[Sessão #03 - 7 Março 2015] Texto-Som [Processos Vocais, Poesia Sonora]. Apresentação por Rui Torres. Remistura por Luís Aly e Retroescavadora. ARQUIVO VIVO É ANARQUIVO! @ Livraria Gato Vadio. FortunAly.js e botabaixo.js de Nuno F. Ferreira.


Apresentação de obras, ou leituras, dos seguintes Autores: Abílio-José Santos, Alexandre O'Neill, Américo Rodrigues, Ana Hatherly, António Aragão, António Dantas, aranhiças & elefantes, Brion Gysin, Bruno Ministro, César Figueiredo, E. M. de Melo e Castro, Fernando Aguiar, Filipe Pires, F. T. Marinetti, John Cage, Jorge dos Reis, Kurt Schwitters, Luigi Nono, M. Almeida e Sousa, Mandrágora, Miguel Azguime, Nuno M Cardoso, Pedro Rebelo, Salette Tavares, Telectu.


Imagens da apresentação/intervenção >

Rui Torres e Luís Aly. Fotos cortesia de Ana Carvalho e Luís Grifu.


Imagens registando o acesso ao ARQUIVO VIVO É ANARQUIVO! após activação de scripts programados por Nuno Ferreira: botabaixo.js, fuzzyme.js e fademe.js

Veja mais imagens em > Botabaixo, FadeMe, FuzzyMe [Scripts para manipulação do PO-EX.NET], por Nuno Ferreira


Imagens de notas visuais de Alex Bodea acerca da sessão Texto-Som

Veja mais imagens em > Notas visuais acerca de Texto-Som [Poesia sonora @ Gato Vadio], por Alex Bodea



Secção 18 >

Intro(duction)

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]

Esta sessão sobre processos sonoros e poesia sonora apresenta dezoito (18) secções distintas, com autonomia, não devendo por isso seguir a ordem aqui estabelecida, mas antes seguir uma sequência aleatória, gerada pelo FortunAly, programado pelo Nuno F. Ferreira para a Retroescavadora. Gere a sua própria sequência aqui:

http://po-ex.net/anarquivo/textosom/

As 18 Secções (cada letra de " A-R-Q-U-I-V-O-É-A-N-A-R-Q-U-I-V-O-! ") têm a mesma estrutura:

  1. Som-Texto (Poema sonoro) >
  2. Texto-Som (Leitura) >
  3. Genealogia/derivação (História) >
  4. Processo/manipulação (Kyma)

Considerações prévias >

Rui Torres e Manuel Portela, na justificação da taxonomia do po-ex.net, definem poesia sonora como:

"Forma de poesia baseada na expressividade dos aspectos fonéticos da linguagem e dos processos vocais de emissão de som, alargando desse modo o conceito de poema ao de composição musical, normalmente associada a manifestações performativas e acções ao vivo, podendo no entanto ser formalizada quer pelo registo áudio, quer pela representação visual da partitura. (Também: Poesia fonética)"


Melo e Castro propõe uma tipologia das poesia experimentais em "A proposição 2.01" (1965), onde se incluem:

"Poesia Auditiva - Experiências com a voz humana tratada ou não com o magnetofone. Poesia rítmica ou poesia melódica com palavras, sílabas ou sons puros. Algumas experiências dadaístas e letristas. Composição direta na trilha sonora."

"Poesia Respiratória – Experiência de Pierre Garnier com o sopro humano."

"Poesia Sinestésica – Desenvolvimento das sinestesias. Produtos híbridos dos tipos de poesia já referidos."

Em PO.EX (Hatherly; Castro, 1981: 115-116) inclui novas tipologias e exemplos, reformulando para:

"Poesia auditiva ou fonética: Experiências com a voz humana tratada ou não com o magnetofone. Palavras, sílabas, sons puros, ritmos, sobreposições. Desde o dadaísmo. Raoul Hausmann, Kurt Schwiters; Petrônio; Bernard Heidsieck; Henri Chopin; François Dufrêne."

"Poesia respiratória – Experiências de Henri Chopin (A Energia do Sono) e de Pierre Garnier com o sopro humano (Poesia Fonética)."


Rui Torres, de "Porta-Voz [Recensão Crítica]":

"O que é a poesia sonora? Poesia cantada? Poesia lida? Poesia musicada? São dos Futuristas e dos Dadaístas as mais marcantes propostas de autonomização estética dos aspectos sonoros da linguagem poética (Tzara, Marinetti, Ball, Schwitters). Tendo esta informação histórica em consideração, e aproveitando a fundamental teorização proposta por Philadelpho Menezes, podemos talvez referir que a poesia sonora possui dois momentos bem delineados. E o marcador de separação pode bem ser o advento da aparelhagem electracústica, à volta dos anos 1950: poesia fonética antes; poesia sonora depois (v. Menezes).

A poesia sonora é uma forma de poesia baseada na expressividade dos aspectos fonéticos da linguagem e dos processos vocais de emissão de som, alargando o conceito de poema ao de composição musical. Embora esteja, normalmente, associada a manifestações performativas e acções ao vivo, ela pode também ser formalizada quer pelo registo áudio, quer pela representação visual da partitura.

Philadelpho Menezes explica-nos que a poesia sonora é "um mito brilhante e mudo". Brilhante porque reflecte “com precisão e radicalidade” aquilo que centraliza as múltiplas tendências das poéticas experimentais, tais como a elaboração fonética, vocal, acústica e electroacústica. Na sua própria amplitude, porém, diz Menezes, torna-se “um nome de significação esvanecida, quase mudo”.

Certo é que poesia sonora não é mera leitura de poemas. O que caracteriza o poema sonoro não é a sua simples audibilidade, mas a sua própria existência acústica. O som das palavras é para a poesia sonora um problema, não uma solução. O poema sonoro opõe-se, por isso, à oralidade padronizada do mundo contemporâneo. É uma poesia para abrir os ouvidos, tal como a poesia concreta quis ser uma poesia para abrir os olhos. Aquilo a que também Philadelpho Menezes apelidou de “utopia da transformação estética”.

Se nas referidas vanguardas históricas do Futurismo e do Dadaísmo podemos identificar uma função de subversão da ordem, isto é, a transgressão à norma, a intervenção na realidade, já no experimentalismo da segunda metade do século XX estamos perante “uma produção destituída desse élan transformador, centrada na experimentação pelo simples efeito acústico sugerido pelas inovações tecnológicas”, como disse Menezes."


