Referência > Saraiva, Arnaldo. 1966. “Situação actual da poesia brasileira”. Jornal de Letras e Artes, Ano V, no 230, 23 de Fevereiro, secção Carta do Brasil, p. 6.


O falecido ano de 1965 foi decerto um dos mais «espectaculares» de toda a história da poesia brasileira. Drummond apareceu editado em Portugal, Alemanha e Estados Unidos, pouco depois de ver editada a sua Obra Completa; Bandeira surgiu numa das mais famosas colecções de poesia de todo o mundo, Poètes d'Aujourd'hui; Cassiano Ricardo e João Cabral de Melo Neto, saíram em novas antologias, quando era decorrido pouco mais de um ano sobre a edição de outras antologias das suas obras, e Ledo Ivo e Walmir Ayala (poeta que fez há pouco 32 anos) editaram também «antologias poéticas» das suas obras; a Revista de Cultura Brasileña, publicada em Espanha, circulou nos primeiros dias do ano com um número especial dedicado à poesia brasileira de vanguarda; as revistas Convivium (brasileira), e Orfeo (argentina) dedicaram também números especiais à actual poesia brasileira; outras revistas, como a argentina Cormorán y Delfin ou a japonesa Graphic Design, ocuparam-se de alguns grupos de poetas brasileiros contemporâneos; na Inglaterra, na França, na Itália, etc., realizaram-se mostras ou exposições de poesia de vanguarda em que o Brasil esteve largamente representado; um novo número de Invenção e outro de Praxis – revistas de poesia de vanguarda – correram mundo; a um concurso de poesia organizado no Rio de Janeiro concorreram mais de mil livros inéditos; os irmãos Campos e Pignatari lançaram Teoria da Poesia Concreta, textos críticos, manifestos e cronologia do concretismo; foram publicadas uma Antologia da Nova Poesia Brasileira, uma antologia de A Novíssima Poesia Brasileira, elaboradas respectivamente por Fernando Ferreira de Leanda e por Walmir Ayala, uma Antologia dos Poetas Cearenses Contemporâneos, e foi reeditada a Apresentação da Poesia Brasileira de M. Bandeira.

A um primeiro relance, dir-se-ia que a poesia brasileira atravessou, no decorrer do ano findo, uma fase de euforia criadora, ou de euforia, simplesmente. Mas, a um olhar demorado, verificar-se-á precisamente o contrário: que a «espectacularidade» poética se ficou pura e simplesmente pela actividade editorial (sobretudo reeditorial) e propagandística. Com efeito, que grande livro novo nos deu em 1965 a poesia brasileira? Nenhum: nem de estreantes nem mesmo de consagrados. E se é certo que nem sempre os aparecimentos em volume são índice seguro da simultânea actividade poética de um país, a verdade é que no caso presente a pobreza poética das obras originais editadas em 1965 parece espelhar o mau momento que atravessa a poesia brasileira. Mau momento que denunciam, sobretudo, as duas antologias de Ferreira de Leanda e de Walmir Ayala.

É verdadeiramente confrangedora a velhice desta nova e novíssima poesias que essas duas obras nos oferecem. Velhice no pior dos sentidos: esterilidade, cansaço, esgotamento, saturação. Com as naturais excepções (João Cabral na de Ferreira de Leanda, os poetas «praxis» na de Walmir Ayala, e pouco mais) a linguagem dos poetas antologiados parece datada de algumas décadas atrás, especialmente pela discursividade ou pelo penteio parnasiano, ou parece comprometida com os titubeios, redundâncias, empolações e ardores característicos de adolescentes, ou de principiantes, ou de poetas incultos, não (in)formados.

Bem sei que é arriscado julgar a poesia novíssima pela antologia de Walmir Ayala, que nela não incluiu uma poetisa tão notável como Yone Giannetti Fonseca, ou que representou a maioria dos poetas por um ou dois poemas. Mas será que isso poderá afectar grandemente um juízo global?

