Anabela Garcia, 1997, leituras de textos de Abílio-José Santos.

a mente / sabe / se mente / se mente / a semente / é má (...)

tem o amor o aroma da amora

tento atento invento sustento


ano / bano / abano


Misteriosamente / Todos os homens foram avisados.


bendito / seja eu / mal dito

qualquer dia haverá a autópsia à CIA?


o que desenho escrevo / gravo corto e colo / pode amanhã não valer nada / mas as embalagens / também não


quem sente em si / A dor de toda a gente / Sofre por isso mais que qualquer um.


de dele delega delegado


se a poesia ainda não é feita por todos, o lixo já (...)


(...) É nossa obrigação / Humanizar os Deuses! / Divinizar Homens


Sou como sou / E quero ser assim.


não tema se teme o tema


faço-me / como posso / pouco / a pouco / um veto / insurrecto / e louco


o vivido e o contado / são o mesmo acontecido?

são três cordas de viola / mais importantes que um i?

porque soluçam as tábuas / no castanheiro abatido?

ouvindo só hera ora / qual é o juíz que sabe / que não ouviu era hora?


porque enlouquecem as velas / dos veleiros naufragados?

quem manda pôr espantalhos / nas searas do saber?

pondo cabeção num lobo / já não perigam as ovelhas?

será avião voando / ou um traço de giz branco / a crescer num muro azul?


porque galopam no vento / sete luas desvairadas?

a porta parece rir / quando as janelas são cegas?

porque se despe e perfuma / a noite quando diz versos?

ao baile das tecedeiras / porque foi o arco-íris / disfarçado de pedinte?


quem aparelhou a nuvem / com trezentos guarda-pisas?

que pode fazer a rosa / dos ventos pelas crianças?

a quem deixa a morte o frio / quando fizer testamento?

vestido de rei reinante / pode qualquer manequim / passar por gato pingado?


exceptuando os famintos / quem é que sabe o que é fome?

quais são os livros que valem / as árvores abatidas?

porque se ri a nogueira / do luto saber a cal?

quem engastava de estrelas / os ângulos esquecidos / duma sombra antiquíssima?


porque é que sonha com rios / a sargeta nova rica?

um tornado poderá / arrancar o til ao chão?

porque há sempre uma seta / a indicar infinito?