Textos sobre Poesia Sonora no po-ex.net:

Textos sobre SOUNDS no ubu.com (ligações externas):



Secção 1 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Como explica Daniela Côrtes Maduro na sua recensão a Escatologia, de Américo Rodrigues: "O som produzido corresponde a vogais e sílabas desconexas ou palavras que estão a ser trituradas pela experiência sonora levada a cabo por Américo Rodrigues. Reduzidas às suas unidades mínimas, as palavras perdem coerência, até que cessam de existir. Face à iminente perda de sentido, o ouvinte assiste a uma performance onde os sons regressam a um estado primitivo, libertos das imposições da escrita ou do discurso verbal. Américo Rodrigues mostra que os sons vocais podem ir além das palavras ou letras, e trata-os como manifestações físicas de emoções (Portela, 2003) ou como resquícios de sentimentos e sensações. "Escatologia" é o estudo do final do mundo ou da humanidade. A efemeridade do discurso oral é assim equacionada com a inevitabilidade da morte."

Rumor Branco #1 05:34 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: Américo Rodrigues, 2003, poesia sonora do disco “escatologia”. “cavalgada”. Seguida de “sitiado”. A desestruturação da estrutura silábica elementar da articulação vocabular. Nesse sentido, pós-Dada, pós-Futurista. Velocidade, mas por processamento sonoro da voz. O sussurro. Poemas para gritar e para saltar, como quis Hugo Ball. O sopro. “Chamo de poesia o conhecimento do sopro já que é o esgotamento do universo para o universo. Aí então o corpo se reinventa”, disse Pierre Garnier na sua Arte Nova Sonia, de 1962. Trabalhar o sopro. O “sopro-energia-vibração-ondulação-radiação”. Como previu Ilse Garnier, “o fim do mundo da expressão”.]

Capa de Escatologia, de Américo Rodrigues

Américo Rodrigues, “cavalgada”

Américo Rodrigues, “sitiado”


Texto-Som (Leitura) >

"Opressão", de Alexandre O'Neill

Américo Rodrigues, "Opressão" (Alexandre O'Neill)


Genealogia/derivação (História) >

Rumor Branco #1 00:26 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: "Filippo Tommaso Marinetti, 1920, “Parole in libertà” – elegia da vitória da libertação das palavras futuristas. Pequeno excerto, primeiro minuto do Manifesto. Depois disso, em declamação de 1924, “Bombardeamento de Adrianopoli”. Uma arqueologia da experimentação literária. As vanguardas históricas, aqui vertidas numa síntese musical vocal e sonora. O ruído como estética, a utilização musical da voz, em contrastes bruscos, onomatopeias. A declamação exaltada e agitada. Marinetti: “A onomatopeia, que serve para estimular o lirismo com os elementos crueis e brutais da realidade, foi usada na poesia mais ou menos timidamente. Nós, os futuristas, começamos o uso constante e audacioso da onomatopeia.” (…) “Só o ruído na arte nos interessa”."]

Manuel Portela: "A poesia sonora desenvolveu-se ao longo do século XX a partir de um conjunto diferenciado de movimentos e programas, que vão dos poemas fonéticos futuristas e dadaístas da década de 1910-1920 à poesia sonora e electroacústica franco-belga dos anos 50 e 60, passando frequentemente pelas fronteiras da música contemporânea, em especial depois da segunda Guerra. À revolta deliberada contra o totalitarismo semântico dos primeiros modernistas fonéticos, os poetas sonoros das décadas de 50 e 60 acrescentaram a crítica ao logocentrismo e ao grafocentrismo da linguagem, fazendo pleno uso da fita magnética e dos novos recursos electrónicos para registarem e modificarem toda a gama de cambiantes expressivos da voz humana aquém e além da fala, e aquém e além do canto. Essa improvisação expressiva permitiu trabalhar de modo exaustivo a materialidade acústica e articulatória da linguagem como estrutura sónica e do aparelho fonador como instrumento musical."

F. T. Marinetti, "La Battaglia di Adrianopoli" [Ligação externa / External link]


Processo/manipulação (Kyma) >

Luís Aly: Degeneração digital



Secção 2 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Capa de Cicatriz:ando, de Américo Rodrigues

Rui Torres: "Publicado pela Bosq-íman:os records com o apoio da Luzlinar e do Instituto de Estudos da Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa, Cicatrizando reúne um conjunto de acções poéticas e sonoras nas quais são apropriados diversos materiais que têm origem na tradição oral portuguesa. Esses materiais, que vão desde lengalengas, orações e adivinhas até alcunhas e vocabulários de gíria, por si só não constituiriam novidade na obra do autor, rica em abordagens ao nosso património cultural. No entanto, em Cicatrizando temos como novidade estrutural a intervenção expressiva de certas tecnologias, as quais assumem um papel preponderante no processo de metamorfose a que são submetidos esses textos. De facto, a magia efémera das coisas que Américo Rodrigues captura com regularidade aparece agora inscrita em processos de desautomatização dos próprios mecanismos de reprodução de que é feito qualquer registo sonoro. Por isso, ao tornar visível esse aparato de reprodução, seja através da presença da materialidade dos sistemas de gravação, comunicação e amplificação que utiliza, seja ao introduzir expressivamente o telefone, o gravador de cassete, o megafone ou os intercomunicadores, o autor monta um conjunto de texturas sonoras do tipo meta-mediático, isto é, em que a própria reprodução técnica é desautomatizada e tornada reflexiva."

Américo Rodrigues, “Orações e confusões”


Texto-Som (Leitura) >

O Sapato, de Salette Tavares [Leitura conjunta de poema litúrgico, para oficiante e participantes]

Leitura colectiva (all together now)


Genealogia/derivação (História) >

Manuel Portela: "Que a música contemporânea atonal e pós-atonal tenha recorrido a procedimentos idênticos aos da poesia sonora no tratamento da voz e da matéria linguística dos textos musicados indicia precisamente o espaço de transição em que a poesia, através da voz, se aproximava da música do corpo. Muitas obras para voz nas últimas décadas procuraram explorar a música da linguagem de um modo semelhante ao do poema sonoro. É esse o caso, por exemplo, de composições de Steve Reich, Gyorgy Ligeti e Mauricio Kagel, ou de quase toda a obra de Meredith Monk. Nesse afã em busca de expressividade, músicos e poetas conduziram a voz e os sons do corpo para além da notação escrita. Só a interpretação ao vivo e o registo gravado permitem aceder verdadeiramente a uma música da linguagem feita tanto da materialidade dos sons da voz, como da mecânica dos movimentos e dos órgãos corporais que os produzem."

Capas de Canto Ecuménico, de Filipe Pires

Filipe Pires (1934-2015) nasceu em Lisboa, mas viveu no Porto desde 1960. Autor de vasta obra vocal, instrumental e electroacústica, nas modalidades de câmara, sinfónica, teatro musical e bailado. Pianista e compositor. Professor de Composição do Conservatório de Música do Porto, crítica musical no "Jornal de Notícias". Seguiu cursos regidos por Boulez e Stockhausen em Darmstadt, estágio em Paris sob a orientação de Pierre Schaeffer.

