ARQUIVO VIVO É ANARQUIVO!

[Sessão #01 - 3 Janeiro 2015]

Texto-Imagem [Labirintos, Anagramas, Poesia Visual, Electrografia].

Rui Torres: Apresentação, textos e selecção de poemas | Ana Carvalho: Manipulação audiovisual com Modul8 & botabaixo.js (Nuno F Ferreira) | Luís Aly: som e manipulação sonora | Luís Grifu: gravação audiovisual | Thanks to Retroescavadora.

Apresentação de obras dos seguintes Autores: Abílio-José Santos, Américo Rodrigues, Ana Hatherly, Antero de Alda, António Aragão, António Barros, António Dantas, António Nelos, César Figueiredo, E. M. de Melo e Castro, Emerenciano, Fernando Aguiar, Jorge dos Reis, José-Alberto Marques, Manuel Portela, Pedro Barbosa, Salette Tavares

@ Livraria Gato Vadio, Porto. 3 Janeiro 2015 17h00


Imagens da apresentação/intervenção >

Ana Carvalho e Rui Torres. Fotos cortesia de Cristina Rocha.


Imagens registando o acesso ao ARQUIVO VIVO É ANARQUIVO! após activação de scripts programados por Nuno Ferreira: botabaixo.js, fuzzyme.js e fademe.js

Veja mais imagens em > Botabaixo, FadeMe, FuzzyMe [Scripts para manipulação do PO-EX.NET], por Nuno Ferreira


[Registos em vídeo brevemente disponíveis]


 

PO.EX - POesia EXperimental - Termo proposto por E. M. de Melo e Castro para enquadrar as actividades de autores portugueses ligados à poesia visual, sonora e concreta dos anos 1960 a 1980.

Cronologia da PO.EX (por E. M. de Melo e Castro); seguida de sumários das principais revistas e exposições >

Cronologia/timeline da PO.EX (po-ex.net)


Experimentalismo literário: mais do que um período literário específico, apresenta-se, ao longo da história da literatura, de um modo cíclico.

Práticas expressivas que se centram na materialidade significante e nos processos de semiose literária.

História por fazer. Ana Hatherly: uma “causa ingrata” (1985: 15). Os poetas, principalmente entre 1960 e 1990, acabam por assumir a função de persistente activismo e disseminação.

CD-ROM da PO.EX com Revistas da Poesia Experimental > http://po-ex.net/evaluation


Hoje: sociedade em rede, efemeridade e multimedialidade integradora dos fluxos de informação.

Poesia experimental: actualidade, pertinência. Muitas das operações que a máquina literária digital apresenta, encontravam-se em práticas poéticas precedentes. Colagens, espacialização visual dos significantes, escrita automática, procedimentos de permutação (Reis, 2009; Drucker, 2005).

PO.EX: “um acto de rebeldia contra um status quo… [e] um questionar profundo da razão de ser do acto criador e dos moldes em que ele vinha sendo praticado” (Hatherly, 1985: 15).

Ainda Hatherly, sintetizando: “a acção dos seus divulgadores contribuiu para uma atitude de reavaliação e renovação do texto literário, quer do ponto de vista da produção quer do ponto de vista da análise crítica” (1985: 15).

Poeprática: “[h]ouve uma POEPRÁTICA.... (...) textos / objectos / intervenções possuíam, eles mesmos, uma componente teórica implícita" (José-Alberto Marques, in Poemografias 1985: 89). Uma poeprática de “poetas-teorizadores” (Hatherly, 1981: 146).

Superação dos limites da teorização dos géneros. “Atitude transgressora face a convenções dominantes e gramáticas específicas” (Reis, 2005: online).

O texto como problema: E. M. de Melo e Castro, A revolta do texto [in As palavras só-lidas. Lisboa: Livros Horizontes, 1980].


 

Américo Rodrigues:


Cruzando a teorização de Arnaldo Saraiva para o estudo das literaturas marginais (1980) com a PO.EX...

A poesia experimental (concreta, visual, sonora ou cibernética), rompendo com “a literatura dominante, oficial, consagrada, académica e mesmo clássica” (Saraiva, 1980: 5), não peca por “menos estruturação, menos elaboração estética, menos conceptualização, ou menos ambição cultural” (1980: 5).

A PO.EX é marginal e marginalizada por razões de “ideologia literária” e de “economia do mercado editorial” (Saraiva, 1980: 6).

O experimentalismo promove “o desrespeito das leis clássicas, [propondo] a novidade nas técnicas ou nos motivos, a contaminação dos géneros, (...) a complicação estrutural” (Saraiva, 1980: 6).

O marketing literário não o legitima, pois não o consegue compartimentar nos formatos convencionados pelo mercado.

