Referência > Saraiva, Arnaldo. 1980. “Sobre Literatura Experimental”. Diário Popular, 6 de Março, Ano XXXVIII, n.º 13077, Suplemento “Letras e Artes”, p. V.


A expressão «literatura experimental» deve remeter imediatamente, em Portugal, para o método, o processo e as produções (parte delas, pelo menos) dos escritores e artistas responsáveis pela preparação e publicação de Poesia Experimental (Lisboa, 1964 e 1966). Esse grupo, que em 1963 e 1964 se reunia «informalmente» em cafés lisboetas da zona do Saldanha – especialmente Monte Branco, Paulistana e Mourisca – era constituído sobretudo por Herberto Helder, António Aragão, António Ramos Rosa, Arnaldo Saraiva, E. M. de Melo e Castro e, ainda, por Salette Tavares, António Barahona da Fonseca, Luiza Neto Jorge, Ana Hatherly, Jorge Peixinho e outros, que apareciam mais esporadicamente nos mesmos cafés. Desse grupo se aproximaram também, ao menos por gosto, interesse e orientação, escritores como José Alberto Marques, Liberto Cruz, Domingos Iglésias, assim como poderiam aproximar-se, pois beneficiaram certamente da sua existência, escritores de excelentes produções de «literatura experimental», tais como Alberto Pimenta, Maria Velho da Costa, António Franco Alexandre, Manuel da Silva Ramos, etc.

Inscrevendo-se conscientemente numa linha criativa que vinha pelo menos dos trovadores medievais, passava pela literatura barroca, por Mallarmé e pelo modernismo do séc. XX (futurismo, dadaísmo, surrealismo): beneficiando especialmente do concretismo brasileiro, mais conhecido por Melo e Castro e por Arnaldo Saraiva e divulgado em Portugal através de duas antologias organizadas por Alberto da Costa e Silva (A Nova Poesia Brasileira, Lisboa, 1960, e Poesia Concreta, Lisboa, 1962), dos novissimi italianos, mais  conhecidos por António Aragão, e da poética moderna francesa, de que António Ramos e Herberto Helder eram profundos conhecedores; apoiando-se em trabalhos teóricos dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Umberto Eco, Max Bense, Abraham Moles; valendo-se das lições contidas em publicações portuguesas colectivas e individuais (Cadernos de Poesia, Árvore, Poesia 61; Nemésio, Cesariny, Jorge de Sena) – o experimentalismo portuguÊs, que se pretendeu em relação com as vanguardas europeias e americanas, foi, como estas, um movimento essencialmente poético (mau grado certas incursões e repercussões nos domínios da prosa, da música, das artes plásticas), que nada teve a ver com o «experimentalismo» dos naturalistas do séc. XIX, pois, por um lado, representou uma reacção histórica contra a literatura superficialmente sentimental ou «conteudística», que nos anos 60 reinava ou fora revitalizada, e, por outro lado, se empenhou especialmente na invenção ou pesquisa de novos códigos, tentando provar ou pôr à prova a linguagem (alfabética) e diferentes «línguas» ou linguagens, sobretudo visuais, procedendo a montagens e desmontagens, saturando e revigorando grafias e estruturas, accionando e deslocando mecanismos e combinatórias, desrespeitando a morfo-sintaxe tradicional, inventando ritmos e neologismos, forçando sentidos (significados e direcções) imprevistos, conferindo ao texto um dinamismo e uma mobilidade em luta constante com a inércia, a mecânica frouxa, a ordem convencional (nos melhores casos, já que uma outra retórica pobre, falha de imaginação, está por detrás de certos jogos, homofónicos e analógicos, da arte experimental).

Com tudo isto, o experimentalismo – visual, fonético, concreto, etc. – deslocou o acento criador do resultado (imprevisível para o processo, do produto ou da mensagem para o acto produtor, do enunciado para a enunciação, repetindo no seu campo específico modos e mudanças idênticos às verificadas noutros domínios, sobretudo da medicina, da astronáutica, da cibernética, da tecnologia, e sugerindo simultaneamente a importância do poder maior do sujeito sobre o mundo (a linguagem, os objectos, a natureza) e os limites e o risco para o mesmo sujeito do exercício desse mesmo poder, ou de algumas das suas consequências, incontroláveis por ele. Por aí também se vê claramente como o experimentalismo, por um lado, visou a valorização máxima do trabalho individual e, por outro, põe em causa esse trabalho, limitado se não atento e conjugado com o trabalho de outros.


Alguma Bibliografia

E. M. de Melo e Castro, A Proposição 2.01, Lisboa, 1965; O Próprio Poético, S. Paulo, 1973; Dialéctica das Vanguardas, Lisboa, 1976; In-Novar, Lisboa, 1977;

José Alberto Marques e E. M. de Melo e Castro, Antologia da Poesia Concreta em Portugal, Lisboa, 1973;

Arnaldo Saraiva, «Linguística e Poesia», série de 4 artigos publicados no Diário de Notícias de 13, 20 e 27 de Junho de 1967 e de 4 de Junho de 1967 [as datas correctas são: 13, 20 e 27 de Julho de 1967 e de 3 de Agosto do mesmo ano], os quais constituem um ensaio que se destinava ao n.º 2 de Poesia Experimental e ainda o texto «Para uma Teoria da Vanguarda», In Literatura Marginal/izada, Porto, 1975;

Ana Hatherly, O Espaço Crítico – Do Simbolismo à Vanguarda, Lisboa, 1979.

Veja-se também a obra dos teóricos acima referidos, especialmente a Pequena Estética (S. Paulo, Perspectiva 1971) ou a Estética (2.ª ed., Buenos Aires, Nueva Visión, 1960) de Max Bense, assim como a Teoria Estética, de T. W. Adorno, em especial o que no cap. «Situação» se refere à experimentação (ed. francesa, Paris, 1974), e colecções de textos teóricos ou práticos relacionados com experimentalismo de outros países, tais como a Teoria da Poesia Concreta, de Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari, Rio, 1967.

Istruzioni per l'uso degli Ultimi Modelli di Poesia, de Lamberto Pignotti, Roma, 1968, e La Littérature Potentielle do grupo Oulipo, em particular o texto de François Le Lionnais intitulado «A Propos de la Littérature Expérimentale», Paris, 1973.

Para o enquadramento da poesia experimental na poesia portuguesa moderna vejam-se os prefácios ou notas de Jorge de Sena e de António Ramos Rosa nos volumes que organizaram das Líricas Portuguesas, de Melo e Castro na Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, e de Carlo Vittorio Cattaneo em La Nuova Poesia Portoghese, Roma, 1975, bem como o ensaio de Fernando Guimarães «Alguns Caminhos da Moderna Literatura Portuguesa» em Linguagem e Ideologia, Porto, 1972, e os volumes de Eduardo Prado Coelho, A Palavra sobre a Palavra, Porto, 1972, e de Gastão Cruz, A Poesia Portuguesa Hoje, Lisboa, 1973.


[Agradecemos a Arnaldo Saraiva a autorização que permitiu disponibilizar este texto no Arquivo Digital da PO.EX]