Que história podemos, aqui, apresentar? A que história nos dá acesso o Arquivo Digital da PO.EX?

Desde logo, a confiança e o orgulho de termos, entre nós, portugueses, verdadeiros pioneros, a nível internacional, de um campo de estudo e criação em evidente crescimento: Pedro Barbosa, Ernesto de Melo e Castro, Silvestre Pestana.

Primeiro, vieram as notícias: o relato de Fernando Namora informando acerca dos primeiros poemas cibernéticos do Couffignal; os textos de António Aragão e Herberto Helder sobre as experiências de Ballestrini.

Diga-se pois que a revista «Poesia Experimental», arauto da poesia concreta e visual portuguesa, teve inicialmente como intuito, pelo menos pelo relato de Aragão, a publicação de textos combinatórios e computacionais...

Aragão esteve efectivamente com Balestrini (notícia «A arte como campo de possibilidades», 7-8-1963).

Relato de Pedro Barbosa sobre a obra de Angel Carmona (in «Percursos textuais», p. 125) e sobre Fernando Namora [Diálogo em Setembro].

Herberto Helder, no posfácio de Electronicolírica, apresentou também essas experiências de Balestrini, em 1961, com computadores, dizendo: Balestrini, “escolhendo alguns fragmentos de textos antigos e modernos, forneceu-os a uma calculadora electrónica que, com eles, organizou, segundo certas regras combinatórias previamente estabelecidas, 3002 combinações, depois seleccionadas”.

Também textos como os d’“A Máquina de Emaranhar Paisagens”, onde Helder combina livremente fragmentos dos livros do Génesis e do Apocalipse, mas também fragmentos de François Villon, Dante, Camões e do próprio; ou o Húmus, escrito a partir de “palavras, frases, fragmentos, imagens, [e] metáforas” da obra homónima de Raul Brandão, se inserem no conjunto de textos experimentais que encenam a transformação e a devoração da tradição.

Em «Electronicolírica», por exemplo, Helder utiliza processos combinatórios, inter e intra-textuais, de grande complexidade. E explica que o seu método de criação poética é estimulado por um processo de transferência e de combinatória de que resultara uma semelhança com “certos textos mágicos primitivos, a certa poesia popular, a certo lirismo medieval”, criando uma peculiar “fórmula ritual mágica, de que o refrão popular é um vestígio e de que é vestígio também o paralelismo medieval, exemplificável com as cantigas dos cancioneiros”. Helder acaba por concluir que “[o] princípio combinatório é, na verdade, a base linguística da criação poética”.

Pedro Barbosa, a partir de 1976, motivado por um curso de Linguística computacional leccionado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto por Óscar Lopes, realizou as primeiras experiências com texto combinatório automático no Laboratório de Cálculo Automático (LACA) da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Para a realização destes textos virtuais, Pedro Barbosa contou com a colaboração do Engenheiro Azevedo Machado, do LACA. Deste trabalho conjunto resultaram os programas Permuta e Texal, actualmente ilegíveis por se encontrarem obsoletos. O sistema computacional do LACA utilizava como linguagens de programação Fortran, Algol, Neat, Basic e BCPL. Como explica Azevedo, “[o]s programas são perfurados em máquinas (…) ou perfuradores de cartões (…) situados em sala anexa à do computador” (qtd. in Barbosa, A Literatura Cibernética 1 154). O programa Permuta, de Janeiro de 1976, e o programa Texal, de Maio de 1976 mas reformulado em Junho de 1978, constituem a base da máquina literária em busca do texto automático de que fala Barbosa, o primeiro ajudando na procura de uma máquina lírica, o segundo de uma máquina narrativa (A Literatura Cibernética 2).

Os trabalhos de Herberto Helder foram expandidos por Pedro Barbosa (1950-) em algumas das experiências iniciais que desenvolveu com poesia generativa.

A combinatória de que deriva a literatura gerada por computador inscreve-se numa tradição que percorre a história da literatura. Em Portugal, ela foi ainda experimentada, de um modo pré-informático, nos trabalhos de E. M. de Melo e Castro (bastaria lembrar o seu ensaio de cariz combinatório, A proposição 2.01, de 1965, ou, em Álea e Vazio, de 1971, a colocação, como hipótese criativa, de um algoritmo literário), de Ana Hatherly (desde as séries do Anagramático, de 1970, até ao mais recente Rilkeana, de 1999) e até de Alberto Pimenta.

