Secção 3 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Rumor Branco #6 03:52 (m)

[Nuno M Cardoso lê texto de Rui Torres: "Américo Rodrigues, 2003, poesia sonora do disco “escatologia”. “ões”, para voz, batata frita e camões, em memória de Phidalelpho Menezes, entretanto falecido. A prosódia conversacional como ponto de partida para a declaração de independência dos intérpretes. A interrupção, o erro, denúncia de todas as falácias de leitores e diseurs constrangidos pelos bons costumes. Contra a norma, pela forma."]

Manuel Portela: "O seu repertório de tons e registos inclui a ironia, a indignação, a ternura, a tragédia, a comédia. Neste efeito de tensão entre significação e expressão, Américo Rodrigues consegue elevar a expressividade auto-referencial dos poemas a regiões inteiramente vedadas aos poetas que confiam na palavra dada e se submetem ao seu universo concentracionário. A nudez do seu solo quase absoluto permite-lhe criar um sujeito que passa quase incólume pelo sofrimento e pela mentira infligidos pelas palavras, e faz explodir a loucura que há na linguagem. A primeira e a última faixa definem exemplarmente o seu propósito. Em “ões”, que abre o CD, Américo Rodrigues tenta ler repetidamente a primeira estância de Os Lusíadas, enquanto mastiga batatas fritas, uma brutal evocação da limpeza cerebral que a dieta literária escolar pode constituir. Palavras e batatas fritas misturam-se na boca revelando a idêntica ordem de materialidade que as constitui e, ao mesmo tempo, a interiorização dos significantes/significados como alimento produtor da subjectividade. Que o acto de ler com a boca cheia resulte na distorção dos sons tem o efeito hilariante de desmistificar por completo a fast food camoniana e a utilização ideológica da linguagem."

[Lembrar: Philadelpho Menezes, “Poema sonoro para sarau”, a partir da declamação de um poema de Carlos Drummond de Andrade. O experimentalismo poético baseado na voz humana, e suas possibilidades expressivas. Do Brasil, 1996, a variação da oralidade, a entonação da fala, a linguagem poética universal, a leitura como problema. Da manifestação acústica da articulação vocal para a ironia, condição fundamental de toda a deconstrução. Engenharia de som de Milton Ferreira.]

Américo Rodrigues, “ões”


Texto-Som (Leitura) >

Velegrama, de Álvaro Neto

Rui Torres: Certos regimes de remistura e apropriação tecnológica são frequentes na PO.EX. No texto "Velegrama", Álvaro Neto/Liberto Cruz substitui as consoantes iniciais das palavras de uma comunicação telegramática pela letra V, sugerindo desse modo a velocidade de transmissão que caracteriza o meio, ao mesmo tempo que cria uma situação sonora que exige, para a sua leitua, uma articulação fonética de grande perícia. Assim, a consoante V, ao ser introduzida como elemento de entropia negativa no telegrama, sugere, por um lado, visualmente, a velocidade, mas, por outro, introduz um uma espécie de travão nessa mesma velocidade, pois ao iniciar a leitura, sonoramente, há uma quase necessidade de a atrasar. Escrito em maiúsculas e assinado como Viverto Vruz, lê-se, a título ilustrativo: "VONS VONVEIROS VOLUNTÁRIOS VELEM VINGUÉM VOSSA VONVA". Os intervalos são assinalados com um "VTOP", e termina de um modo elegíaco e irónico: "VIVA VATRIA VIVA VOVO VIVA VORTUGAL".

Américo Rodrigues, "Velegrama" (Álvaro Neto)


Genealogia/derivação (História) >

John Cage, "Writing for the Second Time Through Finnegans Wake" [Ligação externa / External link]


Processo/manipulação (Kyma) >

Luís Aly: Extracção