Secção 10 >

ARQUIVO É ANARQUIVO! [FortunAly]


Som-Texto (Poema sonoro) >

Rui Torres: "Sobre Porta-voz, disco de poesia sonora, muito poderia (deveria) ser dito. Desde logo, o título, como em tantos outros na obra já vasta de Américo Rodrigues, assumindo um relevante papel descodificador. Porta-voz, como o enuncia qualquer Dicionário de Língua Portuguesa, refere-se àquele(a) que transporta as opiniões de outro; ou ainda, talvez até melhor neste contexto, ao megafone, instrumento que amplifica e envia a voz a longa distância. Mas existem outros substantivos semelhantes: porta-estandarte, porta-bandeira, porta-guião, porta-chapéus, etc. No caso do porta-estandarte, e a mero título de exemplo, trata-se do oficial que leva o estandarte de um regimento, em desfile. Ora, Américo Rodrigues, de facto, transporta consigo a voz como mensagem, mas também como estúdio portátil, já que a garganta não é aqui uma mera prótese.

E Voz? Voz/vox é o som produzido na laringe, pelo ar que sai dos pulmões e pela boca. É também, de acordo com a maioria dos Dicionários disponíveis: ruído, som, parte vocal de um trecho de música, faculdade de falar, grito, clamor, queixa; impulsão, movimento interior; intimação, ordem; rumor, ruído; palavra, frase. É também tudo isso a poesia sonora de Américo Rodrigues. E Porta-voz é por isso Américo Rodrigues transportando consigo a palavra, o grito e o rumor: em alta voz; ao alcance da voz; de viva voz.

Porquê o quê joga com a espacialização e temporalização sonora de um esquema verbal tipicamente combinatório, neste caso alternando “porquê” e “o quê” com “quando” e “como”. E cada fonema incluído nas palavras (monemas) é desconstruído, progressivamente, até nele ficar contido e sitiado todo o potencial articulatório da linguagem. De facto, é disso que se trata: de um poema (e de um conjunto de poemas) sobre a linguagem, que se joga contra a linguagem, pela linguagem."

Américo Rodrigues, "Porquê o quê"


Texto-Som (Leitura) >

E. M. de Melo e Castro, "Não ver"

Américo Rodrigues, [Ver/ Não ler/ Ter] (E. M. de Melo e Castro, Ideogramas, 1962)

[Visão Visual Vocal, performance de poesia sonora de Américo Rodrigues, 17 de Março de 2006, Auditório de Serralves (Porto) no âmbito da exposição O caminho do leve = The way to lightness, de E. M. de Melo e Castro]


Genealogia/derivação (História) >

Pedro Reis: "Segundo Melo e Castro (1988: 64-7), a videopoesia é uma proposta de pesquisa múltipla que proporciona a exploração das possibilidades gramaticais e comunicativas desse medium, a investigação de novas codificações para a criatividade e ainda a representação do verbo iconizado em ação espácio-temporal, o que permite afirmar que a página em branco de Mallarmé ganha um dinamismo substantivo, dispondo então a videopoesia de elementos caracterizadores específicos do vídeo como a variação cromática e o movimento autónomo das formas e das cores, a integração do som e a inter-relação espaço/tempo.

«Roda Lume», de 1969, foi o primeiro videopoema de Melo e Castro. Depois de ter elaborado poemas em materiais tangíveis (papel, mas também têxteis, plástico, madeira ou pedra), o autor resolveu explorar as potencialidades poéticas de imagens virtuais desmaterializadas, o que significa que a realização deste videopoema resultou do impulso para utilizar novos meios tecnológicos para a produção poética. A preto e branco, este videopoema consistia basicamente na animação de letras e formas geométricas previamente escritas à mão, sendo a animação feita com edição direta na câmara, registando imagem após imagem. [Um guião foi previamente elaborado com a sequência das imagens e o respetivo tempo. O som, produzido pelo próprio poeta, consistindo numa leitura improvisada das imagens, foi acrescentado posteriormente.]"

Jorge Luiz Antonio: "Este videopoema foi exibido num magazine televisivo literário, em 1969, e, segundo o autor, produziu um escândalo entre os telespectadores, tendo sido mais tarde destruído pela RTP, por ter sido considerado sem interesse. O autor guardou o guião e teve a possibilidade de construir uma nova versão em 1986. Nesta versão, de 2’58’’, a banda sonora é diferente dado que o autor, não tendo guardado nenhuma cópia da sua leitura improvisada da primeira versão, teve de elaborar uma outra procurando de memória reconstruir a primeira."

E. M. de Melo e Castro, Roteiros de "Roda Lume"

E. M. de Melo e Castro, "Roda Lume"


Processo/manipulaçao (Kyma) >

Luís Aly: PerfGranularMultigrid