Ana Hatherly faleceu no dia 5 de Agosto de 2015.


Retrato de Ana Hatherly e os poetas experimentais portugueses ao fundo, ou de Portugal um País que nunca ex(ins)istiu, por António Barros


A mão inteligente, por Manuel Portela

"Sim, também eu tenho apenas uma coisa a dizer, uma coisa simples e pequena, um quase nada." (Ana Hatherly, Sigma, 1965) De toda a obra de Ana Hatherly – poesia, ficção, ensaio, tradução, performance, cinema e artes plásticas – se poderia dizer que manifesta o movimento inteligente da mão. O desejo profundo do artista é entregar-se à inteligência da mão, a esse sistema cognitivo expandido, apenas parcialmente consciente, que o seu corpo explora na relação com a matéria.

Com a matéria da experiência do mundo e com a matéria dos signos com que tenta dizer a experiência do mundo. Na mútua imbricação da mão e da escrita, a matéria do mundo e a matéria dos signos podem encontrar-se. Através das inscrições da mão, da mecânica fina dos seus movimentos musculares, o sujeito torna-se capaz de enfrentar a linguagem. De inventar-se através do gesto impensado da mão. No traço quase originário – quase fonte da linguagem e quase fonte da poesia – emerge o desenho da escrita.

É nessa forja, onde a forma surge a partir do traço da mão, que a sua obra poética e pictórica se situa. Uma e outra parecem nunca abandonar o momento inicial da criação em que o branco e o negro se constituem mutuamente. Ao inscrever-se gestual e gestalticamente na superfície do papel, a mão interroga o enigma da escrita. Da escrita que, escrevendo-se, me escreve. A inteligência autocaligráfica da mão dá-nos testemunho da transição entre legível e ilegível, entre visível e invisível. Vemos a palavra tomar forma. Ouvimo-la. Vemo-nos a ler. “O que é a escrita?”, “O que é a palavra?”, “O que é a leitura?”, perguntam as inscrições iterativamente. A mão sabe sempre mais do que eu. E no excesso significante e silencioso do traço, emerge também o sujeito escondido na escrita. Escondido na pura potencialidade do traço como desejo de ser e de inventar ser.

Ana. Nome. No corpo de papel. Ana. Vir a ser Ana. Ser Ana. Ter sido Ana. Ser Ana depois de ser Ana. Ser Ana depois de ter sido Ana. Ana depois de Ana. Voltar a ser Ana. Ana outra vez. Ana ser. Ana só. Ser Ana. Ser só Ana. Ser Ana Ana. Querer ser Ana. Ana serena. Ana só Ana. Querer ter sido Ana. Não chegar a ser Ana. Não ser Ana. Ser quase Ana. Quase segura. Quase descalça. Ser sombra de Ana. Reflexo de Ana. Anagrama de Ana. Eco de Ana. Ser o ser Anagramático de Ana. Ser Ana na gramática de Ana. Na tisana de Ana. Na fonte de Ana. Ana fonte. Ana grama. Ana pó. Ana.

"Todas as palavras/ quando escritas/ são palavras de papel" (Ana Hatherly, Pavão Negro, 2003)

[Texto gentilmente cedido pelo autor, publicado também no Caderno Cultura-Ípsilon do Jornal Público de 5 de Agosto de 2015]


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