In: Jornal de Letras e Artes, Dir. Azevedo Martins, Ano V – nº 247, 6 Julho 1966, P. 1 e 3


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Recordam-se de uma sessão que há tempos foi levada a efeito pelos experimentalistas portugueses da Livraria Divulgação de Lisboa? António Aragão levantou-se um caixão, exalando um lírico e telúrico cheiro à cebola que sobre ele tinha sido derramada; Salette Tavares mostrou o seu candelabro alfabético, a que eu tiraria algumas letras (pura experiência), e leu uma violenta sátira aos cri-cri ticos, que infelizmente não acabou com a raça, o que terá levado o próprio O'Neill a repetir, mais tarde, o calembour; Melo e Castro compôs uma notável sinfonia com o movimento sincopado das mãos, só foi pena que ninguém a tivesse escutado; Jorge Peixinho descarregou o seu saco de pêndulos sobre uma mesa, pô-los a funcionar e abandonou-os assim aos assistentes que, durante minutos largos, tiveram os seus bocejos ritmados; e Falcão e Baptista animaram a cena com pífaros e pífias que, não obstante, acabaram por provocar a mais terrível tempestade que já se viu no mundo. Se não houve senhoras desmaiadas, gente espojando-se no chão (atapetado!), saltos, pinotes, livros surripiados à generosidade de Bruno da Ponte, gritinhos histérico-estéticos – isso deveu-se apenas ao facto de os presentes detestarem francamente todo e qualquer exibicionismo, confiando à sua psique os sons e movimentos que o corpo pedia.

Depois desta jornada – que noite –, a que c um ou dois jornais se referiram, timidamente (hoje é um pouco perigoso chamar essa gente de paranóica), continuaram de pé muitos academismos, permaneceram tranquilos muitos salões literários, mas, que eu saiba, ninguém mais quis fazer experiências que tais, o que é de lamentar quando há tantos olhos sedentos de novidade, tantas boas viúvas de alegria, tantas almas pedindo arroubos artísticos.

Olhos, bocas e almas como essas tiveram agora a sua hora e vez no Brasil, onde também há cerca de dois anos, os músicos Damiano Cozzela e Rogério Duprat, e o poeta Décio Pignatari haviam levado a efeito alguns «happenings». Desta feita a iniciativa partiu de um grupo de jovens pintores, que quiseram inaugurar sensacionalmente a Galeria G-4, em Copacabana. E conseguiram-no. Desde a hora de início do «show» (21.30 h.) até à meia-noite, o vasto salão esteve sempre cheio de óculos, de olhos, de gente em sua maioria jovem que não só queria ver como também queria mostrar-se (e diga-se de passagem que algumas peças «naturais» não ficavam a dever nada, artisticamente falando, às outras obras expostas). A coisa começou da melhor maneira: com o arremesso à multidão de uma sanduíche mordida e de um boneco.

Então Rubens Gerchman mostrou dois retratos quase sobrepostos: o de um porco e o de uma conhecida figura (de um conhecido figurão) da TV carioca: Chacrinha. E como tivesse perguntado «o que é que um homem come?», António Dias resolveu gritar: «Comida para o Povo», e descarregar saquinhos de feijão sobre as cabeças.

A essa altura já se gerara tremenda «bagunça» entre as ditas. De tal modo que a sala foi-se esvaziando – de quadros, acontecimento que decerto não fora previsto pelos organizadores do «happening». Mas enquanto eram poucos os que atentavam na qualidade de algumas obras – os elevadores de Gerchman, que sabe como poucos captar as limitações e angústias dos grupos e multidões dos nossos dias; as notas de Roberto Magalhães (recém-premiado do XV Salão Nacional de Arte Moderna), violentas sátiras à vida económica e política do Brasil; as obras de António Dias, marcadas por uma coragem e originalidade que investe contra todos os formalismos – enquanto eram poucos os que atentavam na qualidade destas obras, eram legiões os que se dirigiam para o fundo do salão para espreitar por um pequeno buraco aberto por António Dias. Só que todos voltavam com um derrotado sorriso amarelo, que contrastava com o ar jovial e triunfal com que todos avançavam. É que o buraco dava para uma legenda, acompanhada da devida ilustração militar, que dizia mais ou menos: «Em vez de estar aí a olhar nessa posição ridícula, devia antes reparar nas coisas que se passam à sua volta, sem que você se pronuncie ou faça qualquer coisa».

Menos de quinze dias depois desta sadia versão carioca dos «escândalos» recentemente postos em voga na Paris de Jean-Jacques Lebel (que publicou há pouco a bíblia do happening), foi a vez de S. Paulo. Creio que a iniciativa terá partido do concretista Décio Pignatari, e dos mesmos artistas que já haviam participado, dois anos antes, nos rudimentares «happenings»... acontecidos em S. Paulo e Brasília; e não sei até que ponto ela se ficou devendo ao «espectáculo» do Rio, ou a um outro «espectáculo» não menos espectacular levado a efeito em S. Paulo, durante o qual foram tocadas e interpretadas em estilo «sério» várias das músicas ié-ié-ié em voga (a apresentação foi feita pelo «rei» Roberto Carlos, que saudava arranjos e intérpretes com a frase que ele tornou a mais repetida. neste momento, no Brasil: «é uma brasa, mora»).

O «happening» paulista, que se realizou no Juão Sebastião Bar, foi anunciado como tendo uma cena de strip-tease às avessas: a rapariga aparecia nua e iria vestindo peça por peça. Mas a verdade é que o espectáculo se aproximava do fim sem que aparecesse o strip-tease, o que intrigou um dos presentes, que interpelou os «actores» e obteve como resposta: – Não há strip-tease, porque a minha mão não quis vir.

É evidente que foi esta a única tirada humorada do «happening» paulista.

O público riu, ainda que com o riso de quem se sabe o motivo do riso, e até aplaudiu «palhaçadas» como aquela em que Pignatari aparecia vestido de general, lia versos de Bilac («Ama com fé e orgulho a Terra em que nasceste») e ia atirando pequenas moedas. Ou cenas como aquela em que, perturbado com as desafinações de Damiano Cozzela e Sandino Hahagen, um assistente gritou: «Palhaços, vocês não têm nada que fazer?». Ao que ripostou um dos visados: «Estamos fazendo, distinto senhor».

E quem há aí que se atreva a desmenti-lo? O que tem de interessante neste novo «espectáculo» é justamente o seu combate à espectaculosidade, o convite contínuo a que os presentes abandonem a comodidade das poltronas, rompam a distância que vai do palco à plateia e sejam a um tempo beneficiários e autores de «teatro». Dir-se-ia que um «happening» é uma psicoterapia de grupo, com a vantagem de dispensar o psiquiatra, que quando muito é substituído pelo mínimo comum artístico, e com o mérito de fundir da melhor maneira elementos oriundos de diversos campos da criação, individual ou colectiva.

Daí que de pouco valham ataques como os de Breton, ou comparações com as manifestações dadaístas, que só pretendiam escandalizar ou agredir. O «happening» é bem uma «arte» de um tempo voltado para a acção, de um tempo em que o homem quer interferir e responsabilizar-se pelo devir histórico, e se recusa a ser um simples assistente dele.


(1) A propósito de TV: de uma das minhas últimas cartas, poderia depreender-se que no Rio funcionam treze canais – quando a verdade é que apenas funcionam quatro.


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