Seiça, Álvaro. "A criação mutante: 64-bits de André Sier" [Exhibition text] | Lisboa: Who Gallery, 2011. Publicado originalmente em http://who.pt/galeria/txts/64bits_txt.swf


A obra de André Sier tem-se caracterizado pela exploração de um princípio de transferência e mutação entre suportes analógicos, mecânicos e digitais. Sier constrói máquinas que se completam na correlação entre sistema mecânico, electrónico e digital ou na correlação entre utilizador, sistema digital e mecânico, pela extensão interactiva causada pelo input humano. As máquinas lêem e registam características naturais do local, assim como captam o movimento dos seus utilizadores, o espaço-entre.

As instalações 32-bit Wind Machine e 32-bit Difference Machine integram a série uunniivveerrssee.net, uma nova cosmogonia abstracta que propõe aos utilizadores uma recriação do universo desde um big bang virtual. As duas instalações apresentadas na galeria who andaram na peugada do conceito deleuziano de “diferenciação”.

Em 32-bit Wind Machine, Sier usa dados site-specific da velocidade e direcção do vento em Lisboa. Os dados são recolhidos e publicados on-line em www.pachube.com/feeds/19842. Sendo o único sensor de vento em Portugal registado neste domínio, comporta uma diferença em relação aos restantes utilizadores deste arquivo em tempo-real: os dados são reutilizados e transformados em imagens com uma preocupação estética. A nova visualização, activada pelo código programado para diferenciar as frames, provoca uma criação mutante. Através de um processo de diferenciação contínuo, o observador acompanha uma linha temporal macroscópica dos dados registados pelo sensor no telhado da galeria, assim como a construção progressiva de um buraco negro, onde se desenrola um jogo entre máquina e natureza, no qual os pontos cardeais são substituídos pelas quatro operações matemáticas elementares entre quatro números: a multiplicação, a adição, a divisão e a subtracção. Estas operações aritméticas remetem-nos para a linguagem máquina do código java e despoletam um novo valor simbólico e visual – o resultado.

Em 32-bit Difference Machine, a diferenciação visual causada pelo movimento dos utilizadores dentro da galeria e junto da sua entrada activa uma câmara que, por sua vez, activa um computador que activa um motor, jorrando tinta preta sobre a tela. Deste modo, a exposição ficará continuamente documentada, através da interacção dos utilizadores com a peça, em sete telas de 2,33 x 1,5 m, com desenhos irrepetíveis, que reforçam duas características fulcrais das instalações: a mutação (processo) e o resultado.

Ao nomear a exposição 64-bits, André Sier coloca-nos numa sintonia irónica com o nosso presente tecnológico – a precisão de 64-bits da indústria informática –, como se uma adição entre duas instalações pudesse ter como resultado esse valor. Ao mesmo tempo, testando e questionando o limite de uma tecnologia – dado que 32-bit wind machine opera um reset sempre que o resultado das operações atinge um limite fraccionário –, coloca-nos numa atonia com o passado: nos últimos dois milénios, a nossa precisão tecnológica terá evoluído tanto quanto queremos crer?


[Agradecemos a BYPASS (Álvaro Seiça Neves e Gaëlle Silva Marques) a autorização para disponibilizar este artigo no Arquivo Digital da PO.EX]