Referência: Saraiva, Arnaldo. 1967. “Linguística e Poesia: A Agonia da Palavra”. Diário de Notícias, 13 de Julho, Ano 103o, no 36406, Suplemento “Artes e Letras”, pp. 17-18.


Pode afirmar-se que de há um século para cá, precisamente a partir do momento em que enfraquece o sopro do primeiro romantismo, a partir de Verlaine, de Mallarmé e dos simbolistas, se começou a promover no seio da própria poesia uma moção de confiança na palavra. Essa moção, cuja necessidade, aliás, já se anunciava na poesia barroca, foi-se apoiando, sucessiva ou simultaneamente, no aproveitamento máximo da sonoridade da palavra, no seu isolamento gráfico, na sobrecarga imagística, no desprezo da rima, na liberdade do verso, na exploração de associações fonéticas e opositivas no interior do verso, na dispensa da pontuação, na acumulação semantémica, no recurso à linguagem coloquial e dialectal, na revitalização do lugar-comum, no aproveitamento estético do feio, no consumo sistemático do zeugma, da elipse, do hipérbato, na luta contra o discursivismo lógico e, até, na frequência com que, de há três décadas a esta parte, os poetas falaram da palavra palavra.

Mas é claro que para se sentir a necessidade de se levantar uma moção de confiança na palavra, algo nela provocou uma desconfiança. E, na verdade, a essa moção de confiança, sucessivamente intimidada, correspondeu uma moção de desconfiança sucessivamente fortalecida. Nalguns casos, mesmo, a própria confiança valeu como desconfiança. Por exemplo: o aproveitamento extremo da sonoridade, modo de compromisso com a música, ou o isolamento gráfico, modo de compromisso com as artes plásticas. E sintomático é que sejam os simbolistas, e particularmente Mallarmé, os primeiros a tentar levantar uma moção de confiança na palavra – porque são eles também os primeiros a tentarem levantar uma moção de desconfiança na palavra.

O Mallarmé que apregoara a necessidade de reprendre à la musique son bien é o mesmo que apregoa a necessidade de céder l'initiative aux mots e que projecta estas (palavras) no espaço como dados. Aliás, o próprio manifesto de Verlaine acusava uma antítese: por um lado, exigia de la musique avant tout chose e, por outro, exigia ainda o compromisso com o Précis.

Mas os dados (Un Coup de Dés) estavam realmente lançados. E de Mallarmé por diante o movimento de desconfiança na palavra iria ganhando proporções avassaladoras: o poema em prosa de Baudelaire, os caligramas de Appolinaire, o caótico futurista, o dadaísmo, o letrismo, o desprezo da língua padrão e o exótico – nefelibata (simbolismo) ou indígena (modernismo brasileiro) –, o recurso a diversas línguas (Pound, Eliot), o irracionalismo e automatismo surrealistas, as tmeses silábicas de Cummings, o concretismo.

Enquanto isto se passava no seio da poesia, que sucedia no seio da linguística? Ciência relativamente recente, a Linguística dos meados do séc. XIX, que se desdobrou em Linguística Comparativa (Bopp), em Filologia Românica (Diez), em Linguística Histórica (Grimm), viu-se também repartida entre o «espiritualismo romântico», voltado para o estudo filológico e espiritual dos textos literários (medievais), e o «positivismo linguístico», empenhado em colocar a língua ao nível das ciências exactas e em coleccionar dados e formas fonéticas. Estes dois movimentos serão levados ao extremo no dobrar dos séculos com a corrente dos neogramáticos concentrados exclusivamente na evolução fonética, que submetiam a leis só violadas pela analogia, a corrente semântica, ciência das significações, criada em 1897 por Bréal, e a corrente «idealista» (1904) de Vossler, baseada na concepção da língua como espelho da cultura e do homem.

A conciliação fecunda dos extremos, que em parte já fora tentada por Ascoli, fundador da dialectologia, e por Gilliéron, fundador da geografia linguística, consegui-la-á o responsável pela evolução e aceleração de todos os modernos estudos linguísticos, o suíço Saussure (1857-1913), com a sua teoria englobante de langue e de parole, de significante e de significado, de sincronia e de diacronia. Mas a partir dele restabelece-se o desequilíbrio, e desta vez sem apelo, pois a pequena reacção da neolinguística (Bartoli, 1925) quase nem se fará sentir. Esse sentido único ser-lhe-á traçado pela corrente das «coisas e palavras» (Meringer, 1931) – ou das «palavras e coisas», como queria Schuchardt – e, sobretudo, pelos estruturalismos (Trubetzkoy, 1928, e Bloomfield, 1933), que separaram definitivamente a fonética, ciência dos sons, da fonologia, ciência dos sons enquanto distintivos ou significativos. A glossemática (Hjelmslev, 1931, e Uldall, 1935) e a semiótica (Charles Sanders Peirce e Charles Morris) representam já a ruptura absoluta com a linguística tradicional, quer dizer, inserem o estudo do signo fonético no âmbito do estudo dos signos em geral.

