International Conference da AHLiST, Madrid

A Investigadora Débora Silva deslocou-se a Madrid para participar na 2010 International Conference da AHLiST (Association of History, Literature, Science and Technology), realizada entre os dias 23 e 25 de junho, na Universidad Complutense de Madrid, Espanha, que organizou o evento, juntamente com a Purdue University, a University of Houston, a Nebrija Universidad e a Saint Louis University.

A conferência de abertura do evento, proferida pelo professor Doutor Roger Chartier, do Collège de France, versou sobre o tema: “The Author’s Hand: From Manuscript to Print to Manuscript.” Em sua fala, Chartier ressaltou uma questão polêmica, suscitada já por Foucault, quando refletia sobre as epistemes ocidentais e a cultura letrada que surgiu com o advento da imprensa: a alegada “morte do autor”. Propondo-nos uma reflexão crítica que perpassa dos manuscritos à imprensa – que consolidou a permanência do livro como objeto cultural e estético – até o advento da internet na irrupção da cibernética, Chartier defende a presença, por vezes sutil, do autor (em sua face oculta e subliminar), subjacente à sua obra, em cumplicidade com o leitor. Um ponto relevante dessa discussão é o papel do autor como “criador” de discursos. Assim, quando se fala na escrita de um autor, não nos referimos tão somente a um discurso em particular, mas às novas possibilidades de discurso que este possa gerar num âmbito mais amplo de práticas discursivas sociais. Não é sem razão que a própria gramática da norma culta de um dado povo é essencialmente baseada na prática discursiva de seus maiores escritores. Desta forma, se destaca a importância de se pensar a função do autor no contexto das novas textualidades digitais, onde atuam simultaneamente o autor, o programador (eventualmente o webdesigner) e o leitor virtual. Isso tem suas implicações quando se trata do trabalho que realizamos enquanto pesquisadores, frente as necessárias reflexões teóricas, classificação e interpretação de obras para preservação em aquivo digital da poesia experimental portuguesa, bem como da produção digital dela decorrente. Uma outra questão pertinente e que se põe em discussão é: Quais são os limites da ação do autor quando este interage diretamente com o computador, enquanto máquina semiótica, na criação de um texto generativo, como o do Sintext? Até que ponto se pode dizer que uma escrita é “automática”, se é que, de fato, tal escrita é possível? E se existe, quais as potencialidades e limites desse automatismo no processo de criação literária digital? São aspectos da discussão que nos interessam no âmbito do Po-Ex.

Na sequência, a Conferência foi estruturada por painéis de discussão simultâneos, tendo as seguintes áreas de eleição: Tecnologia, Ciência, Literatura, História, Antropologia, Linguística, Sociedade e Educação.

No painel Technology C – Archiving Information, foram apresentados os trabalhos de pesquisdores da Universidade Complutense de Madrid, da Illinois State Univesity, além do nosso próprio trabalho. Todos contemplavam a temática da configuração e processo de criação de arquivos digitais em suas múltiplas aplicabilidades nas áreas da pesquisa científica e do registro histórico. O professor Eugênio Martínez, da Complutense, fez o relato do Projeto “Tools for Decipherment: Philology and Technology in the Hesperia Databank”, que já decorre há 10 anos, em que se desenvolve um banco de dados, criado para registro, interpretação e enquadramento antropológico de sítios arqueológicos da Espanha, destacando os aspectos filológicos e tecnológicos do processo. A pesquisadora da Universidade de Illinois, Jean MacDonald, apresentou o projeto “Libraries, Librarians and Patrons – Use of Identifiers for Locating Information”, desenvolvido pela universidade para integrar, num arquivo comum, as bibliotecas públicas da cidade, otimizando o acesso de estudantes e professores de escolas básicas. A altura, apresentamos também nosso trabalho, tendo como temática a “Preservation and Dissemination of Experimental and Electronic Literature: The Digital Archive PO-EX 70-80”, pela qual expusemos a proposta, os objetivos, a fundamentação teórica, as linhas de pesquisa e de ação do projeto PO-EX 70-80. Em nossa fala, destacamos, no âmbito dessa discussão, as especificidades envolvidas na criação e manutenção de um arquivo digital, no contexto tão particular da literatura experimental portuguesa, bem como das diferentes formas de criação poética intermédia que dela decorrem, a exemplo da performance, do happening, da instalação, da poesia eletrônica, da hiperficção, da ópera quântica, enfim, de uma gama tão diversificada de textos e processos criativos abertos e reticulares.

