1965 - 2015

50 anos de Poesia experimental em Portugal

Poesia experimental - Suplemento do «Jornal do Fundão»

V(l)er tb > «Visopoemas»; «Concerto e Audição Pictórica»


Poesia experimental - Suplemento do «Jornal do Fundão», 24 Janeiro 1965, org. António Aragão e E. M. de Melo e Castro


Suplemento [aberto, frente e verso] >


Conteúdos


E. M. de Melo e Castro

«Tontura» [ideograma]


«Sete megatoneladas»

Transcrição >

sete megatoneladas

o discurso

ante VISION al
post EFECTU al
in TELECTU al
a CTU al
ex PERIMENT al
per PECTU al

uma rosa

ante EFECTU al
ante TELECTU al
ante CTU al
ante PERIMENT al
ante PECTU al

um dente

post VISION al
post TELECTU al
post CTU al
post PERIMENT al
post PECTU al

a súbita surpresa

in VISION al
in EFECTU al
in CTU al
in PERIMENT al
in PECTU al

a carga cega rega

a VISION al
a EFECTU al
a TELECTU al
a PERIMENT al
a PECTU al

uma gota de sangue

ex VISION al
ex EFECTU al
ex TELECTU al
ex CTU al
ex PECTU al

a última esperança

per VISION al
per EFECTU al
per TELECTU al
per CTU al
per PERIMENT al


António Ramos Rosa

«Crise - experimentação - liberdade»

Transcrição >

Creio que toda a poesia moderna, como, aliás, toda a arte e toda a literatura autenticamente modernas, nascem da experimentação. Há uma crise, sem dúvida, mas esta tem sentido positivo – e não de decadência. Crise, que, como diz Harold Rosenberg, põe em causa os próprios instrumentos da avaliação da crise. Esta crise é a da própria liberdade – melhor, é a própria liberdade. O artista moderno já não aceita nenhuma determinação, já não é o eco, o porta-voz, o reflexo de nenhuma ideologia, religião ou partido – é ele próprio, um homem nu, essencial, um nada e um tudo, um tudo-nada, procurando-se, refazendo-se, desfazendo-se refazendo-se, sempre segundo este espírito experimental: o espírito da liberdade, o espírito da procura. Em vão se procurará subestimar esta liberdade: ela é o próprio espírito da nossa época, o único estatuto do poeta. Não se trata de um mito – ou será, antes, o único mito válido e fecundo do nosso tempo –, porque é por ela que o poeta se assume ante o descalabro de todos os mitos desumanizantes. Esta liberdade não lhe pertence em exclusivo, é pertença de todos os homens humanizados, embora a maioria destes não possua ainda os meios de a reconhecer, reconhecendo-se nela. À simplificante imagem salvadora que lhe apresentam as ideologias políticas, o poeta autêntico do nosso tempo contrapõe a sua liberdade criadora: não serve o homem, nem dele se serve, antes o revela, assumindo-o inteiro, ao nível mais complexo, mais «contraditório» e assim o edifica na liberdade.


«Canto primaveril»

Transcrição >

Canto primaveril

Canto patinem
per sete ovale
se quo si novo
tel i vis ale

Canto qual tinen
ruisuno solino
ad tela suno
ad sola risa

Api in fluxo
cun saxi fi len
exo te alio
alti vi lúmino

Ex alis alens
a braces te nudis
parsi riparsi
tel ali pubis


«o filho a crescer»

Transcrição >

o filho a crescer

marTeLo ou Tempo esTALa
soBe
soBe no Berço soBe emBALa
cAuLe à janeLa Rompe ao soL

marTeLo BATe inocenTe
BATe como um Barco como um TímPano
nas TêmPoras BATe Primavera
BATe marTeLa um corPo nas fonTes

BATe aBATe deBATe reBATe
rede no venTo roda no venTo
Ata desATa reATa reArde
marTela emBALa BATe e aBATe

reALBa reALBa


Álvaro Neto

«[dolor DOLLAR]»

