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Revista Cibertextualidades - Introdução do primeiro número PDF Print E-mail
Written by Rui Torres   
Tuesday, 20 June 2006

Os autores que participam nesta publicação (Cibertextualidades - http://cetic.ufp.pt/cibertextualidades) fazem investigação numa área disciplinar que é atravessada, e contestada, por duas regiões do conhecimento. Transitando entre a tecnologia e a escrita, promovendo o estudo da cultura na hipermédia, tendo assimilado a relação entre arte e computador, eles testemunha(ra)m as fronteiras que sustentam as retóricas da especialização dos saberes e propõem agora pontes de diálogo, contribuindo desse modo para o debate recente das artes digitais. Além disso, fazendo da prática o método experimental da teoria que tentam assim edificar, apresentam aqui uma reflexão acerca das condições de existência dos textos cibernéticos que experimentaram, apontando o aparecimento de linguagens que, organizadas  num conjunto de novas características e modalidades, se configuram naquilo que apelidamos de cibertextualidades.

Ora, movimentar-se pelas artes tecnológicas é revisitar as tecnologias da escrita que reaparecem nas linguagens de programação, é investir num discurso interartístico legitimador da modalidade estética de conhecimento do mundo, é articular a teoria e a crítica na hipermédia enquanto modo de cognição totalizante do mundo. Por isso, pretende esta publicação unir uma reflexão acerca dos automatismos cibernéticos às textualidades que os sustentam. Não sendo tarefa fácil, visto aliar os sistemas de computação e a comunicação multimédia e hipermédia com a linguística, a história e a arte, tem-se revelado essencial o recurso à transdisciplinaridade, postura metodológica que vem sendo, aliás, alicerçada dentro da própria academia.[1]  Mas a postura interdisciplinar das cibertextualidades, por implicar o conhecimento e o domínio de aplicações informáticas e de linguagens de programação e, ao mesmo tempo, por requisitar a reflexão filosófica e uma correspondente classificação semiótica, foi deixando claro que só através de uma total reformulação dos curricula das Universidades serão criadas as condições necessárias para o exercício dessa nova linguagem que se insinua na arquitectura dos sistemas hipermédia.

Mais problematizante ainda, a prática da ciberliteratura e da hipermédia coloca-nos frequentemente face à iminência do desaparecimento da própria linguagem, à medida que o domínio da escrita verbal enquanto modelo único de legitimidade científica se desmorona. E é deste modo que o cruzamento da hipermédia com a arte e com o conhecimento científico nos tem surgido: como possibilidade de renovação dos discursos face ao império do signo multimediatizado. Interdisciplinarmente, parece-nos possível traduzir, nos dispositivos tecnológicos dessas escritas, as marcas das textualidades daí emergentes. E, por isso, admitem os autores representados nesta antologia, uma nova linguagem está a surgir, o que nos obriga a um estudo das suas condições de existência, suas potencialidades, suas realizações de transição.

É certo que um novo panorama se tem criado, nas últimas décadas, no Brasil e em Portugal – para referir desde já o diálogo trans-atlântico que também aqui pretendemos promover. Não estando alheios a esse cenário em mutação,[2] damos a conhecer a este novo público propostas em que estamos a trabalhar no domínio das textualidades electrónicas. E não apregoam estes ensaios o fim do livro: nem podiam – veiculam no papel, e não no píxel, as suas reflexões. No entanto, uma correcta compreensão do que aqui se discute dependerá também do acesso a CD-ROMs ou a páginas Web. Isto é, discutem-se aqui textos e trabalhos que apenas existem enquanto programas a executar, e portanto em estado virtual. E não se trata de edições electrónicas reproduzindo a estrutura do códice: interessa-nos investigar e interpretar as novas textualidades resultantes do cruzamento da escrita e do pensamento com a linguagem da computação e da hipermédia. Desse modo, julgamos ser possível avaliar, mas também experimentar, os limites e as fronteiras do aparato cognitivo que nos envolve, indo além de uma reflexão acerca do potencial de armazenamento e disponibilização da informação nas redes telemáticas e nas bases de dados. Pois as cibertextualidades que nos mobilizam possibilitam leituras sequenciais e múltiplas, onde (inter)ligação e (inter)conexão são condições para o exercício da criatividade e da crítica, mais do que outros aspectos práticos da racionalidade comunicativa e mercadológica. Em pleno caminho, o nosso objectivo será então contribuir para uma justificação dessa prática criativa, literária e científico-metodológica que é apresentada dentro dos modelos dos novos híbridos textuais, propondo metodologias de produção e avaliação do trabalho científico e artístico realizado em meio digital, e fazendo-o seguramente de encontro às necessidades de um público crescente.