Filipe Pires, "Canto Ecuménico" [Excerto]


Processo/manipulação (Kyma) >

Luís Aly: Mantra



Secção 3 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Rumor Branco #6 03:52 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: "Américo Rodrigues, 2003, poesia sonora do disco “escatologia”. “ões”, para voz, batata frita e camões, em memória de Phidalelpho Menezes, entretanto falecido. A prosódia conversacional como ponto de partida para a declaração de independência dos intérpretes. A interrupção, o erro, denúncia de todas as falácias de leitores e diseurs constrangidos pelos bons costumes. Contra a norma, pela forma."]

Manuel Portela: "O seu repertório de tons e registos inclui a ironia, a indignação, a ternura, a tragédia, a comédia. Neste efeito de tensão entre significação e expressão, Américo Rodrigues consegue elevar a expressividade auto-referencial dos poemas a regiões inteiramente vedadas aos poetas que confiam na palavra dada e se submetem ao seu universo concentracionário. A nudez do seu solo quase absoluto permite-lhe criar um sujeito que passa quase incólume pelo sofrimento e pela mentira infligidos pelas palavras, e faz explodir a loucura que há na linguagem. A primeira e a última faixa definem exemplarmente o seu propósito. Em “ões”, que abre o CD, Américo Rodrigues tenta ler repetidamente a primeira estância de Os Lusíadas, enquanto mastiga batatas fritas, uma brutal evocação da limpeza cerebral que a dieta literária escolar pode constituir. Palavras e batatas fritas misturam-se na boca revelando a idêntica ordem de materialidade que as constitui e, ao mesmo tempo, a interiorização dos significantes/significados como alimento produtor da subjectividade. Que o acto de ler com a boca cheia resulte na distorção dos sons tem o efeito hilariante de desmistificar por completo a fast food camoniana e a utilização ideológica da linguagem."

[Lembrar: Philadelpho Menezes, “Poema sonoro para sarau”, a partir da declamação de um poema de Carlos Drummond de Andrade. O experimentalismo poético baseado na voz humana, e suas possibilidades expressivas. Do Brasil, 1996, a variação da oralidade, a entonação da fala, a linguagem poética universal, a leitura como problema. Da manifestação acústica da articulação vocal para a ironia, condição fundamental de toda a deconstrução. Engenharia de som de Milton Ferreira.]

Américo Rodrigues, “ões”


Texto-Som (Leitura) >

Velegrama, de Álvaro Neto

Rui Torres: Certos regimes de remistura e apropriação tecnológica são frequentes na PO.EX. No texto "Velegrama", Álvaro Neto/Liberto Cruz substitui as consoantes iniciais das palavras de uma comunicação telegramática pela letra V, sugerindo desse modo a velocidade de transmissão que caracteriza o meio, ao mesmo tempo que cria uma situação sonora que exige, para a sua leitua, uma articulação fonética de grande perícia. Assim, a consoante V, ao ser introduzida como elemento de entropia negativa no telegrama, sugere, por um lado, visualmente, a velocidade, mas, por outro, introduz um uma espécie de travão nessa mesma velocidade, pois ao iniciar a leitura, sonoramente, há uma quase necessidade de a atrasar. Escrito em maiúsculas e assinado como Viverto Vruz, lê-se, a título ilustrativo: "VONS VONVEIROS VOLUNTÁRIOS VELEM VINGUÉM VOSSA VONVA". Os intervalos são assinalados com um "VTOP", e termina de um modo elegíaco e irónico: "VIVA VATRIA VIVA VOVO VIVA VORTUGAL".

Américo Rodrigues, "Velegrama" (Álvaro Neto)


Genealogia/derivação (História) >

John Cage, "Writing for the Second Time Through Finnegans Wake" [Ligação externa / External link]


Processo/manipulação (Kyma) >

Luís Aly: Extracção



Secção 4 >

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Som-Texto (Poema sonoro) >

Liner-notes de Miguel Azguime: "Itinerário do Sal é uma Op-ErA do Miso Ensemble, de 2008, grupo constituído por Miguel Azguime - performer, composição, concepção e textos; e Paula Azguime - desenho de som e electrónica em tempo real, concepção, vídeo e encenação; aqui com a colaboração, no vídeo, de Andre Bartetzki e Perseu Mandillo. (...). Concebida entre 2003 e 2006, a ópera Itinerário do Sal foi apresentada em várias salas do mundo, recebeu o prémio Music Theatre Now Competition na categoria Other Forms Beyond Opera atribuído pelo International Theatre Institute, e foi gravada e filmada ao vivo no Centro de Cultural de Belém, 21 e 22 de Outubro de 2006, no âmbito do Festival Música Viva 2006. (...)

Reflexão sobre a Criação e a Loucura, (...) em torno da linguagem, da palavra-sentido e da palavra-som; ambas tratadas como dimensões da voz, da voz enquanto extensão do corpo e ambas totalmente integradas na construção cénica como projecção tangível da ressonância das palavras através do som e da imagem. Áudio, Vídeo e processamento electrónico em tempo real associados à projecção espacial da voz, da poesia, do gesto, da música e do traço, desenvolvem uma polifonia de sentidos, um contraponto de significados, uma exuberância de emoções. Um performer/autor em palco talha ao vivo novos trilhos na música electrónica; o som, a luz, as imagens e o movimento como que desenhados, pintados ou esculpidos, desafiam de forma poderosa, intensa e emocionante as convenções e os limites entre Música, Teatro e Ópera."

Miguel Azguime, "De Part et d'Autre" (Itinerário do Sal)


Texto-Som (Leitura) >

Rumor Branco #2 05:10 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: Américo Rodrigues, em Leituras da Poesia Experimental Portuguesa gravadas na Guarda em 2012 por Rui Torres e Luís Aly, interpreta o poema “O lixo”, de Salette Tavares. Originalmente publicado em 1971, no livro Lex Icon da escritora portuguesa já falecida, uma elegia ao lixo, o repugnante e expurgado lixo, o lixo secreto aqui e agora tornado jóia, informação, arte. Homenagem a Schwitters e a Dada, aos poetas de lixos. Para a leitura, Américo Rodrigues, recorrendo à exploração do texto-som, ao isomorfismo e à repetição, apela à reconstrução da linguagem. O lixo luxo de Salette Tavares. Américo Rodrigues lê “O lixo”, de Salette Tavares."]

Américo Rodrigues lê “O lixo”, de Salette Tavares


Genealogia/derivação (História) >

Ursonate, de Kurt Schwitters, foi publicado na revista Merz, número 24, 1932. A organização escrita da fonética, numa sonata em quatro momentos. A variação no ritmo, a severidade militar dos alfabetos em decomposição. Schwitters, pintor, inventor da técnica de colagem “Merz.” Colaborador de Arp, Tzara, Hausmann. Esta “Sonata in Urläten”, alterada entre 1926 e 1932, data da versão que aqui se apresenta. Experimentador nos campos da poesia, cabaret, tipografia, pintura no corpo, música, arquitectura. Avô da Pop Art, do Happening, da arte Conceptual, de Fluxus, da arte multimédia. A arte do ruído no seu extremo: a integração óptico-fonética e o nonsense, o zaum de uma língua transmental (o termo é de Krutchenik, 1920). O sopro vital, a onomalíngua (nas palavras de Firtunato Depero, 1946), a linguagem das crianças e dos selvagens. Kurt Schwitters, “Ursonate”.

