A teoria quântica, originariamente concebida como teoria física para ser aplicada à estrutura íntima da matéria e às propriedades paradoxais das micropartículas (electrões, protões, átomos, moléculas), encerra pressupostos filosóficos que abrem uma nova maneira de pensar a realidade. Sabemos o risco que comporta a extrapolação, tantas vezes fantasiosa, desta teoria para outros níveis de organização do real. No entanto, Lothar Schäfer (químico quântico) é peremptório em afirmar que não é só no campo da microfísica que tais propriedades se manifestam: “As moléculas são a base da vida e as moléculas são sistemas quânticos. Todas as coisas, pequenas ou grandes, existem em estados quânticos.” E o matemático Roger Penrose corrobora: “A mecânica quântica está omnipresente mesmo na vida quotidiana, e encontra-se no cerne de muitas áreas de alta tecnologia, incluindo os computadores electrónicos.”
Longe a pretensão de invadir um domínio que não é o da nossa competência – são os pressupostos epistemológicos desta teoria que aqui nos importam, não a sua operacionalidade científica. Por isso não levaremos a nossa ousadia muito para além do direito de citar, propondo uma homologia entre o modelo quântico e a teoria do texto, homologia cuja aplicabilidade ao texto gerado por computador se nos afigura particularmente rica de potencialidades.
As textualidades inauguradas com o advento da informática, caso do texto virtual, do texto automático, do texto generativo ou do hipertexto, requerem uma correspondente forma outra de encarar o texto e a construção do sentido. Ora os pressupostos basilares do pensamento quântico revelam-se expressivamente operatórios para esta nova teorização do texto.
De entre eles, realcemos os seguintes:
1. A introdução da noção de informação na própria estrutura da matéria e na dinâmica da natureza (para além das duas noções clássicas de matéria e energia);
2. A valorização da aleatoriedade na interacção das partículas elementares, encarada também esta como uma propriedade íntima do mundo natural – daí que a imprevisibilidade dos seus efeitos leve à noção de conhecimento como ordem probabilística;
3. A superação do princípio lógico da identidade ou da não-contradição, o qual parece abrir-se a uma nova convergência da coincidência dos opostos (caso da dualidade unitária das partículas quânticas, metaforizada no famoso exemplo do gato de Schrödinger);
4. A reanimação dos velhos conceitos de virtualidade e de actualidade;
5. A importância atribuída ao observador na manifestação das propriedades físicas da matéria - entenda-se, da realidade.
Estes pressupostos são já suficientes para abrirem cortinas na abordagem do real, tanto quanto na conceituação do “texto”: matéria organizada de sinais que armazenam, transportam e trocam informação.