Transcrição >

dolor
DOLLAR
doloris
dolorem


dolorem
DOLLAR
dolorem

dolore
DOLLAR
dolor
door dor
DOLLAR

DOLLAR
dor


Maria Alberta Meneres

«[Eu moro aqui]»


Luís Veiga Leitão

«figuras de uma poema por eliminação de partes»

Transcrição >

figuras de um poema por eliminação de partes

uma árvore uma actriz dois poetas e uma criança
uma árvore uma actriz um poeta e uma criança
uma árvore um poeta e uma criança
uma árvore e uma criança
uma ÁRVORE


António Barahona da Fonseca

«[Colho as letras as sílabas]»

Transcrição >

[Colho as letras as sílabas]

Colho as letras as sílabas
as palavras vivas
e meto-as na máquina lenta
de dizer

as rodas gastam-se no osso do poema
na pedra informe nas sílabas mudas
tremem de pavor as letras frias
nos versos recentes saídos da prensa
nos versos fluidos letras apenas


José Alberto Marques

«enclíticopoema»

Transcrição >

enclíticopoema

me te as
lhe de se
fe ufe se
aga ch o a os as

, ; « =
. : … ?
e lhe se ?
,, o l =

(« »)
(-me -se)
-se -ia -lhe -ei

- – ?) :
/ » / . :
e i ih ei


Herberto Helder

«comunicação académica»

Transcrição >

comunicação académica

«A minha posição é esta: todas as coisas que parecem possuir uma identidade individual são apenas ilhas, projecções de um continente submarino, e não possuem contornos reais». Charles Fort

Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos vermelhos no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo: pimentos dormindo num gato vermelho: verdes redondos no sono do pimenteiro :o amarelo: cabeça de gato de onde nascem pimentos verdíssimos de sono: sono vermelho: sombras amarelas no gato redondo de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo: a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos: água: secura sombria do gato vermelho: o sonho da água dorme no pimenteiro: a sombra da cal das secas paredes dorme no gato de água amarela: a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato: o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho: a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro: a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo: pimenteiro redondo: pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo: o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho: o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo: o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdíssimo enrolado no sonho: e dorme o pimenteiro com as sombras dos gatos redondos enrolando-se nas folhas: silêncio de sonho sono de tempo: tudo amarelo: noite do pimenteiro sono da cal folhas do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite: noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempo debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme: a noite dos tempos: um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro: pimenteiro desaparecendo: a cal morrendo no sonho das folhas pequenas: o silêncio de tudo no mundo inteiro:
etceteramente vosso inteiro:

herberto helder:
em janeiro:
mil novecentos e sessenta e três


Salette Tavares

«Maquinin»

Transcrição >

Maquinin

Eu visto o que vesti ao manequim
sou poeta que mente o que se sente
e de só fico contente quando visto
aquilo que se ri atrás de mim.
Manequim do meu amor como te vejo
todo de cera e sedas emprestadas
em meu desejo sou eu que de manejo
em não, em flor
em tempestade e nadas.

Euvis tuque  versti auma  nequim
osou poé  taque men  tuque  sessen
ti de só  fico  con ten  tequan
duvis  tuaqui  luque  serri atraz de mim.
Ma  nequim  dumê  uamô
rcomo  tevê  ju
tô  dude  cê  rai  sê  dazen prestá
dazem  meude  zê  jussoueu quete manê
juem  nã uem  flô
remten  pestá  di  nádas


António Aragão

«Telegramando»


«Intervenção e movimento»

Transcrição [excerto] >

1

O excessivo culto do indivíduo afastara a possibilidade duma intensiva participação dos outros no objecto artístico mesmo até desse modo recuado como já fora praticado em velhos ateliers, escolas e comunidades primitivas.