Kurt Schwitters, “Ursonate” [zweiter teil: largo] [Ligação externa / External link]


Processo/manipulação (Kyma) >

Luís Aly: Anoitece



Secção 5 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Capa de Porta-Voz, de Américo Rodrigues

Rui Torres: "Américo Rodrigues publicou "Porta-Voz" [Registo sonoro] em 2014, na Guarda, pela Bosq-íman:os records, acompanhado de um objecto de José Teixeira. Sintomático do que se vai ouvir: Américo Rodrigues é o responsável por "Poesia, vozes, brinquedos, trompa de caça, pedras, paus, trombone de aboboreira, megafone, búzio, chocalhos, campaínhas, unhas de lama, piaçaba e tubo de PVC". Numerário é uma brincadeirrrrra, e brincando nos fazemos homenzinhos: contam-se aqui os números; sobrepõem-se as contagens dos números; risos, números, risos. Uma economia. Uma ironia com a economia."

José Alberto Ferreira: "Na obra de Américo Rodrigues "[p]erdem eficácia os limites, o género e as fronteiras: música? Performance? Poesia? Ou novos gestos, densas paisagens sonoras que perseguem modos de se fazerem pluralmente? A poesia sonora de Américo Rodrigues: conjugando a pesquisa de procedimentos vocais conexos com o canto (...) com variações tímbricas, explorações glossolálicas e práticas verbigeradoras apontando à recognoscibilidade da palavra e ao seu uso como matéria fónica. As modalidades retóricas aqui privilegiadas vão desde as estratégias de motivação (ecos, rimas internas, glossolálias, onomatopeias, mecanismos de verbigeração e de associação vários), à desconstrução radical que transforma a matéria fónica em matéria plástica e acústica."

Américo Rodrigues, "Numerário"


Texto-Som (Leitura) >

Soneto Soma 14x, de E. M. de Melo e Castro

Nuno M Cardoso, "Soneto soma 14x" de E. M. de Melo e Castro


Genealogia/derivação (História) >

Ctu Telectu é o título do primeiro álbum de Telectu, nome dado por Jorge Lima Barreto ao projecto formado por ele e por Vítor Rua no início dos anos de 1980. De Poemografias: “TELECTU é um agrupamento de música electro-acústica que concilia a escola repetitiva americana com superestruturas do rock e do jazz e da contemporânea improvisada. A sua música é estruturada por sistemas de repetição, sobreposição rítmica e desenvolvimento/cruzamento de figuras melódicas, na procura inédita de ambientes tímbricos, trabalhando sempre no sentido do lirismo electrónico.” Melo e Castro escreve o poema Sete Megatoneladas em 1968, onde surge a palavra “Telectu”.

Hugo Oliveira, em Alternativas e proposições para uma experimentação sonora na arte contemporânea portuguesa pós 25 de Abril: "o trabalho de Melo e Castro destaca-se também da seguinte forma na obra dos Telectu: (a) capa para as edições fonográficas Belzebu (1983, LP) e Digital Buiça (1990, LP); (b) experiências fonéticas e compositivas a partir do seu poema SONETO SOMA 14X (Off Off, 1984, LP); (c) colaborações em conjunto na execução de bandas sonoras para videopoesia. Esta colaboração de Melo e Castro com os Telectu é igualmente decisiva para documentar um par de ideias: (a) submeter a declamação de um poema a uma série de efeitos electrónicos, tendo em conta o poema em questão, SONETO SOMA 14X,o seu uso foi abordado como um elemento “concretista musical”, não havendo interesse numa mensagem a não ser a conceptual; (b) chegar a novos públicos através do formato fonográfico e dos arranjos gráficos. (...) É no tema CORNUCÓPIA que se escuta a experiência fonética a partir do poema de Melo e Castro SONETO SOMA 14X. Não havendo qualquer tipo de preocupação no sentido de fazer passar uma mensagem verbal, a voz que declama o soneto é usada como se se tratasse apenas de mais um som concreto no meio da composição, um instrumento apenas com um significado sonoro. No meio dos sons electrónicos de fonte “não identificável”, a voz processada através de um flanger (voz de João Perry), torna-se ainda mais resistente à percepção convencional, anulando de imediato a possível aproximação que se poderia estabelecer com uma mensagem verbo-semântica." [<http://www.serge-against-bourg.net/mestrado/capituloII/ctu.html>]

Telectu e E. M. de Melo e Castro

TELECTU; Soneto soma 14x

[http://www.youtube.com/watch?v=4zeULW9lSd8]


Processo/manipulação (Kyma) >

Luís Aly: Ressonância



Secção 6 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Outros autores sobre Itinerário do Sal:

"O autor actor e músico Miguel Azguime, funde modelações vocais, mímica, gestos e as suas “projecções” no vídeo e electrónica ao vivo. As possibilidades do autor nesta produção histérica e fisiológica espantam, tornando-se um excelente “material” para as transformações electrónicas." (Asta Andrikonyte, 2006)

"Depois desta experiência, talvez o espectador se pergunte sobre o seu género: será música electroacústica? Poesia sonora? Teatro musical, arte performativa, ópera multimédia? Ou será antes todas estas hipóteses juntas? (...) Ultrapassar barreiras de grandes disciplinas estabelecidas é uma das características marcantes da poética de Azguime. É ele o autor dos versos, recita-os e interpreta a música composta de proliferações rítmicas de sons, palavras e gestos. (...) Parece teatro, mas não é." (Jelena Novak, e-volucija, nº14, 2007)

"Itinerário do Sal, de Miguel Azguime, é um exemplo da hibridez intermédia tornada possível pela actual tecnologia digital. Os sons ligeiramente diferidos que saem da boca do actor/autor tentam ser simultaneamente o resultado dos movimentos corporais, isto é, aquilo que poderíamos referir como a música da voz ou a poesia da voz, e a notação desses movimentos. É como se o som escrevesse o próprio som. O mesmo se poderia dizer da escrita: os traços traçam a sua própria possibilidade enquanto forma escrita." (Manuel Portela – blog TAGV Coimbra, 16/02/2007)

Miguel Azguime, "A Laugh to Cry"

[05 Act 1]

[7 Act 2]


Texto-Som (Leitura) >

Rui Torres: "Fernando Aguiar, em «Problemática da dificuldade», insiste nas nas figuras de repetição, nas aliterações, nos jogos sonoros. Essa recursividade obsessiva dos elementos fonéticos, indagando no corpo da palavra a sua própria origem, resultam numa fragmentação discursiva que, através de variações mínimas, introduz transformações ao reportório apresentado, dentro de uma estética minimalista e combinatória."