O debate posterior às apresentações foi muito interessante, no qual se evidenciou a preocupação com os “direitos autorais” no que toca a divulgação e socialização das obras dos escritores envolvidos no projeto por meio da plataforma digital. Essa é uma questão inevitável, que se impõe num contexto de intensa participação do leitor no processo de recepção-criação do texto virtual, o que, inclusive, justifica o tema da conferência de abertura. Uma outra questão se refere à feitura dinâmica e mutante do hipertexto, que, a partir de um texto matriz, permite a recriação indefinida de textos variacionais que exigem, sem dúvida, uma nova configuração do arquivo. Foi levantada, ainda, a questão do contexto histórico e social que envolveu o florescimento da poesia experimental portuguesa, ligada esta aos movimentos de contestação política, sobretudo na década de 60, num momento de grande ebulição política no país, bem como em situação de extrema repressão. Nesse aspecto, ressaltamos a relevância do Po-Ex em razão do resgate histórico que promove, no sentido de interpretar uma época e o discurso literário de cariz político, mas também estético, que se pronunciou num momento determinante da história em Portugal, o que destaca ainda mais sua importância, bem como sua responsabilidade enquanto projeto.

No painel Technology A – Text Recognition, Interpretation and Conservation, foram relatados três projetos por pesquisadores da Complutense e da Universidade de Sevilla. Todos tinham em comum o tratamento de dados, a interpretação e o armazenamento de informação de textos antigos, a exemplo dos textos bíblicos e arquivos da Idade Média. O trabalho da professora Ana Maria Pacheco Martínez, do Departamento de Matemática Aplicada e Engenharia Informática da Universidade de Sevilla, versou a respeito da análise de documentos por imagem aplicada a textos antigos, no âmbito do arquivo digital que desenvolvem para o Arquivo Geral das Índias. Trocamos contatos com a professora Martínez para oportuna visita à Universidade de Sevilla, num encontro com os demais pesquisadores do grupo CATAM (Computational Algebraic Topology and Applied Mathematics), quando poderíamos expor as diretrizes do Po-Ex, em busca de parcerias e pesquisa colaborativa. A professora nos contactou, mas a data proposta infelizmente não era compatível, devido a nossos compromissos com a Universidade de Granada, em visita anteriormente agendada, para o mesmo dia. No entanto, mantemos ainda a possibilidade de encontro com os pesquisadores de Sevilla numa posterior missão de pesquisa.

No painel Portuguese Literature A, cujo tema geral foi “Decifrando a História: Arte e Republicanismo em Portugal”, foram apresentadas as comunicações dos professores Sílvia Oliveira, da Purdue University, e Ricardo Azevedo Silva, da Universidade de Coimbra. Os autores propuseram interessantes reflexões sobre a atuação da arte, da novelística e da arquitetura portuguesa, com relação ao engajamento político, numa situação pontual da história portuguesa: o nascimento e a consolidação da República. O debate suscitou várias questões sobre o papel do artista, seja este ficcionista, poeta, designer ou arquiteto, numa dada interpretação da realidade, em que não pode prescindir de uma participação efetivamente política. Esse enfoque da discussão nos remonta exatamente ao papel desempenhado pelos poetas e artistas da Po-Ex quando, a partir da década de 60, levantaram a voz para denunciar o marasmo que acometia o país no plano das ideias, em meio a uma intelectualidade, segundo eles, retrógrada e inerte, cujo peso já se começava a sentir no cenário político e cultural (cujo debate era quase inexistente, no dizer de Ana Hatherly), ao qual reagiram em tempo, numa corajosa atitude de questionamento e de propostas inovadoras no plano estético. Isso nos levou a levantar, no debate posterior, a relevância de se registrar, disseminar e promover o conhecimento da literatura experimental portuguesa, também por sua atuação política e comprometimento com os ideais democráticos, uma vez que seus escritores, tendo como arma a palavra, lutaram, entre avanços e recuos, em busca de uma sociedade mais justa. Assim, não se pode desvincular a Po-Ex de um momento histórico, pontual, que possui também sua carga ideológica, levando-se as gerações futuras a refletir sobre o papel social da literatura. A partir dessas reflexões, pudemos inferir que o PO-EX 70/80, agora em curso, bem como o que já foi concluído, referente a década de 60, possui, para além da sua missão literária e cultural, uma missão pedagógica, no sentido em que permitirá aos professores, licenciandos, alunos da escola básica e todos os envolvidos em projetos educacionais, o conhecimento mais amplo e específico da literatura portuguesa, compreendendo melhor as vertentes mestras de sua construção: o projeto estético, por um lado; e o projeto ideológico, por outro.

