíbrio entre o mundo interno e o externo.

Gostaria de concluir este pequeno ensaio apresentando 4 intervenções criativas em fragmentos do Homeóstato nº 04 as quais denominei Corpos em Dobra. Estas pequenas intervenções exploram a superfície gráfica do poema. A legibilidade linear dos fragmentos está intencionalmente impedida pelas distorções visuais realizadas nas camadas superpostas dos versos. A estratégia criativa utilizada nestas intervenções pretende revelar a sutileza do movimento e da corporalidade presentes nesta série de poemas de José-Alberto Marques. A poesia como um organismo vivo em constante movimento no tempo e no espaço.


Releitura de Homeóstato#4, por Cláudio Fajardo