Descrição > Texto transcrito a partir de manuscrito autógrafo cedido pela família de Salette Tavares, lido pela autora no Concerto e audição pictórica, happening realizado na sala de exposições da Galeria Divulgação, 7 Janeiro 1965, no contexto da exposição Visopoemas. Poesia, música e performance. Participaram: Jorge Peixinho, António Aragão, Salette Tavares, E. M. de Melo e Castro, Clotilde Rosa, Mário Falcão e Manuel Baptista.


ÁRIA À CRITICA — SALETTE TAVARES

Transcrição [a partir de manuscrito autógrafo] >

ó Ó Oh!
cricricri
cri     cricri     cricri
óó cri
óó   óó   cri   ticri   cricri
criticri    ticri    criti
criticri   criticri   ticriti
Oh!
criti... criti... criti... criti... criti...
criti... criti... criti... óóóóóó criti...
criti... Criti criti criti (intervenção sonora)
CRITI         CUS
(Lírica)
Da nó     da nó     da nossa terra
Oh! das cátedras nos jornais
ou noutros muitos sítios onde instalados
com grande espaço para o dito traseiro
surrealisticamente amputados
                                  am     putados
                                  am     putados
(intervenção sonora) da parte superior do
corpo por uma secção paralela ao nível
do assento
para     lela
para     lela
pa   ra   lela ao nível do assento e
que passa com a inclinação vulgar que
têm as cómodas instalações em relação à horizontal,
por cima das sobrancelhas mutilando o ouvido interno
até à base que as vértebras cervicais estabelecem
nesse cimo mais cimo mas deixando-vos
as orelhas     (o pavilhão)
                         o pa  vi  lhão     completamente à solta bem como o recheio das órbitas intocadas
Ó    cricri    ti    cus
nós servimo-vos há muitos anos
a simplíssima consciência de um ofício agora
que o peso dos anos antes que [viveis]
transformou em enormes ratoeiras
nascidas de pequeníssimas rasteiras.
Os nossos espelhos são logicamente cegos
sem metáfora
devolvem a imagem
os sonetos patetas são patéticos como o João pateta da história
os adjectivos são substantivos ou vice versa e reversa
porque construímos a gramática
as virgulas inúteis já não separam substâncias que sempre se usaram separadas
pomos intervalos nas linhas, pausas sem sinai[s]
impostas na estrutura caminho
que o trânsito dos olhos exigiu
na variedade crescente da hora e dos sentidos novos
Invenção de espaço
ritmos e antiritmos
as palavras inteiras
as palavras cortadas em bocados inteiros
as palavras cortadas que não suportam os vossos
erros de ortografia quando suprimis o espaço
que assim as partiu e recriou
ó irresponsáveis e ignorantes,
que a toda a hora usais a linguagem culinária
das formas e conteúdos
(para não dizermos tudo).
Nós servimo-vos pasteis de massa tenra
com recheio e
pela vossa preguiça não désteis pelo recheio tão intensamente exigido.
O nosso recheio pede só as faculdades normais
dos sentidos todos a trabalharem e
sobretudo      um sobretudo bem talhado
à moda, que muda em cada hora no sentido crescente do espírito que se actualiza e
acrescenta na medida em que sabe consumir.
Mas vós preferis pasteis de massa tenra
comidos com garfo e faca, talhados com
a antiquíssima fôrma do hábito
e heis-vos
    cri    cri    cri    ti    cus
(silabado rápido)
cricriti    cus (intervenção exterior: da Ca[fetaria]
cricriti    cus da nó ssaté rra
guardai as vossas cátedras nos jornais
ou nos outros muitos sítios onde instalados
com grande espaço para o dito traseiro
podeis continuar surrealisticamente amputados
da parte superior do corpo pela secção paralela
ao nível do assen[to]
e que passa com a inclinação vulgar das cómomodas instalações em relação à horizontal
por cima das sobrancelhas mutilando o
ouvido interno até à base que as vértebras cervicais estabelecem nesse cimo
deixando-vos as orelhas, o pavilhão,
completamente à solta
bem como o recheio das órbitas intocadas
óó     óó-óó     cricri     cricri     ti     cus.


Concerto e Audição Pictórica [programa] >


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