Rumor Branco #8 04:30 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: "Américo Rodrigues, em leitura de “Problemática da dificuldade”, de Fernando Aguiar. Texto variacional repetitivo para uma conjuração do tempo presente. Fernando Aguiar, poeta visual e performer, escreveu, em 1988. Américo Rodrigues, em gravação na Guarda em 2012, ofereceu a interpretação. A justaposição e a montagem, atribuindo novos rumos à progressão adjectiva de uma problemática da dificuldade. Prece, evocação. A crise exorcizada? Américo Rodrigues o dirá, em leitura de texto de Fernando Aguiar."]

Fernando Aguiar, "Problemática da dificuldade"

Américo Rodrigues interpreta “Problemática da dificuldade” (Fernando Aguiar)

Américo Rodrigues interpreta “Problemática da dificuldade” (Fernando Aguiar) [Versão de Luís Aly]


Genealogia/derivação (História) >

"Este filme e sonoro", aparece no inicio do videopoema "Música Negativa", de Melo e Castro.

Do catalogo da exposição O caminho do leve, de E. M. de Melo e Castro:"Música negativa (1965) nada tem a ver com a valorização musical do silêncio. Tem a ver (porque é para ser vista) com a ausência do som. Começou como uma brincadeira infantil e continuou como metáfora contra a impostura do silêncio e da censura salazarista, em Janeiro de 1965, sendo uma das participações no happening organizado por Jorge Peixinho Concerto e Audição Pictórica na Galeria Divulgação, em Lisboa. Este filme foi realizado por Ana Hatherly em 1977, tendo o autor como performer."

Ler >

E. M. de Melo e Castro, depoimento sobre António Aragão, Revista Cibertextualidades 7, sobre Concerto e Audição Pictórica: "A proposta foi feita pelo músico e compositor Jorge Peixinho que numa posição interdisciplinar, contatou os poetas colaboradores da Poesia Experimental, mas também músicos como Clotilde Rosa (harpista da Orquesta Sinfónica Nacional) e Mário Falcão (multi-instrumentista da Banda da Guarda Nacional Republicana) e também o pintor Manuel Baptista. O evento realizou-se na Galeria Divulgação, no espaço onde estava patente a exposição dos nossos trabalhos experimentais, chamada VISOPOEMAS. António Aragão representou um papel que evidenciou uma outra faceta da sua múltipla personalidade: a transgressão, o humor, a denúncia e o absurdo. O Funerão do Aragal foi um momento de absoluto humor absurdo ... Ao redor de uma mesa que foi trazida já posta, com pratos de comida, sentamo-nos e começamos a comer ruidosamente, mastigando e batendo com os talheres nos pratos... ao lado da mesa foi colocado um caixão de pinho onde o Aragão se deitou. Então todos nos levantamos um a um e despejamos os restos de comida dos pratos por cima do corpo do Aragão. Seguidamente levantamos o caixão e saímos lentamente da cena enquanto se ouviam acordes da marcha fúnebre do costume. O simbolismo era evidente tendo em atenção os mortos das guerras nas colónias de África... Seguiu-se um solo da harpa ... No happenning cada participante tinha uma parte programada e outra improvisada... mas ninguém tinha a certeza do que iria acontecer, pois não conhecíamos o que cada um iria fazer. A minha participação consistia na realização do poema gestual silencioso Música Negativa, na improvisação de Foco e Barulho e na participação em várias ações espontâneas e simultâneas com as dos outros participantes. A Salette Tavares, entusiasmada, atirava rolos de papel higiénico coloridos sobre a assistência enquanto declamava a sua Ode aos Crí...Cri...Cri...Criti cus da nossa terra !!!"

E. M. de Melo e Castro, "Música Negativa" [Filme 16mm p/b, sem som]


Processo/manipulação (Kyma) >

Luís Aly: Morphing



Secção 7 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Capa do disco "desde que nasceu..."

Da biografia de aranhiças & elefantes: "Blog-grupo experimental ou paracolectivo poético ou não-movimento: um desequilíbrio de palavras, imagens e sons criado em Coimbra em Setembro de 2007. Durante o período inicial, fizeram parte do colectivo várias pessoas, tendo depois passado a ser formado exclusivamente por Bruno Ministro, Liliana Vasques e Rita Grácio. O trabalho de escrita e performance de aranhiças & elefantes centra-se numa procura da diluição da autoria individual através do “escangalhanço”. Este processo é sintetizado no blogue do seguinte modo:

  • as aranhiças, elefantes e colaboradores postam um poema
  • as aranhiças, elefantes e colaboradores escangalham* esse poema
  • a pessoa, animal ou assim-assim pega nesse poema e escangalha-o* também, e lança-o na "teia" correspondente ao post desse poema-base (que muitas vez não existe, porque já foi escangalhado* interna/anterior mente)
  • as aranhiças, elefantes, pessoa, animal ou planta voltam ou não a escangalhar* o poema-escangalhado*
  • assim sucessivamente

*ESCANGALHAR é uma técnica ancestral que consiste em alterar os poemas-base, isto é: acrescentar-lhes palavras, versos, imagens e/ou retirar-lhes palavras, versos, imagens, em suma, ESCANGALHAR é destruir e/ou (re)criar."

aranhiças & elefantes, "corrector corpográfico"


Texto-Som (Leitura) >

Rumor Branco #16 08:22 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: "A seguir, Américo Rodrigues interpreta duas Kinetofonias de Salette Tavares, “Ri m ri ri” e “Taki taki”, ambas de 1963. A palavra é tomada, na poesia experimental, como objecto multimodal. Aliando a esta verbovocovisualidade a atomização e a rarefação vocabular, temos como resultado uma aparente imperceptibilidade das origens fonéticas de toda a realidade linguística. Estes elementos mínimos da linguagem são tomados como ponto de partida para uma estetização dos próprios sons da linguagem, ganhando autonomia relativamente ao contexto maior em que se aprisionam no quotidiano. Nestes poemas, o trabalho semântico é abandonado, em detrimento do valor estético. “Ri m ri ri” e “Taki taki” pela voz de Américo Rodrigues.]