A poesia experimental é publicada em folhetos, catálogos, registos de acontecimentos, graffitis, fotocópias, objectos, jardins. Ver:


:: poetas paulistas :: deu-se por encerrado, a partir dos anos 1950, “o ciclo histórico do verso enquanto unidade rítmico-formal” (Campos, Pignatari e Campos, 1965: 154).

A “renovação da comunicação literária” e a consequente “desmontagem do discurso do poder instituído” (Reis, 2005: online).

E. M. de Melo e Castro, em A Proposição 2.01--Poesia Experimental (pp. 35-36), considera serem oito os modos de produção experimental:

  • Visual
  • Auditiva
  • Táctil
  • Respiratória
  • Linguística
  • Conceptual e matemática
  • Sinestésica
  • Espacial

A PO.EX opõe-se ao sentimentalismo e ao discursivismo da poesia tradicional em geral; a PO.EX rejeita a rigidez da métrica e da rima; etc. (Melo e Castro & Hatherly, 1981: 26-27).

A PO.EX também se demarca, por outro lado, de outros movimentos de base concretista, ao aliar-se, por exemplo, às experiências com os computadores e com a poesia combinatória, à performance e ao happening, entre outros.

Demarcação teórica da PO.EX; seguida de 4 esquemas teóricos >

O poeta volta-se para a materialidade sígnica: compreende que a escrita é um desenho de letras e de símbolos.

A escrita é um sistema de notação que põe em crise a própria linguagem.

Subvertendo a escrita e as suas estruturas lógicas e psicológicas, contribuem para a desagregação das estruturas ideológicas de uma sociedade marcada pela revolução industrial e electrónica, pela teoria da informação e da cibernética, trabalhando a palavra como material de composição verbal, sonoro e visual.


Alfredo Bosi:

  • nível semântico: ideograma, apelo à comunicação não-verbal, comunicação polissémica, absurdo.
  • nível sintáctico: atomização, justaposição, redistribuição dos elementos, sintaxe espacial e icónica.
  • nível lexical: substantivos, neologismos, termos pluri-linguísticos.
  • nível morfológico: desintegração do sintagma, separação de prefixo e sufixo, desconstrução ao nível dos morfemas.
  • nível fonético: figuras de repetição (aliteração, rimas internas), jogos sonoros.
  • nível tipográfico: abolição do verso, não-linearidade, uso construtivo de espaço em branco, ausência de sinais de pontuação, constelações e sintaxe gráfica.

 

Estabelecimento de uma tradição de poesia inovadora (ou de inovação) que permitisse identificar certas coordenadas históricas da visualidade: a procura do visual e do figurativo na história da literatura.

Objectivo: recuperar textos que não eram considerados literários pela crítica oficial, considerada conservadora por estes poetas.

A identificação desta tradição visual cria um certo sentido de continuidade das vanguardas.


Ana Hatherly, em A experiência do prodígio (1983), recolhe textos que contrariam a tendência de alguns historiadores para localizar o aparecimento da poesia visual no início do século XX, com as parole in libertà dos futuristas ou os poemas-colagem dos dadaístas.

Essa Antologia de textos visuais dos séculos XVII e XVIII inclui obras disponíveis na Biblioteca Nacional da Ajuda, Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora, Biblioteca Nacional de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo e Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

  • Labirintos de Letras
  • Labirintos Cúbicos
  • Labirintos de versos
  • Acrósticos
  • Anagramas
  • Cronogramas
  • Emblemas
  • Empresas
  • Enigmas
  • Escrita Ropálica
  • Texto-Amuleto
  • Ecos
  • Centão
  • Lipogramas
  • Versos de Cabo Roto

Uma cronologia com "séculos de experiência de textos-imagens (...) além de todos os outros textos e objectos poemáticos identificáveis como tal." (1981: 141)

Antecedentes da Poesia Visual: idealizações e realizações remotas; pioneiros e precursores; antecedentes estéticos e materiais da poesia experimental. Incluem-se nesta categoria os textos visuais dos séculos XVII e XVIII - Labirintos, Acrósticos, Anagramas e Cronogramas; mas também alguns textos do futurismo e dadaísmo que tendiam para a visualidade.

Labirintos Cúbicos (Fig. 19 a 26) >

Acrósticos, Anagramas e Cronogramas (Fig. 32 a 64) >

+ Antologia de textos visuais dos séculos XVII e XVIII, org. Ana Hatherly


Além deste levantamento histórico, também a recuperação de uma tradição se constitui como uma releitura.

Inscreve-se numa “culturmorfologia” em que passado e presente se ligam, como explica Haroldo de Campos (1965: 24).

Reavaliar a tradição: “se para uns a tradição existe e deve ser imitada, para outros, se existe é para ser reinventada” (Hatherly, 1985: 17).


Livro III - Leonorana (1965-70), Trinta e uma variações temáticas sobre o mote de um vilancete de Luís de Camões >

+ em Anagramático, Ana Hatherly >




 

Um dos primeiros sinais que a poesia visual comunica é a disposição gráfica dos significantes na página.