Ora bem: que nos sugere a evolução (que aí deixamos esquematizada) da linguística ao longo dos últimos 100 anos?

Exactamente o que nos sugeriu a evolução da poesia. Com efeito, também no seio da linguística se sentiu a necessidade de levantar uma moção de confiança na palavra. As correntes linguísticas a partir dos meados do séc. XIX foram sucessivamente chamando a atenção para a ressonância psíquica da palavra, para a sua integridade física, para o determinismo da sua evolução fonética, para o seu peso significativo, para a sua carga emotiva, para os seus matizes afectivos, para a sua consistência estrutural, para a sua independência sincrónica, para as suas motivações e relações com outras palavras e com as coisas, para a sua solidariedade dentro do sistema, para o valor mínimo de cada um dos seus elementos.

Foi por isso que se desenvolveram vigorosamente os estudos estilísticos (Vossler, Sptizer, Bally, Dámaso e Amado Alonso), que tanto vieram ajudar a interpretação e valorização de grandes poetas modernos, através, sobretudo, das obras dos novos críticos, que eram, naturalmente, os mais preocupados e familiarizados com os problemas da linguagem. Foi por isso que se acelerou o estudo da fonologia e se chegou a distinguir a semasiologia, ciência que parte do significante para o significado, da onomasiologia, ciência que parte do significado para o significante. foi por isso que foram surgindo na linguística e na crítica literária noções (tantas delas ignoradas ainda pela maioria dos nossos críticos literários oficiais) como as de semantema, morfema, lexema, monema, semema, sintagma, signo fraccionado, atracção e colisão sinonímicas, oposições distintivas, campo semântico, etc. Foi por isso, finalmente, que se operou uma revolução nos estudos etimológicos, que, inicialmente ocupados em encontrar apenas as origens das palavras (Diez, Meyer-Lubke, etc.), passaram a pouco e pouco, a ocupar-se de toda a biografia das palavras. As palavras começaram, deste modo, a ser consideradas como seres vivos, sujeitos, como estes, às leis da vida e da morte. Mattoré chegou a estudar 33 gerações (desde o Renascimento até aos fins do séc. XIX) graças exclusivamente à interpretação das palavras do seu uso ou frequência. E Schone pôde falar com precisão da «Vida e Morte das Palavras».

Vida – e morte. Confiança – e desconfiança. Tal como sucedeu no seio da poesia, a moção de confiança na palavra levantada no seio da linguística foi também acompanhada de uma moção de desconfiança. Tal como a poesia, também a linguística veio denunciar o desequilíbrio do sistema. Em vão Saussure quis opor-se a este desequilíbrio: e o que parece haver hoje de desactualizado nas suas teorias talvez resulte em suma dos restos de positivismo que elas guardavam. E sintomático é que o ponto fraco dessas teorias se relacione com o conceito de parole. Dámaso Alonso mostrou já claramente como Saussure se enganava fazendo corresponder um só significado e não cargas psíquicas complexas, a cada significante. Mas, que eu saiba, ninguém se tem ocupado do grave equívoco da distinção entre langue e parole. Porque a parole não existe a não ser como média e abstracção. O que existe são paroles, e tantas quantos os falantes. Por isso é também errado dizer, como fez Saussure, que a língua é a soma das falas porque é, quando muito, a soma das médias das falas ou dos idiolectos.

Foi exactamente em razão das paroles que a linguística se viu obrigada a levantar um processo de desconfiança na palavra a chamar a atenção para o enfraquecimento sucessivo da palavra – para a variabilidade incontrolável do seu valor semântico e das suas transformações fonéticas, para a sua arbitrariedade e gratuitidade, para a sua distância em relação às coisas, para a sua imperfeição informativa, para a sua irrelevância, para a sua artificialidade sonora, para a sua organização deficiente, para a sua impossibilidade em acompanhar e traduzir a velocidade, riqueza e complexidade das «faculdades da alma», a vontade, a inteligência, o sentimento, ou de responder convenientemente às funções do apelo, da representação e da expressão.


Nota do Autor > A série de artigos que vão ler-se (ou não) constitui um ensaio que se destinava ao n.º 2 de Poesia Experimental, ensaio escrito em Dezembro de 1964 e Janeiro de 1965. Como é de presumir, o autor já se sente algo desligado de certos entusiasmos expressos nesse ensaio, embora continue fiel ao seu fundo. Por isso é que resolveu publicá-lo, e publicá-lo sem refundições (salvo dois ou três casos de pormenor).


[Agradecemos a Arnaldo Saraiva a autorização que permitiu disponibilizar este texto no Arquivo Digital da PO.EX]