Salette Tavares, kinetofonias “Ri m ri ri” e “Taki taki”

Américo Rodrigues, “Ri m ri ri” (Salette Tavares)

Jorge dos Reis, “Ri m ri ri” (Salette Tavares)

[Performance "O leitor compulsivo de alfabetos" | Interpretação fonética dos poemas visuais de Salette Tavares, Galeria Diferença, Lisboa, 3 de Fevereiro 2011]

Américo Rodrigues, “Taki taki” (Salette Tavares)


Genealogia/derivação (História) >

Pierre Garnier, "Yamamama" [Ligação externa / External link]


Processo/manipulaçao (Kyma) >

Luís Aly: Cut-up



Secção 8 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Salette Tavares, "Parlapatisse"


Texto-Som (Leitura) >

Bruno Ministro, Parlapatisse (Salette Tavares)

Jorge dos Reis, Parlapatisse (Salette Tavares)

Nuno M Cardoso, Parlapatisse (Salette Tavares) [duas versões]


Genealogia/derivação (História) >

Brion Gysin, "I Am that I Am" [Ligação externa / External link]


Processo/manipulaçao (Kyma) >

Luís Aly: Ritmo euclidiano



Secção 9 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Salette Tavares, "Alfabeta"

Jorge dos Reis, "Alfabeta"

Ver > Jorge dos Reis, "Alfabeta" [Releitura]


Texto-Som (Leitura) >

Rumor Branco #5 03:36 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: "Américo Rodrigues, 2003, poesia sonora do disco “escatologia”. “e-qui-li-brrrrr-iô”, para voz com mão contra a garganta, em jeito de alongamento. Depois, em 2012, gravação de Delongas, de Alexandre O’neill, na Guarda, para o Arquivo Digital da Literatura Experimental Portuguesa. Experimentações sonoras que vêm, nas palavras de Melo e Castro, dos primórdios imemoriais da voz humana. A utilização do aparelho fonador e a exploração dos seus recursos. Como explicou Isou: “Destruir palavras em favor de outras palavras.” Alongamentos. Amplitude. O entendimento auditivo que cabe à poesia fonética libertar. A libertação de toda a prosa."]

Manuel Portela: "Em “e-qui-li-brrrrr-iô”, que fecha o CD, encontramos uma arte poética sobre a sua prática sonora. O ponto de equilíbrio, sempre precário, para o poeta que tritura e mastiga as palavras é também um ponto de interrogação: o ponto de interrogação que esta obra constitui como investigação das possibilidades expressivas do aparelho fonador como máquina de música e de poesia; e o ponto de interrogação sobre o seu próprio caminho e sobre as formas que nesse caminho se lhe oferecem. Outro ponto de equilíbrio é o ponto de equilíbrio entre poesia e música que Américo Rodrigues tem procurado atingir através da interpretação das suas obras num contexto de improvisação musical, em geral acompanhado por instrumentos de sopro, contrabaixo, percussão e objectos diversos. É nessa entrega à procura, nesse salto para dentro dos sons humanos, que escatologia conquista o coração e o riso de quem estiver disposto a escutar com atenção as suas modulações quase acusmáticas — não tanto por não se identificar a fonte do som, mas por nos revelar que a linguagem não é de facto um conjunto de signos vocais abstractos."

Américo Rodrigues, "E-qui-li-brrrrr-iô"


Genealogia/derivação (História) >

Ernst Jandl, "Jeeeeeeeeeeeeeesuss" [Ligação externa / External link]


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Luís Aly: Colagem



Secção 10 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


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Rui Torres: "Sobre Porta-voz, disco de poesia sonora, muito poderia (deveria) ser dito. Desde logo, o título, como em tantos outros na obra já vasta de Américo Rodrigues, assumindo um relevante papel descodificador. Porta-voz, como o enuncia qualquer Dicionário de Língua Portuguesa, refere-se àquele(a) que transporta as opiniões de outro; ou ainda, talvez até melhor neste contexto, ao megafone, instrumento que amplifica e envia a voz a longa distância. Mas existem outros substantivos semelhantes: porta-estandarte, porta-bandeira, porta-guião, porta-chapéus, etc. No caso do porta-estandarte, e a mero título de exemplo, trata-se do oficial que leva o estandarte de um regimento, em desfile. Ora, Américo Rodrigues, de facto, transporta consigo a voz como mensagem, mas também como estúdio portátil, já que a garganta não é aqui uma mera prótese.

E Voz? Voz/vox é o som produzido na laringe, pelo ar que sai dos pulmões e pela boca. É também, de acordo com a maioria dos Dicionários disponíveis: ruído, som, parte vocal de um trecho de música, faculdade de falar, grito, clamor, queixa; impulsão, movimento interior; intimação, ordem; rumor, ruído; palavra, frase. É também tudo isso a poesia sonora de Américo Rodrigues. E Porta-voz é por isso Américo Rodrigues transportando consigo a palavra, o grito e o rumor: em alta voz; ao alcance da voz; de viva voz.

Porquê o quê joga com a espacialização e temporalização sonora de um esquema verbal tipicamente combinatório, neste caso alternando “porquê” e “o quê” com “quando” e “como”. E cada fonema incluído nas palavras (monemas) é desconstruído, progressivamente, até nele ficar contido e sitiado todo o potencial articulatório da linguagem. De facto, é disso que se trata: de um poema (e de um conjunto de poemas) sobre a linguagem, que se joga contra a linguagem, pela linguagem."

Américo Rodrigues, "Porquê o quê"


Texto-Som (Leitura) >

E. M. de Melo e Castro, "Não ver"

Américo Rodrigues, [Ver/ Não ler/ Ter] (E. M. de Melo e Castro, Ideogramas, 1962)

[Visão Visual Vocal, performance de poesia sonora de Américo Rodrigues, 17 de Março de 2006, Auditório de Serralves (Porto) no âmbito da exposição O caminho do leve = The way to lightness, de E. M. de Melo e Castro]


Genealogia/derivação (História) >

Pedro Reis: "Segundo Melo e Castro (1988: 64-7), a videopoesia é uma proposta de pesquisa múltipla que proporciona a exploração das possibilidades gramaticais e comunicativas desse medium, a investigação de novas codificações para a criatividade e ainda a representação do verbo iconizado em ação espácio-temporal, o que permite afirmar que a página em branco de Mallarmé ganha um dinamismo substantivo, dispondo então a videopoesia de elementos caracterizadores específicos do vídeo como a variação cromática e o movimento autónomo das formas e das cores, a integração do som e a inter-relação espaço/tempo.

«Roda Lume», de 1969, foi o primeiro videopoema de Melo e Castro. Depois de ter elaborado poemas em materiais tangíveis (papel, mas também têxteis, plástico, madeira ou pedra), o autor resolveu explorar as potencialidades poéticas de imagens virtuais desmaterializadas, o que significa que a realização deste videopoema resultou do impulso para utilizar novos meios tecnológicos para a produção poética. A preto e branco, este videopoema consistia basicamente na animação de letras e formas geométricas previamente escritas à mão, sendo a animação feita com edição direta na câmara, registando imagem após imagem. [Um guião foi previamente elaborado com a sequência das imagens e o respetivo tempo. O som, produzido pelo próprio poeta, consistindo numa leitura improvisada das imagens, foi acrescentado posteriormente.]"

