A amizade faz-se de cumplicidades. E a minha amizade e admiração para com a pessoa e a obra do artista António Barros fez-se na cumplicidade de algum entendimento. Sim porque a cumplicidade supõe algum entendimento. Mesmo se reduzida a poucas palavras e a prolongados silêncios. Mas entendimento em relação a quê? Possivelmente a nada. A esse nada de que é feita a prática artística quando se questiona a si mesma. Um nada que nos fica nos intrigantes registos da sua fugaz materialização, a que chamamos obra de arte. Mas como poderei eu esclarecer a minha profunda admiração por esses registos de multifacetadas leituras que constituem a obra de António Barros se pouco entendo sobre arte, ou não entendo mesmo nada? Mesmo quando suponho que estou entendendo. Sim porque também não entendo a vida apesar de a estar vivendo. E suponho que também não a vou entender depois de morrer, pois só vivo morrendo.

Mas se a estou entendendo no meu modesto desentendimento, não sei explicar a mutação hipnótica com que a sua obra extremamente contida e formalmente organizada até ao mais despercebido e lúcido pormenor, se torna para mim visualmente transgressora até da sua própria ordem. Como que subtraindo na sua manifestação estética e na sua rigorosa auto-suficiência visual, a subversão das suas próprias referências poéticas. Mas sobretudo desconcertante nos seus propósitos encriptados porque António Barros questiona não só a nossa relação social com o objecto artístico, mas a própria experiência estética, o que coloca a sua obra num permanente des-posicionamento e des-valorização perante o discurso e práticas artísticas dominantes.
António Dantas [Funchal, 09 de março de 2012, para Vulto Limite]


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