A esterilidade, o cansaço, o esgotamento, a saturação pareciam inevitáveis, aliás, com a agonia lenta se não de um siglo de oro, pelo menos de uma época de ouro da poesia brasileira: aquela em que se revelaram e revelam Bandeira, Jorge de Lima, Drummond, Cassiano Ricardo, Mário e Oswald de Andrade, Cecília, Vinicius, Raul Bopp, Augusto Frederico Schmidt, Ribeiro Couto, etc. Uma plêiade como esta, constituída por tantos e tão grandes poetas, se só costuma aparecer uma vez em qualquer literatura, cria sempre graves problemas aos poetas que lhe sucedem, ainda que talentosos. Tudo parece estar dito, e dito da melhor maneira. A imitação é tão inexorável, quanto dolorosa a comparação; e o pastiche só parece disfarçável ou evitável com o desequilíbrio: ou o recuo desdenhoso, ou o avanço excessivo, como a do barroco espanhol e português em relação ao classicismo.

No caso brasileiro, já não é novidade para ninguém que o recuo foi feito pela «geração de 45», com a qual se assemelha, dolorosamente, a geração da «Távola Redonda» portuguesa, e que o avanço foi comandado pelo concretismo. Mas se o verdadeiro barroco tivera todas as condições para florescer na Península Ibérica, o concretismo, no Brasil, só as teve nos primeiros seis anos de existência: enquanto os tempos da guerra fria não deram lugar aos da guerra psicológica ou de guerrilha, enquanto as democracias ou semi-democracias não foram substituídas, na prática, pelas semi-ditaduras ou ditaduras militares, enquanto as ideias de paz e de liberdade social não começaram a relacionar-se, ou até a subordinar-se, às ideias de liberdade ideológica e de promoção económica das classes vitimadas pelo sistema capitalista.

Daí a necessidade de redundante «salto conteudístico-semântico-participante» de Pignatari. Daí a cisão que o grupo «Tendência» já representava e que mais se acentuou com «Praxis». E daí também a reação – verdadeira reacção – dos «poetas sociais» ou «políticos».

Mas, se o concretismo fora uma tentativa extremamente lúcida de fuga ao pastiche, ao academismo, ao passado, a «poesia social» ou «política» representou precisamente o contrário, porque os seus autores ou se entrincheiraram – o termo é bem deles – em zonas ainda mais pobres e fechadas do que as da geração de 45 (não as do lirismo literário tradicional, mas as da poesia popular, que naturalmente atraiçoariam homens com certa cultura e posição social), ou se limitaram a repetir, mal e porcamente, lições como as do Drummond (sobretudo de A Rosa do Povo), ou as de João Cabral de Melo Neto.

Tal como em Portugal, a coisa pegou nos anos 61-62, favorecida, também como em Portugal, pela imaturidade generosa de alguns universitários, que se convenceram de que as necessárias reformas sociais poderiam sair da disposição gráfica em versos (aparentes) de algumas páginas de certos tratados de economia política e de sociologia, ou simplesmente de algumas rimas singelas. Começou então não só a desprezar-se a frase de Gide («é com bons sentimentos que se faz má literatura») como também a valorizar-se a inversa (é com má literatura que se fazem bons sentimentos). Deste equívoco, que a autoridade geralmente aceite de Sartre viria agravar numa entrevista sobre fome e literatura, e de que já hoje nos damos perfeitamente conta, em face até do fracasso radical dos seus objectivos práticos, saíram inicialmente «João Boa-Morte Cabra Marcado para Morrer» e «Quem Matou Aparecida», de Ferreira Gullar, e «As Safadezas do Diabo com a Mulher do Coronel» de Reinaldo Jardim, e foram aparecendo os três «Violão da Rua», «O Pássaro Popular», poesias de Geir Campos, «Canto para as Transformações do Homem», de Moacyr Félix, etc. Em 1965 ainda se publicaram algumas amostras destas poesia obsoleta, vazia, e ridiculamente ingénua ou ingenuamente ridícula, como «Faz Escuro mas eu Canto», de Thiago de Melo, e «Joana em Flor», de Reinaldo Jardim.

