Comunicação no Colóquio Internacional “Narrativas do Poder Feminino”, Universidade Católica Portuguesa

Maria do Carmo Castelo Branco, Investigadora associada do projecto PO.EX’70-80, apresentou, no dia 26 de Abril de 2012, uma comunicação intitulada “Ana Hatherly – a força da inovação / o poder da memória (reinterpretação da figura de Mnemosine)”, no Colóquio Internacional “Narrativas do Poder Feminino”, realizado na Faculdade de Filosofia do Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa nos dias 26-27 Abril 2012.
Resumo da comunicação: Em todos os actos de transferência ideológica e intertextual, a presença da memória não pode afastar-se do fenómeno da transmutação, mesmo quando conjuga dois campos semióticos ou duas “estruturas” paralelas ou cruzadas (pictórica e gráfica). Procurando entender com Coleridge (e através de Ana Hatherly), que “a fantasia é uma forma de memória emancipada da ordem do tempo e do espaço, e, consequentemente, tal como a memória, tem de receber todos os seus materiais já preparados pela lei da associação”, mas entendendo, também, que a imaginação não actua num plano estático, já que não pode afastar-se da contingência da sua elaboração (isto é, da certeza de que parte de uma primeira estrutura), e, entendendo ainda que o diálogo com essa estrutura se realiza através de “várias escritas/leituras” ou através de várias componentes (o escritor, o destinatário, o contexto actual ou anterior”2) – partindo de todos estes pressupostos, procuraremos justificar a ideia de que falar da “relação da mulher com o poder, no mundo clássico” só pode, em Literatura, resultar num acto de fala sobre o poder da escrita (que reproduz todos as “falas” simultâneas ou anteriores, próprias ou alheias).
Dentro dessa relação, de certo modo, criptográfica (mas não tanto que não possa ser lida e interpretada), pretendemos estudar a poesia e o ensaio de Ana Hatherly, nomeadamente os textos que dedicou ao barroco, em íntima relação com dois símbolos míticos: Mercúrio e Mnemosine – o avanço e o regresso, a viragem e o retorno, o movimento e a adaptação. No fundo, tentar perceber o seu desejo oculto de reescrita, procurando encontrar os passos desse desejo nas linhas de uma específica cartografia, refundida em itinerários vários (geográficos e literários) e cujo sentido só poderá percepcionar-se através da oximórica postura da autora (entre a insurreição e o diálogo, entre a adesão e o duelo) e procurar desenhar esse sentido através da decifração de um percurso delineado entre o avanço e o recuo, entre logos e ikon, sentido construído através de labirintos e percursos thotianos, em busca do poder da novidade, mas também de novos e herméticos rumos e que acaba por encontrar talvez no barroco e dentro de uma transfigurada e aparente incongruência, aquela resposta à pergunta que põe a si própria em “O novo Flâneur”:
Onde é que há
Um espelho que tranquilize?
A imagem é só ela:
Uma constelação de impasses
Um palimpsesto
Feito de interfaces

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