O endeusamento extremista da individualidade ofereceu, sem dúvida, um flanco bom de comportamentos e válidas oportunidades, mas, por outro lado, cavou mais largo e fundo o fosso entre o artista e o público, distanciando o fruidor do plano de participação que é afinal o único plano em que o sentir toma posse física ou material, ou seja, a posse total do objecto artístico.

Mas o prestígio do individualismo atingiu o seu termo: o seu estado é agónico. Tendo perdido a base ontológica sobre que assentava, poroso e esgotado, atingiu o seu máximo grau de fusão, dentro já dos limites do colectivismo.

Assim, no interior desses limites colectivos, o indivíduo que cria qualquer coisa, cria não apenas para os outros mas com os outros.

De facto, no seio das comunidades modernas de grande consumo e forte informação, acontece como não podia deixar de ser, uma maior interpenetrabilidade dos campos campos de criação e participação (arte colectiva), quer dizer, surge uma aproximação mais densa entre o fabricante ou criador e o necessário consumidor.

Todos se interpelam, convocam e actual em comum.

Hoje o fruidor, o comum dos homens, o denominado público, em frente de certos objectos artísticos, deixa de lado a cómoda ou incómoda posição estática de simples receptor de sensações e passa a actuar como interveniente, como elemento activo, participante, como provocador das suas próprias emoções.

Ele já não necessita apenas. Necessita-se. Já não está em frente munido somente da sua antena receptiva, mas, pelo contrário, prolonga-se, estende-se, projecta também os seus dados, joga o seu prazer.

Por seu lado, o artista deixou de ser o isolado, o solitário, o bruxo exilado na clássica torre de marfim e mistério, para descobrir o seu jogo, oferecer os seus segredos, exibir os seus truques, pedindo em troca que os outros desvendem os seus e se descubram.

A reciprocidade tornou-se lei assente e idioma social no respectivo entendimento. A penetrabilidade dos dois campos um no outro, o do artista e do fruidor, destruiu as posições extremas em que até aí se separavam: fundiram-se, interligaram-se irremediavelmente mediante o objecto criado. À posse apenas «espiritual» sucedeu-se a posse física. Em lugar da dourada contemplação surgiu a interessada intervenção contemplativa: inter-acção: acto-mútuo de concordância criativa.

Ler transcrição completa de «Intervenção e movimento», de António Aragão


E. M. de Melo e Castro

«[A arte experimental...]»

Transcrição >

A Arte Experimental é genericamente uma tendência para a reestruturação sistemática dos métodos e razões da criação artística integrada no tempo tecnológico e no espaço vivencial em que nos encontramos. É assim que se pode dizer que toda a arte nasceu e nasce sempre experimental, só deixando de o ser quando cessam as suas motivações existenciais. Então passa a haver documentos para a história de arte, abrindo-se o campo à valoração electiva de determinados períodos, correntes, autores como percursores ou mestres de actuais tendências e experiências criadoras.

Pode dizer-se que a forma sob a qual se entende hoje a Arte Experimental pode ter começado com a tendência, desde há muito verificada em diversos autores, para a abolição de géneros literários convencionais, dando-se à poesia o significado de criação e sendo ela o denominador comum de todas as formas artísticas quer plásticas quer verbais, etc. Uma tendência geral para a síntese deve ser, pois, apontada como o primeiro passo para o entendimento da estrutura das artes, actualmente. Mas esta síntese deve fazer-se rigorosa e seguramente. De outro modo parece-nos inalcançável. Para isso é necessário um momento de análise, de estudo da estrutura da obra de arte e dos métodos da criação. Tudo isto na busca dos elementos fundamentais para a síntese estrutural. É assim que a Arte Experimental de hoje se desenvolver num aprofundamento sistemático de todas as manifestações do espírito humano, quer subjectivas quer objectivas, servindo-se de todos os recursos e vias tecnológicas de que vamos dispondo e que vamos dominando cada vez mais eficientemente e mais amplamente no nosso dia-a-dia. O artista de hoje, além de si próprio, como criador de arte, dispõe de recursos que lhe são tão próprios e específicos como os naturais, e que são as suas próprias criações de carácter tecnológico, científico ou utilitário, isto é, as máquinas e as teorias científicas.

