Universidade de Granada, Espanha

A investigadora Débora Silva deslocaou-se à Universidade de Granada (UGR) com o objetivo de contactar o Professor Domingos Sáchez-Mesa Martínez, coordenador do projeto LACE (Literature end Change in Europe), com o qual teve, no dia 30 de Junho de 2010, um encontro para apresentação das linhas de pesquisa e diretrizes gerais do PO-EX 70/80, contando com a participação dos professores do Departamento de Teoria da Literatura da UGR. Os pesquisadores mostraram-se muito interessados em estabelecer uma parceria conosco em ações colaborativas de pesquisa, com a possibilidade de realizarem também um projeto futuro, semelhante ao PO-EX, direcionado ao registro em arquivo digital, estudo teórico e disseminação da literatura experimental espanhola, de grande expressão no cenário da literatura nacional e européia.

Na ocasião, pronunciamos também uma conferência no âmbito do curso Teoria de la Literatura y de las Artes, no programa de Doutorado em Teoria de la Literatura y de las Artes y Literatura Comparada, cujo tema foi “Arquivos Digitais de Literatura Experimental: Visualidade, Materialidade e Variabilidade”. Em nossa fala, abordamos a natureza e as especificidades da produção poética experimental portuguesa, em suas múltiplas textualidades, bem como as implicações da transposição semiótica desses textos – em sua maioria, em forma de poesia visual impressa, além de poemas-objeto, instalações e performances – para a visualidade e materialidade digital. Os alunos mostraram-se curiosos com as peculiaridades de um trabalho dessa natureza, que exige a intervenção multimédia, bem como um cuidadoso processo de seleção de corpus, classificação, investigação teórica e domínio de tecnologia informática. Foi discutida também a relação da literatura com as outras artes e suas linguagens, a exemplo da pintura, do cinema e do teatro, na medida em que a maioria das obras contempladas pelo projeto apresentarem uma natureza intersemiótica.

Também em Granada, tivemos a rica oportunidade de fazer uma visita acadêmica à cidadela moura de Alhambra, no dia 29, juntamente com o grupo de alunos do Doutorado, sob a orientação do professor Domingos, que nos guiou pelas trilhas dos castelos e pátios, e pelos jardins do Genelalife, explicitando os aspectos históricos e culturais desse rico itinerário. Alhambra foi construída na colina de Sabika, entre os rios Darro e Gentil, por volta do sec. XII. A maior parte do complexo foi construído entre 1248 e 1354. O nome vem do termo árabe “al-hambra” (la roja), aludindo ao aspecto avermelhado de suas muralhas. Em outra versão, vem do feminino do sobrenome de seu fundador, o emir Ibn Alhamar, al-hamar, “el bermejo”. Os palácios e jardins de Alhambra são também uma mostra autêntica das artes mudéjar e moçárabe, tão peculiares ao estilo hispano-mulçumano, onde se destacam os efeitos decorativos dos espaços, a atenção ao detalhe, a riqueza de materiais. Durante a visita, Domingos destacou os pontos centrais da arquitetura árabe, enriquecendo sua fala com a leitura dos poemas dedicados a cada um daqueles espaços – em sua quase maioria, de natureza religiosa e/ou laudatória às figuras de Alá e dos soberanos islâmicos. Foi interessante perceber também as inscrições de poemas e máximas de louvor a Alá que se destacam nos frisos decorativos de colunas e portais dos palácios. Isso gerou uma discussão do grupo sobre a relação da literatura com a arquitetura islâmica, marcada pela proibição do uso de imagens, sobretudo a reprodução de figuras humanas, o que justifica a ausência de pinturas figurativas nos palácios de Alhambra. A poesia aparece, então, por meio de inscrições que compõem o rico cenário estético dessas construções, ao lado de fontes, espelhos d’água e jardins paradisíacos, que têm também seu motivo ideológico dentro da cosmovisão muçulmana.

Com efeito, “a feitura dos caracteres confere à escrita árabe peculiaridades que a tornam sobremaneira elegante. O lugar de destaque que as palavras têm dentro no Islã incentivaram os usos artísticos do alfabeto como em pinturas, tapeçarias e pratarias. Desta forma, a construção das palavras tornou-se arte, a arte visual da escrita. Uma arte símbolo de unidade, beleza, cultura e poder, convergindo muçulmanos em todo mundo, incorporando estéticas e integrando o conhecimento artístico com o acadêmico, numa cultura onde as formas escritas servem à transcendência do dito ou do objeto representado”.(http://obviousmag.org/archives/2007/08/caligrafia_arab.html). Assim, em nossa fala sobre a visualidade e a materialidade da poesia experimental portuguesa, aproveitamos os elementos vistos anteriormente em Alhambra para chamar a atenção dos alunos para as relações da poesia visual com a escrita ideogramática, elemento enriquecedor nas experimentações poéticas tanto de escritores brasileiros (a julgar pela poesia concreta) quanto de portugueses, que resultaram na concepção da palavra-imagem. Acreditamos que as discussões em Granada foram muito profícuas e nosso contato com os estudantes muito agradável. Desta forma, acreditamos ter despertado nesses jovens pesquisadores o interesse pelo estudo da literatura eletrônica e da hipermédia, o que também faz parte de nossa missão pedagógica, no âmbito de atuação do PO-EX.

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