Um contato que se deu nessa mesa foi com a doutora Sílvia Oliveira, Professora Assistente de Literatura Portuguesa e Espanhola da Purdue University, que muito se interessou pelo nosso projeto, tendo, no dia seguinte, a nosso convite, assistido à nossa apresentação do Po-Ex. Sendo natural do Porto, Sílvia é pesquisadora da obra de Herberto Helder, mas não conhecia a plataforma do po-ex.net e nem as recriações digitais de nossos poetas, a exemplo do poema Húmus, de Rui Torres, baseado na obra de Helder e Brandão. Com o interesse de conhecer melhor nosso projeto, a professora pretende renovar esse contato conosco, no CETIC, em momento oportuno.

Por fim, participamos do painel Cognitive Science B – Theory of Mind, no qual diversos pesquisadores das Universidades de Purdue, Burgundy, Sharif e Nova de Lisboa apresentaram trabalhos que refletiam sobre a complexa e intrigante relação entre a mente e a máquina no contexto da cibernética, da nanotecnologia e da inteligência artificial, na cibercultura. Pelo teor das exposições e discussão posterior, ficou muito claro que já não se justificam indagações ingênuas da “disputa” entre homem-máquina, da fantasia do “computador pensante”, que supera as faculdades intelectivas humanas. A preocupação com o domínio das máquinas e delírios como esse só têm lugar hoje, com certa pitada de humor, nos filmes de ficção científica. O que se evidencia na aplicabilidade da tecnologia no campo das ciências é a necessidade de se separar mito e realidade, a fim de se compreender melhor a extensão de seu uso em projetos de criação de inteligencia artificial, de experiências de simulação da realidade e tantas outras possibilidades, nos planos da cibernética, da semiótica e da robótica, com vistas ao desenvolvimento humano e resgate da cidadania. Um dos exemplos dados foi o trabalho do pesquisador da Universidade Nova de Lisboa, Ícaro Vidal Junior, que fez o relato interessante de um projeto de integração midiática, em que se alia o cinema, a literatura e a simulação (realidade virtual) para o tratamento de neuroses de guerra em soldados americanos ex-combatentes do Afeganistão. Ícaro é pesquisador brasileiro, da Universidade do Rio de Janeiro, com quem travamos conhecimento em nossa missão de pesquisa em Santiago de Compostela.

Com certeza, um evento como esse, extensivo a três dias de conferências, exposições de trabalho e discussão, não se esgotaria no corpo de um breve relatório. O que se propõe aqui é apenas dar uma amostra do que foi tratado, apontando para as possíveis implicações desses conteúdos às nossas pesquisas no âmbito do Po-Ex. Acreditamos que a participação em eventos como este é de suma importância aos nossos pesquisadores e que poder usufruir de oportunidades como esta é sempre gratificante. Por isso, queremos deixar aqui nossa palavra de apreciação e reconhecimento ao professor doutor Rui Torres, nosso coordenador, pelo apoio e disposição com que tem respondido às nossas demandas, no âmbito do Po-Ex, aglutinando, em torno do CETIC, os pesquisadores, professores e alunos interessados, unidos todos pelo amor ao conhecimento.

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