Lev Manovich – Um Milhão de Páginas Manga

A conferência de Lev Manovich, na Universidade Católica do Porto no dia 25 de Junho de 2010, apresentou um título sugestivo: “What are we learning about cultural variability by studying 1.000.000 pages of Manga?”. Através da visualização de um milhão de páginas das revistas Manga, Manovich lançou na conferência algumas interpretações/conclusões polémicas. Mas antes de chegar às interpretações/conclusões, foram avançados alguns dados teóricos e práticos que permitiram a quem assistia entender o percurso até chegar às referidas interpretações e conclusões. O professor Manovich esclareceu que não tinha particular paixão pelas revistas Manga, mas decidiu estudá-las por constituírem dados digitais acessíveis, dados digitais que representam um data set de um milhão de páginas. Esse data set foi tratado em software especificamente desenvolvido, capaz de construir aquilo que Manovich refere como space style (espaço do estilo) – esse espaço concentra em si um padrão que é, então, analisado. Depois, percebemos que o trabalho de investigação em causa tem o nome cultural analytics, já que é uma prática de visualização digital e análise de padrões de cultura.

Manovich começou a conferência por lembrar que estamos na era do digital e, em termos culturais, isso tem as suas repercussões. Como sociedades digitais, temos à nossa disposição um número cada vez maior e cada vez mais astronómico de artefactos culturais digitalizados. Consequentemente, as formas que temos de analisar as culturas da humanidade têm de acompanhar a evolução dos tempos. A forma revolucionária de Manovich analisar cultura, por intermédio de padrões, vem desafiar as análises culturais qualitativas que, normalmente, concentram-se num pequeno número de objectos. O professor Manovich lança o pattern como um novo e necessário objecto epistemológico ao considerar o seguinte: nós hoje somos capazes de explicar o significado de cada artefacto cultural, mas com uma nova escala cultural digital (que produz milhões de artefactos culturais), é impossível deslindar o significado de cada um desses artefactos culturais. Nesse caso, deveremos optar pelo pattern como a nova unidade de análise, a análise dos padrões vastíssimos que os artefactos culturais criam.

Regressemos então ao space style que Manovich mostrou na conferência, como resultado de uma investigação muito recente. Como já foi explicado, o professor Manovich utiliza software especialmente desenvolvido para mostrar padrões culturais – neste caso, o objecto de análise foi um milhão de páginas Manga, uma famosa produtora japonesa de banda desenhada. O espaço do estilo que Manovich mostrou (space style) representa uma variabilidade de parâmetros que contempla áreas brancas, áreas negras, áreas cinzentas, áreas de cor… no milhão de páginas seleccionadas para estudo. Estes parâmetros, na investigação de Manovich, são estudados e combinados com mais dois elementos: o género literário (“acção”, “romance”, “fantasia”, “drama”…) e o gender (masculino ou feminino) do destinatário das revistas. Antes de avançar para as conclusões que Manovich tirou da visualização do pattern das revistas Manga, importa referir que a atribuição dos referidos géneros literários partiu de uma falksonomy, ou seja, partiu dos tags que os leitores das revistas atribuem às mesmas. Quanto às conclusões, Manovich provocou algumas reacções de espanto naqueles que assistiam à sua exposição, uma vez que afirmou o seguinte: não se nota um verdadeiro estilo nas revistas, nem um verdadeiro género literário – uma vez que as tags das várias revistas, supostamente, diferentes repetiam-se – nem um verdadeiro gender magazine – isto porque as revistas de raparigas eram lidas por rapazes e vice-versa.

Conclusões polémicas à parte, Manovich foi humilde ao reconhecer que o estudo de um só padrão, como o próprio executou, não chega para produzir “big statements” sobre aspectos culturais – seriam necessários, por exemplo, cinco pattern studies para poder fazer as “big statements”. Para além da limitação na produção de grandes e bem sustentadas conclusões, Manovich é o primeiro a considerar, seriamente, o papel do humano na interpretação dos patterns, apesar da utilização de ferramentas digitais para a sua construção. Portanto, não estamos perante um processo elaborado, totalmente, com recurso a máquinas e capaz de deixar o investigador com margens de erro praticamente nulas.

Se pusermos de parte as conclusões que podem levantar celeuma e uma hipotética limitação do cultural analytics, os objectivos teóricos deste investigador russo têm de ser enaltecidos. A visualização como instrumento de pesquisa, dentro dos moldes propostos por Manovich, deseja representar, cada vez melhor, a complexidade, diversidade, variabilidade e a singularidade dos processos e artefactos culturais. Manovich pretende democratizar a pesquisa e investigação cultural ao criar ferramentas open source para visualização e interpretação cultural; pretende desenvolver técnicas capazes de descrever as dimensões dos processos e dos artefactos culturais; pretende usar as técnicas do cultural analytics, como uma forma de criar uma análise histórica cultural cada vez mais inclusiva e abrangente. Através da conferência “What are we learning about cultural variability by studying 1.000.000 pages of Manga?”, percebemos que Manovich abre novas portas e realidades na investigação da cultura produzida pela humanidade. Veremos até que ponto a comunidade científica acompanha as bases lançadas por Lev Manovich.

Registo áudio integral da conferência de Lev Manovich intitulada: “What are we learning about cultural variability by studying 1.000.000 pages of Manga?”:

Lev Manovich – Manga Pages 1

Lev Manovich – Manga Pages 2

Lev Manovich – Manga Pages 3

Lev Manovich – Manga Pages 4

Lev Manovich – Manga Pages 5

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