[Este texto foi também publicado em inglês no Electronic Literature Directory, parceiro institucional do Po-ex.net - http://directory.eliterature.org/node/3908]


Actor, encenador e director de teatro, Américo Rodrigues é também a voz que ouvimos em Escatologia (2003), uma colecção de poesia sonora criada com a colaboração de Luís Andrade (gravação e edição); Maria Lino (desenhos originais), João Louro (desenho gráfico) e E. M. de Melo e Castro (texto). Neste trabalho, o aparelho fonador do poeta é usado como um laboratório de som e um amplificador de significado.

Neste trabalho, Os Lusíadas (1572) são recitados por Américo Rodrigues enquanto mastiga batatas fritas. O som produzido corresponde a vogais e sílabas desconexas ou palavras que estão a ser trituradas pela experiência sonora levada a cabo por Américo Rodrigues. Reduzidas às suas unidades mínimas, as palavras perdem coerência, até que cessam de existir. Face à iminente perda de sentido, o ouvinte assiste a uma performance onde os sons regressam a um estado primitivo, libertos das imposições da escrita ou do discurso verbal. Américo Rodrigues mostra que os sons vocais podem ir além das palavras ou letras, e trata-os como manifestações físicas de emoções (Portela, 2003) ou como resquícios de sentimentos e sensações. Assim que estes são vocalizados, eles desaparecem instantaneamente. "Escatologia" é o estudo do final do mundo ou da humanidade. A efemeridade do discurso oral é assim equacionada com a inevitabilidade da morte.


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Referências >

PORTELA, Manuel (2003). “o som do corpo com o som do corpo. Recensão de 'escatologia', de Américo Rodrigues”, in Inimigo Rumor, Nr.15. Lisboa/ Rio de Janeiro, pp. 246-251. Disponível em: http://po-ex.net/taxonomia/transtextualidades/metatextualidades-alografas/manuel-portela-o-som-do-corpo-com-o-som-corpo