  • Textos de E. M. de Melo e Castro originalmente publicados em Álea e Vazio (1971) e retextualizados em XML (2014), usando o Poemário.js (2014).

O programa Sintext, publicado em 1996 no livro electrónico Teoria do Homem Sentado, tornou-se entretanto a ferramenta de trabalho do autor, correspondendo já a uma espécie de migração, ou pelo menos tradução, para a linguagem de programação C++, dos algoritmos feitos em BASIC atrás referidos. Este sintetizador, com melhoramentos em relação às versões anteriormente experimentadas nos programas Permuta e Texal, foi criado em colaboração com o Engenheiro Abílio Cavalheiro.

Mais tarde, na Teoria do Homem Sentado, alguns dos textos trabalhados por Pedro Barbosa foram reprogramados, em MS-DOS. O programa generativo que actualiza estes textos, publicado numa disquete numa versão em MS-DOS, contém um algoritmo de textos variacionais potencialmente infinitos, mas, além de ter sido programado num sistema hoje considerado em desuso, encontra-se ainda fechado em ficheiros binários, tornando-se assim indisponível para o leitor que o pretenda conhecer.

Reconhecendo esta limitação, Barbosa investiu em 2000 na criação de O Motor Textual, com a colaboração do Engenheiro José Manuel Torres, migrando o gerador textual Sintext para uma nova versão, Sintext-W, concebida a pensar nos computadores mais recentes e também na internet. Esta versão foi desenvolvida usando a linguagem de programação Java, a qual se mostra bastante mais maleável e aberta do que as anteriores.

Textos generativos  disponíveis >


Também o artista e poeta Silvestre Pestana, com formação em design e com participação em centenas de exposições de poesia experimental, pintura e arte interactiva, e que desenvolve o seu mais recente trabalho em ambientes virtuais colaborativos, como por exemplo o Second Life, foi um pioneiro, com a sua “Computer poetry”, título de uma série de poemas realizados em a partir de 1981.

Pestana realizou as primeiras versões monocromáticas da sua poesia de computador: a primeira dedicada a E. M. de Melo e Castro, a segunda a Henri Chopin e a terceira a Julian Beck. Trata-se de um trabalho de poesia visual dinâmica e generativa que, aparecendo um pouco descontextualizado e desamparado no ano de 1981, oferece ainda hoje pistas importantes para compreender a evolução da poesia visual para a poesia animada por computador.

Silvestre Pestana explica que "[a]s artes actuais da escrita reflectem cronologicamente o impacto inovador gerado pela divulgação sócio-cultural das novas máquinas de escrita tecno-visual." (1985: 203). No entanto, como também o próprio reconhece, "poucos são os artistas e operadores estéticos que atendem criticamente a esta mudança, a esta nova fronteira, a este novo «espaço verbo-fono-visual»..." (Pestana, 1985: 203)

A utilização e apropriação dos dispositivos tecnológicos do seu tempo feitas pelos poetas experimentalistas constituem uma atitude de deformação da tecnologia que não é feita no sentido de a elogiar ou criticar, mas como forma de "detournment" (situacionista) ou como "estranhamento" (a "ostranenie" de Shklovsky), condições necessárias a uma participação consciente e independente. Como expõe Pestana, "as forças sociais não tecnologificadas, estão imediatamente submersas e dependentes do seu usurpador tecno-volitivo, e irreversivelmente subjugadas a uma proletarização acelerada e depauperação em cadeia" (1985: 204).

Para Pestana, "... O público a que se destina a «vídeo-computer-poetry», já não é o público tradicional da cultura literária e livresca, mas o das multidões audio-tecno-visuais, já que o média, o vídeo-computadorizado tem como sua intrínseca finalidade a transmissão liberada instantânea universal e planetária..." (1985: 205)

Os trabalhos de Silvestre Pestana, por serem de base rizomática e não linear, por se caracterizarem pela expansividade e pela dispersão, exigem ainda um novo vocabulário crítico. Como, aliás, o próprio Pestana já previa: "A dinâmica própria das sociedades tecno-industriais obriga-nos a rever conceitos, práticas, preferências e a ter de repensar relações de causas e efeitos" (1985: 204).