No estado actual da experimentação de tipo analítico, podemos considerar os seguintes tipos de Poesia Experimental, cada um deles ligado a funções biológicas e intelectuais específicas e também a uma determinação da forma de percepção:

  1. Poesia visual – Caligramas de Apollinaire, Experiências gráficas do Futurismo, Poesia concreta
  2. Poesia Auditiva – Experiências com a voz humana tratada ou não pela magnetofone. Poesia fonética, rítmica ou melódica com palavras, sílabas ou sons puros independentemente do seu significado convencional. Algumas experiências dadaístas e letristas. Composição directa na banda sonora.
  3. Poesia táctil – O Poema é um objecto. Objectos encontrados. Todos os métodos de construção que dão ao poema um corpo material.
  4. Poesia respiratória – Experiência de Pierre Garnier com o sopro humano.
  5. Poesia linguística – E. E. Cummings. James Joyce. Ezra Pound e muitos outros. Criação de palavras e línguas novas muitas vezes de carácter não directamente semântico. Poesia poliglota.
  6. Poesia conceptual e matemática – Cibernética. Métodos combinatórios. Estrutura numérica da obra de arte. Poemas electrónicos.
  7. Poesia Sinestésica – Desenvolvimento das sinestesias (Rimbaud). Produtos híbridos dos tipos de poesia já referidos.
  8. Poesia Espacial – Mallarmé «Un coup de dés». Poema concreto.
  9. ............. – Muitos outros tipos de poesia se podem prever ligados aos sentidos e a outras actividades humanas diferenciadas.
  10. De um modo geral, o sentimento espacial manifesta-se como denominador comum de todas as formas actuais de arte.

A poesia concreta não é mais que um momento deste vasto processo analítico. Mas o poema visual é também um factor de síntese, pois ele resulta de um equilíbrio plástico-imagístico de uma qualidade diferente da do poema convencional, encontrando as suas raízes nas escritas ideogramáticas orientais, e estando simultaneamente ligado ao visualismo sintético que caracteriza o mundo de hoje. Ver que caracteriza o mundo de hoje. Ver, e possuir! Por outro lado, o espacialismo, isto é, a proposição de um espaço habitado de palavras sobrecarregadas de tensão imagética, é como se sabe, típico do poema concreto.

Neste Suplemento incluem-se poemas concretos, linguísticos, combinatórios, plásticos e fonéticos.


Reproduções da Exposição Visopoemas, juntamente com uma Nota sobre exposição


Valores concorrentes para a formação da poesia experimental [Diagrama "a palavra... poesia experimental"]


Ficha de O Experimental Português e suas relações internacionais [Cronologia]


José Blanc de Portugal

«Notas sobre a moderna poesia experimental portuguesa [Fragmentos]»

Transcrição [excerto] >

Se me permitem um leve «humorismo» de expressão, começarei por vos dizer que a Poesia foi, é e continuar a ser o nosso mais sólido valor na economia literária. Como me atrevo eu a repetir uma tão evidente banalidade? Talvez porque, de tanto ter sido repetida, muita gente nem sequer dá por ela, e muitos têm a tendência de todos os tempos para considerar que novas formas poéticas, novas ou remoçadas tentativas de novas tentativas de expressão poética, coroadas ou não de êxito literário, correspondem antes a sintomas de decadência literária. O repisar de palavras que deliberadamente usei, pleonástico quanto a estilo, não o será quanto ao que quis dizer com suficiente precisão... É que, a mor das vezes, as novidades são repetições, ampliações, variações – ou o que lhes queiram chamar – de novidades de outros tempos – cá estou eu de novo a repetir pleonasticamente as palavras...

Ler transcrição completa de «Notas sobre a moderna poesia experimental portuguesa [Fragmentos]», de José Blanc de Portugal