[Texto publicado originalmente na revista Praça Velha, 2005]


Américo Rodrigues. Aorta tocante (CD Bosquimanos records, 2005).

Quando se inicia a audição de Aorta tocante, o mais recente disco de Américo Rodrigues, não se pode senão ficar surpreendido. E este será, julgo que para iniciados como para quem faça uma primeira abordagem da obra do poeta da Guarda, o sentimento dominante em toda a audição.

É no título que Américo Rodrigues começa por investir o potencial de espanto. A capa traz uma foto do autor a soprar um pecíolo de aboboreira. A contracapa explicita o título — Aorta tocante —, ostentando a indicação ‘sound poetry’, um inglês que deve ler-se como sinal claro de que é noutro lugar que o destino deste disco se joga, ou de que a poesia sonora, mesmo a portuguesa, tem interlocutores além fronteiras. Depois, a bela letra Artéria, desenhada por Jorge dos Reis, indica em corpo menor: ‘música vegetal / vegetabe music’ (mas também pode ler-se, creio que com vantagem, ‘música vegetable / vegetal music’). Os dados estão lançados com este trio: sons do coração, poesia sonora e música vegetal. Resta agora ouvir. Abra-se, pois, o disco e ouça-se a voz do poeta — ou o coração? — entrançada nos pecíolos de aboboreira, na manipulaçã técnica cruzada com os registos sonoros de amigos e convidados (muito) especiais, como o índio wichi-mataco Nohién ou o grupo Coco de Zambê de Tibau do Sul (Brasil).

O disco contém seis peças, a primeira das quais dá nome ao disco e é a mais extensa, com cerca de 33 minutos. É também a peça que mais profundamente materializa o tom desta etapa da criação de Américo Rodrigues, entre a voz primordial que tantas vezes já lhe ouvimos e a complexidade do mundo da electrónica. Esta é, talvez, a mais funda marca deste registo (e de todo o disco): um nível de complexificação nos processos e nas possibilidades de gravação que coloca a voz no mesmo plano que os restantes elementos. Ouvem-se, com efeito, e sem hierarquias duráveis, sons gravados de pecíolo de aboboreira, vozes pausadas, claramente enunciadas frases (também sobre a aorta, também sobre a condição primordial desta música), vozes e cantos modificados electronicamente, modulações rítmicas fortes, sons guturais hipnoticamente repetidos, evocações chamânicas, vertigens electroacústicas. Resulta de tudo isso uma extraordinária fluidez, uma vertigem de imagens que nunca permite ao ouvinte seguir numa única direcção, multiplicando referêcias e possibilidades de sentido.

Mataco, a segunda composição, segue os parâmetros da anterior, convocando, logo desde a homenagem do título, a figura tutelar do índio Nohién, da tribo Wichi-Mataco. As suas vozes e figura, que Américo Rodrigues conduziu pela cidade da Guarda (onde esteve em 1996). Sons gravados pelo autor cruzam-se agora com as vozes de Américo Rodrigues, chegando-nos num ritmo encantatório, como que forjando uma memória primordial desse encontro.

A terceira composição utiliza uma frase poética (e suas variantes) numa espécie de canto a capella electrónico. Sob essa repetição ouvem-se os ritmos brasileiros de Coco de Zambê (Rio Grande do Sul). Vem também do Brasil a ‘colaboração’ na quarta composição, com os instrumentos de Antúlio Madureira a contrastar fortemente com o universo da aorta (da horta) cantante.

As duas últimas coomposições contam com colaborações nacionais: a quinta com os Deity of carnification (Guarda), talvez a mais voraz das aproximações do disco, com o som metálico transgressor dos Deity a piscar o olho ao gutural de Américo Rodrigues. Na sexta e última das composições, é César Prata, também responsável pela mistura do disco, quem cruza o seu universo sonoro com a voz, fortemente manipulada, de Américo Rodrigues.

Para quem conheça já o percurso na poesia sonora de Américo Rodrigues — ou algumas das facetas desse percurso, entre o rigor da palavra e as colaborações artísticas de risco —, este disco coloca em evidência a deslocação a que o poeta procede ao colocar sob o signo da técnica esta proposta tocante. Pode até ser paradoxal que um mundo sonoro tão próximo da efemeridade, da memória infantil e, para dizer tudo, do coração, encontre caminho nas possibilidades da técnica. E esse não será a menor das razões de surpresa de que falava no início. Com efeito, é a primeira vez em que a electrónica tem um tão forte peso no resultado final de um trabalho seu, com consequências indeléveis: as características do trabalho dificultam, quando não limitam, as possibilidades de apresentação ao vivo. Essa é também uma razão mais para celebrar a edição de Aorta tocante. É que aí o registo assume-se como um radical ponto de origem.


[Agradecemos a José Alberto Ferreira a autorização que permitiu disponibilizar este texto no Arquivo Digital da PO.EX]