Jorge Luiz Antonio: "Este videopoema foi exibido num magazine televisivo literário, em 1969, e, segundo o autor, produziu um escândalo entre os telespectadores, tendo sido mais tarde destruído pela RTP, por ter sido considerado sem interesse. O autor guardou o guião e teve a possibilidade de construir uma nova versão em 1986. Nesta versão, de 2’58’’, a banda sonora é diferente dado que o autor, não tendo guardado nenhuma cópia da sua leitura improvisada da primeira versão, teve de elaborar uma outra procurando de memória reconstruir a primeira."

E. M. de Melo e Castro, Roteiros de "Roda Lume"

E. M. de Melo e Castro, "Roda Lume"


Processo/manipulaçao (Kyma) >

Luís Aly: PerfGranularMultigrid



Secção 11 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Capa do disco "desde que nasceu..."

aranhiças & elefantes, "alexitimia"


Texto-Som (Leitura) >

Américo Rodrigues, "We pass through grass behush the bush to. To whish!" (Ana Hatherly)

Ana Hatherly, "We pass through grass behush the bush to. To whish!"


Genealogia/derivação (História) >

Luigi Nono, "Ricorda Cosa ti Hanno Fatto in Ausschwitz" [Ligação externa / External link]


Processo/manipulaçao (Kyma) >

Luís Aly: Máquina memória



Secção 12 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Capa do disco "desde que nasceu..."

aranhiças & elefantes, "gesto cardíaco"


Texto-Som (Leitura) >

Leonor verdura: interpretação cénica de obras da poesia experimental portuguesa | Actores: Bruno Vilão e Íris Santos | Encenação: M. Almeida e Sousa | Produção: Mandrágora - Centro de Cultura e Pesquisa de Arte | Imagem (vídeo): Bruno Corte Real | Som: Ricardo Mestre

Mandrágora

Leonorama variação XI - Ana Hatherly [start: 02:54]

Pêndulo - E. M. de Melo e Castro


Genealogia/derivação (História) >

Die Schwindlinge, "What a B" (Kurt Schwitters) [Ligação externa / External link]


Processo/manipulaçao (Kyma) >

Luís Aly: Harmónicos



Secção 13 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Fernando Aguiar (performance na Galeria dos Prazeres, 2011)

  • Malabarismo [start: 07:02]
  • Os talismãs de Wolf Vostell [start: 08:58]
  • Soneto irado [start: 10:20]
  • Problemática da dificuldade [start: 11:22]
  • Negação do ser e Afirmação do ser" (Da série "Ser ou não ser") [start: 13:10]


Texto-Som (Leitura) >

Rumor Branco #14 07:45 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: "Américo Rodrigues interpreta “Telegramando” e Nuno M Cardoso “Câmara Municipal do Funchal”, ambos de António Aragão. A literatura experimental subscreve a conceituação proposta por Arnaldo Saraiva: tal como outras literaturas orais e não-oficiais, é marginal, e marginalizada. Quebra com as convenções poéticas dominantes e oficiais. Apropria-se das técnicas mediáticas, desaparelhizando-as. Dessacralização é o que igualmente está patente em toda a obra do grande poeta António Aragão. Uma poesia marginal izada, porque incapaz de se enquadrar nos formatos definidos pelo marketing literário. Poesia de invenção que utiliza técnicas de mediação da burocracia. A burro-cracia! Apropriação, recriação dos aparelhos construídos pela sociedade do consumo. A utilização do telegrama, no caso da leitura de Américo Rodrigues, primeiro. E, depois, do aviso camarário, por Nuno M Cardoso."]

“Telegramando” e “Câmara Municipal do Funchal”, de António Aragão

Américo Rodrigues, “Telegramando” (António Aragão)

Nuno M Cardoso, “Câmara Municipal do Funchal” (António Aragão) [duas versões]


Genealogia/derivação (História) >

John Cage, "Williams Mix" [Ligação externa / External link]

Williams Mix (1951–1953) é uma composição de John Cage para oito fitas magnéticas de um quarto de polegada, tocadas simultaneamente. Primeiro exemplo de música octofónica, criada com colaboração de Earle Brown, Morton Feldman, and David Tudor, usando materiais gravados por Louis e Bebe Barron, organizados em seis categorias: cidade, campo, electrónica, produzidos artesanalmente, vento, e outros micro-sons. A pauta tem 193 páginas, "a full-size drawing of the tape fragments, which served as a 'score' for the splicing" (James Pritchett).


Processo/manipulaçao (Kyma) >

Luís Aly



Secção 14 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Itinerário do Sal [Op-ErA, Miso Ensemble] | Miso Records 2008, Miguel Azguime - performer, composição, concepção e textos; Paula Azguime - desenho de som e electrónica em tempo real, concepção, vídeo e encenação; Andre Bartetzki e Perseu Mandillo. Concebida entre 2003 e 2006, prémio Music Theatre Now Competition na categoria Other Forms Beyond Opera atribuído pelo International Theatre Institute. Centro de Cultural de Belém 21 e 22 de Outubro de 2006, Miso Music Portugal - Festival Música Viva 2006.

Das 'liner-notes' do DVD: "Itinerário do Sal é a concretização de um trabalho de criação sobre a escrita: sobre a escrita musical, sobre a escrita poética, sobre a escrita gestual do músico/actor e da sua própria imagem, onde a voz é o prolongamento do corpo e do pensamento do poeta. Eis, portanto, a simbiose entre a essência da palavra e a evolução do Ser, apresentada na forma de uma nova dramaturgia designada por Ópera Electroacústica. No palco, o compositor e o poeta, juntos, num só, conduz-nos através do seu mundo interior, do seu itinerário pessoal a que chama de Sal - o mesmo Sal que representa a sua resistência, a sua vontade, a sua essência e a sua multiplicidade. O Sal (substância fundamental) que nos surge também como manifestação de conhecimento e de sabor; o itinerário que é decerto o do criador, mas que é também e simultaneamente a imagem e à imagem de tantos outros itinerários, caminhos, trocas, inspirações, demandas..."

Miguel Azguime, Itinerário do Sal / Epílogo do Sal

Miguel Azguime:

"Sobre voar de vez de ver de voz
Ocultar o silêncio no espelho do sal
Que sol nos traz o sal
Que sal nos traz o som
Que som nos deixa a sul
Que sul pelo eixo do rumo
SOLta
SALta
SOMa
SULca
tataaca...
taacata...
tatacaa...
cataata...
Em sal de si de se de lho
De cio lento de som de ção
Culto de voz de ver de vir
De ços de pá de se de sias
De traves pasmas de luz a sul"


Texto-Som (Leitura) >

Leonor verdura: interpretação cénica de obras da poesia experimental portuguesa | Actores: Bruno Vilão e Íris Santos | Encenação: M. Almeida e Sousa | Produção: Mandrágora - Centro de Cultura e Pesquisa de Arte | Imagem (vídeo): Bruno Corte Real | Som: Ricardo Mestre

Mandrágora

Ver & papa - Abílio-José Santos [start: 13:30]

Telegramando - António Aragão [start: 14:07]

O menino ivo - Salette Tavares [start: 16:21]

Velegrama - Álvaro Neto (Liberto Cruz) [start: 20:59]


Genealogia/derivação (História) >

Paulo Autran, "Ode Triunfal" (Álvaro de Campos/Fernando Pessoa) [Ligação externa / External link]:

"Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ônibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!"