A espacialidade na organização do poema - a que Eugen Gomringer chamou de “constelação” - integra-se nas poéticas concretistas de rarefação da palavra.


Homeóstatos, José-Alberto Marques >


 

Releitura: http://www.po-ex.net/homeostatos/


Poesia Visual - Forma de poesia baseada na dissolução das fronteiras entre géneros literários e visuais, passando o poema a ser uma entidade híbrida e intermédia, desse modo superando a exclusividade da linguagem verbal e dos elementos tipográficos, e promovendo a sua articulação com elementos visuais e plásticos.


A reinvenção da leitura [19 textos visuais], Ana Hatherly


Algorritmos: infopoemas, E. M. de Melo e Castro


Ideogramas, E. M. de Melo e Castro


Visão Visual Vocal, Américo Rodrigues


Pode-se escrever com isto, E. M. de Melo e Castro


Lidança, Abílio José Santos



Os olhos que o nosso olhar não vê, Fernando Aguiar


Imaginando la poética, Fernando Aguiar


Escripinturas & Poesia Visual, Emerenciano


Poesia gráfica, Salette Tavares


 


Os bancos: antes da nacionalização, António Aragão


Metanemas, António Aragão


Terra beirã, terra tipografada, Jorge dos Reis


Poesia encontrada, António Aragão (+ releitura AS, PHP, RSS :: Poemas encontrados )


Corresponderá exactamente a cada nível do pensamento uma classe social?, Antero de Alda


Poemas visuais, António Nelos


Nuvens no vale [Excertos], José-Alberto Marques


PROGESTOS_OBGESTOS, 1972-2012, António Barros

Revolução

Escravos


Cras! Bang! Boom! Clang!, Manuel Portela


O dedo: poema em 22 andamentos, Fernando Aguiar


 

A poesia de inovação procura empregar todas as técnicas ao seu alcance para aumentar os níveis de informação e diminuir a redundância.

O leitor é forçado a procurar, no intrincado do texto, os limites da significação.

Contrapondo a sua voz aos meios de comunicação de massa, a ênfase da poesia experimental é colocada nas estruturas criativas e complexas, distinguindo assim o artístico do ritual, o novo do banal.


Para António Aragão, a tecnologia e a máquina devem ser usadas como campo para testar os limites do conhecimento e da criatividade: "it is appropriate to question when the total use of the freedom of expression will emerge through all the means that current technology makes possible. (...) Let us say here that this has nothing to do with admiring the new machines, but with using current technology to create" (Aragão, 1990: 80).

As electrografias de A. Aragão, A. Dantas, A. Nelos e César Figueiredo, entre outros, inscritas no âmbito internacional da copy-art, apresentam conjuntos de situações narrativas que são sujeitos a progressivas deformações e alterações.

A manipulação do texto e da imagem, com recurso à fotocopiadora, atribui um sentido estético à textura e à superfície de inscrição.

Através de processos de deformação obtidos pelo movimento da folha no contacto com a superfície de digitalização da fotocopiadora, faz acompanhar a manipulação visual das imagens com a progressão narrativa do texto que as acompanha.

Assim, a componente verbal é sujeita a um progressivo processo de distorção, de forma que acaba sendo o próprio discurso do poder que se revela em toda a sua prepotência.

Não é apenas o dispositivo maquínico que é apropriado para fins criativos, mas o próprio formato estandardizado do modelo textual da comunicação de massas que é vertido em grelha visual de uma comunicação poética.

Esta apropriação dos modelos da comunicação (telegramas, cartas comericias, etc), através da supressão e alteração de certos elementos constituintes dos respectivos formulários, bem como pelo preenchimento dos campos com recurso a uma linguagem simultaneamente lírica e irónica, provoca efeitos de estranhamento no leitor e, dessa forma, rompe com a fronteira frágil entre arte e vida, real e ficção.


De Aragão: Câma Minicipal do unhal - MÁGUAS - AVISO | posto de Cá ais | Câma Minicipal do unhal - Ao VISO | istória dos soldadinhos [In P(R)O(BL)EMAS VISÍVEIS (ao longo do livro)], in Mais exactamente p(r)o(bl)emas (1968)


Velegrama :: Álvaro Neto, Antologia da Poesia Concreta em Portugal (1973). Leitura por Américo Rodrigues (Guarda, 2011-04-30, 1:33).


António Aragão, Telegramando [Suplemento do Jornal do Fundão. Org. E. M. de Melo e Castro. Fundão, 1966].


24 cartas comerciais tipo, César Figueiredo


Electrografia 1, António Aragão


Electrografias e outros trabalhos dispersos, António Dantas


Olho por olho dente por dente, António Nelo


Electrografias, António Nelos


From the Desk + From the Office, César Figueiredo