A sala foi escurecida. O som que se ouve é o da água que parece desdobrar-se sobre o cascalho. É o mar. Desce-se as escadas que levam à antiga casa das máquinas da primeira estação elevatória electrificada de Coimbra. A instalação de António Barros ocupa longitudinalmente a sala. A estrutura parece dividir-se em quatro áreas ou elementos, em diferentes superfícies para a memória. Água de um lado, do outro, a terra ao mesmo tempo fogo. Ao centro, ascende obliquamente uma moldura que estrutura e serve de suporte a uma sequência de seis imagens que paradoxalmente fixam um elemento em parte atmosférico. É dos gestos da água contra a superfície negra da areia vulcânica, e desse enamoramento que emerge a espuma branca (ar e água), a antítese necessária. O diálogo entre esta estrutura ascendente e a que serve de depósito à água - metáfora do mar, da potencialidade - sugere o encontro entre duas valvas geometrizadas de uma concha. No seu regaço - abrigo, lugar de repouso, casa, esconderijo - as memórias de uma praia ... de que ficou o reflexo, a areia enegrecida, a valsa orquestrada das marés, um movimento que se imagina ritmado e que o ambiente sonoro confirma. Tudo é depurado, reduzido ao puramente essencial e apenas pequenas vírgulas fornecem possíveis elementos para divagações interpretativas. A insularidade, a pedra-ilha largada estrategicamente no espelho de água, a areia, a madeira dos troncos na parte mais recôndita da estrutura, mas em estreito diálogo com o fragmento do poema que serviu de mote ao projecto. Em síntese, um espaço para o pensamento. O lugar de onde é possível olhar o mar, o reino subterrâneo de José Tolentino Mendonça ou o lugar potencial para António Barros.

A ideia de objecto-livro é fundamental nesta instalação porque sublinha o diálogo progenitor. A relação estreita entre artista escultor e poeta, entre ambos os objectos e a natureza na sua intimidade palpável, que se quer como em Novalis uma só, pode também conduzir a uma visão nostálgica de um tempo originário - criativo e ontológico.


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