Processo/manipulaçao (Kyma) >

Luís Aly



Secção 15 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Rumor Branco #7 05:08 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: "Miguel Azguime, em excertos seleccionados de Itinerário do Sal, de 2007. Itinerário do Sal, de Miguel Azguime, publicado em CD e contendo ainda um filme em DVD, é sobre a linguagem, no sentido duplamente conceitual (do significado) e da impressão acústica (do significante). A voz, bem como a música que resulta do seu processamento, e a encenação que deriva da sua relação com o corpo, tornam-se o signo a explorar. Um exemplo da “hibridez intermédia tornada possível pela actual tecnologia digital”, como explica Manuel Portela. Com recurso ao processamento electrónico em tempo real, Azguime projecta a voz e a poesia numa convergência associativa imagética que, num mesmo tempo, é multimodal e indeterminada. Uma experiência sinestésica. Como reflexão acerca do papel da notação na escrita musical e poética, esta Ópera Electroacústica torna-se convulsão meta-sonora, indagação acerca do papel da arte no nosso tempo. No tema que dá título ao disco, “Mapas de travessias” do sol, do sal, do som e do sul."]

Itinerário do Sal [Op-ErA], Miso Ensemble, 2003-2008

Das 'liner-notes' do DVD: "A primeira parte, aborda a questão da ausência do autor enquanto desdobramento e deslocação da sua personalidade criadora e põe em cena a própria cena. A segunda parte é dominada pela pesquisa do gesto da escrita interpretado como gesto instrumental e portanto musical. No fundo do gesto de escrever está o som da palavra. A palavra subordinada à vida. A palavra liberta da palavra. A terceira parte dá corpo à palavra e dá-lhe imagem. A partitura do poema compõe o tempo."

Miguel Azguime, “O Ar do Texto" e "O Som Interior” (vídeos); "O ar do texto opera a forma do som interior" (Audio)


Texto-Som (Leitura) >

Leonor verdura: interpretação cénica de obras da poesia experimental portuguesa | Actores: Bruno Vilão e Íris Santos | Encenação: M. Almeida e Sousa | Produção: Mandrágora - Centro de Cultura e Pesquisa de Arte | Imagem (vídeo): Bruno Corte Real | Som: Ricardo Mestre

Mandrágora

Sentado quo - António Dantas [start: 23:36]

To be or net to be - António Dantas [start: 23:44]

Carta tipo X - César Figueiredo [start: 26:29]

Bicicleta & guarda-chuva - M. Almeida e Sousa [start: 29:56]

[https://mandragora79.wordpress.com/2012/04/]


Genealogia/derivação (História) >

Gravado em 2002 nos Estúdios de Música Electrónica da Universidade de Edimburgo / Estúdio privado do compositor [http://www.mic.pt:8080/cimcp/dispatcher?where=2&what=2&show=1&obra_id=585&lang=PT]

Pedro Rebelo: "Tabacaria [boxed] (2002) é uma performance multimédia elaborada para o Projekt Pessoa (Viena), um projecto de teatro-música que tem como ímpeto a natureza heterónima do trabalho de Fernando Pessoa. Este aspecto da obra do poeta foi explorado com referência a noções de fragmentação, multiplicidade e ruptura que estão na base do design, programação e estrutura do evento. A performance de Tabacaria tem precisamente esta papel de fragmentação, num ambiente de concerto/teatro composto de encenação de excertos de textos de Pessoa com obras de Alexander Stankovski, Germán Toro-Pérez e João Pedro Oliveira. Tabacaria [boxed] é uma versão para CD que utiliza como fontes sonoras a gravação por João Villaret do poema de Pessoa tal como extractos das três obras do Projekt Pessoa. Os materiais utilizados como base para improvisação na performance Tabacaria são aqui re-contextualizados de forma a derivar da estrutura do texto e sua leitura, o contorno da simultaneidade sonora."

Pedro Rebelo, "Tabacaria (Boxed)" (Electronic Music from Portugal) [Excerto]

Álvaro de Campos, TABACARIA

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Ler > http://arquivopessoa.net/textos/163


Processo/manipulaçao (Kyma) >

Luís Aly



Secção 16 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Interlúdio

António Aragão (autor do poema sonoro Povo/Ovo, de que não parece haver registo): "a poesia começa onde o ar acaba. é qualquer coisa para depois da própria respiração. como o respirar é muito uma maneira nossa e (pre)vista da condição humana a que somos condenados, a poesia surge a partir desta condenação. mais justo ainda, a partir de toda a condenação. deste modo, só nos resta a queda no irremediável: a vertigem sem apelo, o jogo sem olhos, a ausência impecável de nós. daí o repúdio do lirismo e duma semântica convencionada à escala dos pessoaos (des)gostos mais ou menos audíveis. daí a ambiguidade cómico-dramática em que nos assistimos. nenhuma ordenação é possível. nenhum suspiro pode já (co)mover. em vez de celebrar normas e preceitos que actuam na mediocridade da sujeição, procuramos, mais exactamente, descobrir o belíssimo caos de nós próprios. antes o indefinido do que ser reduzido ao absoluto infrutescente da indefinição. antes o encontro com o desordenado, num conflito sem génese nem juízo final, para atingir o risco de estarmos livres mesmo no discurso do desentendimento. um poema deve ser usado como um instrumento feiticista e consome-se em si numa espécie de ludus encantatório. por isso se dão nomes à matéria: inventa-se e destrói-se para que ela viva a sua tremenda metamorfose, a poesia deve ser tomada por todos os sentidos: quando verbal não deixará também de ser contra o verbo. queremos uma poesia que não explique conteúdos mas forneça estados: donde uma linguagem negra, ausência de estilo e o ataque à fraude da limitação: poesia-contra, poesia-recusa-que-acusa, poesia contra o instituído, o legal, o ordenado e convencional. poesia da liberdade por estarmos demasiadamente perdidos no cúmulo da condenação."

Poesia sonora interactiva (2005), E. M. de Melo Castro, em parceria com Joaquim Pedro Jacobetty: "Na "terra-de-ninguém" entre a poesia escrita e a música, a poesia sonora faz a recuperação da oralidade total. Nesta exposição apresenta-se pela primeira vez a poesia sonora interactiva: o visitante, através do movimento do corpo ou de dois teclados, poderá controlar e ouvir combinações de fonemas ou palavras num espaço acústico múltiplo que se espera produza ainda mais possibilidades de encadeamentos."



Secção 17 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]

Outro(duction)

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