Para se verem as concessões e contradições destes poetas, poder-se-ia tomar o exemplo do ainda assim mais talentoso de todos eles, Ferreira Gullar. Abjurando do concretismo, Gullar cairia num penoso exercício masoquista, que o levou até a incorrer em barbarismos desta natureza (só para rimar com «Chapadinha»): «Talvez tenha boa morte / Porque vida ele não tinha.» (Comparem-se estes dois versos com um outro de João Cabral, bem anterior a eles: «Morre gente que nem vivia»). É possível que ele tenha acordado, como cidadão: mas é certo que adormeceu como poeta. E eu pergunto se não será também um mau cidadão aquele que trai a sua vocação artística...

São concessões ou contradições assim que o segundo concretismo mas sobretudo «Praxis» se esforçam, eficazmente, por evitar: por um lado, pela atenção concedida à realidade, como o indica a própria designação da «instauração», que portanto foge ao romantismo evidente dos Thiagos, Félix, etc., continuamente interessados em manhãs de esperança, flores de qualquer coisa, canções nas noites, bandeiras, etc.; e por outro lado pela atenção concedida à linguagem que se «integra no contexto vivo» não como «coisa ao lado de coisas» mas como algo que incessantemente se desdobra, se descobre e descobre, evitando assim o desgaste ou a anulação próprias e características da baixa retórica.

Naturalmente, o grupo «Praxis», constituído pelo seu fundador, Mário Chamie, e por António Carlos Cabral, Armando Freitas Filho, Camargo Meyer, e Mauro Gama (Yone Giannetti, integrado no grupo, parece-me um caso à parte) tem sido atacado, satirizado, descreditado: como sempre sucedeu a um grupo de vanguarda. Por mim, creio que precisa superar na prática um pressuposto que combate em teoria e que a linguística moderna também já superou: o de que haja – como regra – qualquer solidariedade semântica entre as palavras fonicamente solidárias, ou que, como regra, haja qualquer solidariedade e onomatopeia da realidade nas palavras isoladas. É o contexto que deverá criar essa solidariedade e onomatopeia, ou sugeri-la, ou ampliá-la, embora para o efeito possa valer-se da mesma solidariedade fónica que é hoje, de resto, elemento básico da tensão outrora conseguida pelas rimas nos finais dos versos pela métrica.

Mas se hoje podemos ter dúvidas quanto ao valor ou à validade dos caminhos dos poetas «praxis» e concretistas, a verdade é que nenhumas dúvidas poderemos ter quanto ao valor ou validade da «poesia social», que sabemos nada ter a oferecer-nos, póstuma como é, já.

O drama da actual poesia brasileira, graças à sua vanguarda bem organizada e muitíssimo bem apetrechada criticamente, é ainda e apesar de tudo bastante ligeiro se o comparamos com o de outras poesias como a de Portugal, onde desde 1947 não há movimento sério e sadio («Poesia 61» desistiu, «Poesia Experimental» não resistiu). A verdade é que por todo o mundo ocidental se sente um certo cansaço, esgotamento, saturação, esterilidade poéticas. Todos começamos a estar fartos da poesia de vanguarda, como já o estamos da «poesia social», da alienação, da poesia pura, etc. Não há dúvida: os tempos são favoráveis à prosa, como o foram a época barroca e a «século das luzes». São favoráveis, sobretudo, ao ensaio (e é curioso verificar como os chefes da vanguarda poética são excelentes críticos), que assaltou o próprio romance. Tempos de experimentação, de observação, de análise – que são actos que sucedem à, e prescindem parcial ou totalmente da intuição, da imaginação: da poesia. Como disse Gaston Berger: «tudo começa pela poesia, e tudo acaba na técnica», ou (Péguy) «na política».

Com efeito, seria ridículo o poeta que hoje quisesse cantar a lua (pelo menos o que a quisesse cantar como até há pouco foi cantada); agora têm a palavra os cientistas, os políticos. Mas todos nós desejamos que a lua, ou o que seja, nos devolva um novo alfabeto.

Todos desejamos, afinal, voltar à poesia. Ou talvez não.


 

[Agradecemos a Arnaldo Saraiva a autorização que permitiu disponibilizar este texto no Arquivo Digital da PO.EX]