[Este texto foi também publicado em inglês no Electronic Literature Directory, parceiro institucional do Po-ex.net]


Visão Visual Vocal é uma performance de poesia sonora de Américo Rodrigues realizada a 17 de Março de 2006 no Auditório de Serralves (Porto) no âmbito da exposição O caminho do leve = The way to lightness, de E. M. de Melo e Castro. A performance de Américo Rodrigues consiste na leitura de dez poemas visuais de Melo e Castro. Um dos textos é de natureza caligráfica, “Escrita escrita”, publicado na secção “Caligrafias (1961-75)” do livro Visão Visual (Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1994), e os outros nove são textos ideogramáticos. Segundo data atribuída pelo próprio autor, cinco destes ideogramas foram escritos entre 1961 e 1962 – “[Ver/ Não ler/ Ter]”, “Broca”, “[Pêndulo]”, “[Tontura]”, “Geografia humana” – e os restantes quatro foram elaborados no período compreendido entre 1963 e 1968 – “[Amora/ aroma/ amor/ ar]”, “[S s z]”, “[Transparente / Explosão]”, “[x r o t]”. Portanto, a concepção destes poemas teve lugar ao longo da década de surgimento e de maior fulgor do movimento da Poesia Experimental Portuguesa, tendo, inclusive, cinco destes textos sido extraídos de Ideogramas (Guimarães Editores, 1962), primeiro livro inteiramente dedicado à poesia concreta publicado em Portugal.

Américo Rodrigues é um poeta português, actor e performer sonoro. Gravou cinco álbuns de poesia sonora e, durante as últimas duas década, entre trabalhos no domínio da poesia, da ficção e do teatro, realizou ainda um alargado número de performances vocais em Portugal e no estrangeiro.

Em “Visão Visual Vocal”, ao ler cada um dos poemas, Rodrigues constrói um novo texto a partir de um texto cuja especificidade é precisamente não estar vinculado a um som ou conjunto de sons mas a um conceito ou ideia, ou a um gesto, no caso do texto caligráfico. Ao fazê-lo, Américo Rodrigues coloca em evidência a natureza dinâmica do texto e da linguagem. Nesse processo de remediação, os textos de Melo e Castro acabam por sofrer uma recodificação que os apresenta segundo determinada perspectiva, a de Américo Rodrigues, ela própria única e irrepetível, ainda que pautada por um sistema de regras objectivas.

Os poemas de Melo e Castro, inscritos no papel, contêm já em si complexas sugestões de movimento de leitura. As suas características visuais são apropriadas por Américo Rodrigues num processo de tradução intersemiótica que, fazendo uso dos poemas visuais enquanto superfície de notação, vai associar propriedades acústicas às propriedades verbais e pictóricas dos poemas de Melo e Castro. Assim, para além da leitura não linear dos elementos verbais, elementos que surgem como resquícios de verbalidade – traços ilegíveis, formais verbais cacográficas e outros signos que funcionam como significantes visuais nos textos de Castro – são produzidos enquanto sons pré-verbais e pós-verbais no texto oral de Américo Rodrigues.

A performance de Américo Rodrigues materializa-se através de variados procedimentos de exploração das propriedades fonéticas e fonológicas da língua, com variações de intensidade, frequência e ritmo a surgirem como elementos significativos numa paisagem sonora onde também marcam presença hesitações, gaguejos, arrastamentos da fala e alguns gestos. A página serve de pauta, uma superfície de notação que fornece instruções alográficas para uma interpretação dos poemas aberta ao improviso. O poema é entendido como superfície de distribuição topográfica dos signos, sem porta de entrada ou de saída, superfície de navegação iterativa onde as regras da leitura ocidental (esquerda-direita cima-baixo) são quebradas pela invasão da voz de lugares diversos do texto, repetições várias e outras desconstruções que replicam a não-linearidade dos textos de Melo e Castro.

O processo de significação do poema visual não tem origem apenas nos significantes verbais e visuais nele presentes, decorre também da forma como esses significantes são espacializados no espaço da página e das relações que nele estabelecem entre si. A performance de Rodrigues pode perfeitamente ser entendida como um objecto autónomo, com vida própria. Mas o facto de ter como base os textos visuais de Castro tem uma significância particular: vem acrescentar alguma coisa a esses mesmos textos, numa espécie de movimento de revisão crítica que, ao dar nova vida a cada um dos poemas, acrescenta mais ao que sabemos sobre eles. Américo Rodrigues é, aqui, “escrileitor”.

Não há equivalentes únicos, perfeitos ou pré-feitos que garantam uma correspondência comunicacional plena entre discursos com materialidades distintas – ainda para mais em casos de radicalização das propriedades da linguagem como são os casos da poesia visual e da poesia sonora. Por isso, a performance construída tendo como base os poemas de Melo e Castro é sempre um caminho tentado, um dos caminhos possíveis entre uma infinidade de leituras potenciais. E, como objecto performativo que é, esse caminho está sempre sujeito às idiossincrasias do corpo, às contingências do espaço e do tempo, à efemeridade e irrepetibilidade das acções e dos actos da fala.

A relação entre visualidade e sonoridade ocupa o centro desta reflexão sobre os processos de criação de sentido da linguagem, acabando também por constituir um instrumento para pensar os meios de inscrição, a suposta estabilidade do papel e a efemeridade da oralidade. Relaciona-se com esta última questão o facto da performance de Américo Rodrigues ser aqui disponibilizada em formato vídeo. É esse o formato que permite uma mais fidedigna documentação do objecto, mas este meio tem limitações específicas, o que faz com que a experiência da fruição seja distinta quando comparada com a fruição in loco. Isto, claro, para além do facto de que o registo que aqui encontramos de certa forma cristalizar um acontecimento que, como se dizia no início, procura ter como centro da sua acção e reflexão a natureza dinâmica do texto e da linguagem.


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