Como já foi insinuado, este primeiro número das Cibertextualidades , e certamente os que o seguirão, tem a particularidade de reflectir a cooperação estabelecida entre dois Centros de Investigação que encontraram neste abraço de áreas disciplinares distintas uma vontade e uma história comum. Em Portugal, o CETIC-Centro de Estudos de Texto Informático e Ciberliteratura , fundado por Pedro Barbosa na Universidade Fernando Pessoa; no Brasil, o NuPH-Núcleo de Pesquisa em Hipermídia, Unidade de Investigação da PUC de São Paulo, coordenado por Sérgio Bairon. Os autores aqui apresentados têm estado ligados a esses Centros desde a sua origem. Pedro Barbosa e Pedro Reis, fundadores do CETIC, depositam na multidiscursividade ligada ao advento das novas tecnologias um estímulo para a criação de novos paradigmas textuais, investindo na poética e na poiética da geração automática do texto e da poesia animada por computador. Por seu lado, Sérgio Bairon e Luis Carlos Petry, do NuPH, têm visto na hipermídia uma metodologia interdisciplinar apropriada para o re-acesso interpretativo à psicanálise e à hermenêutica, acreditando nas possibilidades de constituição de um discurso científico hipermediático. O que todos eles têm em comum é a certeza de que uma melhor compreensão das mudanças que experimentamos pode apenas ser devidamente vislumbrada a partir de um envolvimento real na produção de ferramentas com os novos média digitais, e isso é o que têm feito nos últimos dez anos. 

A secção de Ensaios desta Revista começa com um ensaio de grande fôlego de Pedro Barbosa, fundamentado nas propostas novas que faz e clarificador na continuidade dada à sua teoria da ciberliteratura iniciada em 1977. Assim, Aspectos quânticos do Cibertexto propõe uma homologia entre o modelo quântico e a teoria do texto, encontrando dessa forma um modo novo de encarar a construção do sentido do cibertexto. Tomando por quânticos todos os textos múltiplos e generativos como aqueles que são produzidos pelo programa Sintext, de sua autoria, este ensaio permite-nos testemunhar o escritor e o investigador num movimento de compreensão e espanto face ao infinito campo de possibilidades combinatórias dos textos, procurando soluções inesperadas nos labirintos do sentido. Mas com esta designação metafórica – possivelmente incomodativa para alguns – das entidades quânticas para explicar as tipologias do texto, Pedro Barbosa acaba por realçar “a transposição que se faz desde a ordem mais profunda da organização do real para a ordem textual”, identificando desse modo uma dialéctica entre a virtualidade e a actualidade que o texto generativo também realiza.  Por isso, vê no surgimento do computador não só a realização dos pressupostos de toda a literatura algorítmica e combinatória histórica, como também uma nova proximidade epistemológica entre escrita e mundo, anteriormente ocultada. Como tem vindo a defender contra as utilizações da designação de ciberliteratura para classificar processos de mera remediação e transposição, o computador interessa-lhe na medida em que for utilizado como “máquina semiótica capaz de potenciar algoritmos (...) no domínio da complexidade.”

Sérgio Bairon tem no seu currículo vários produtos hipermédia interactivos de grande qualidade: artísticos, culturais, científicos. Além disso, escreveu vários artigos e livros acerca dos processos constitutivos do discurso hipermediático enquanto modalidade de conhecimento científico. Com essa experiência adquirida, tem vindo a constatar que a metodologia da ciência elege a matriz verbal da escrita como a grande representação do pensamento analítico reflexivo, monopolizando desse modo a formulação do juízo analítico. O que Bairon nos mostra em Tendências da linguagem científica contemporânea em expressividade digital , é que certas produções hipermediáticas levantam novos desafios à expressividade do pensamento científico. E, para Bairon, há hoje em dia legitimidade e enquadramento tecnológico para se desenvolver uma metodologia hipermediática de pesquisa científica, que sirva tanto para processos de produção quanto de avaliação do conhecimento científico. Partindo deste compromisso,  propõe a adopção de uma nomenclatura das classificações dentro das estruturas digitais, passível de aplicação aos temas teórico-metodológicos (em que define o argumento, o entorno e a relação entre programação de autoria e expressividades hipermediáticas) ou técnico-metodológicos (como o contexto das imagens e do áudio) da hipermédia. Para melhor expor a funcionalidade desta taxinomia, o autor faz uma leitura de vários trabalhos hipermédia de origem académica, propondo uma análise detalhada de Valetes in slow motion (Goifman), Hipermídia, psicanálise e história da cultura (Bairon e Petry),  Interzone (F. John) e Potsdamer Platz (Dietmar).

Pedro Reis tem procurado a literariedade e a poeticidade em textos animados interactivos, dedicando grande parte da sua atenção à produção da revista electrónica Alire. Para este autor, a progressiva complexificação do conceito de texto, que se articula agora num conjunto de apetências anteriormente imprevistas, como a mobilidade, a temporalidade, a multiplicidade e a interactividade, implica também um novo vocabulário teórico e uma nova postura crítica, e é precisamente isso que ele propõe no seu texto Novos terrenos para a expansão da textualidade . Partindo do reconhecimento de novas estratégias de leitura que inauguram esse espaço electro-estético,  Pedro Reis vê na interpenetração do legível, do visível e do audível uma linha de continuidade com a longa tradição do experimentalismo literário, e sua aproximação do intersemiótico e do não-linear. Por isso, não vê nesses cibertextos uma inovação em si, mas antes uma possibilidade de inovação. Nos exemplos que analisa, apresenta novas e esclarecidas leituras dessas cibertextualidades – uma animação interactiva de André Vallias, um poema animado de Ladislao Pablo Györi e as realizações do Sintext de Pedro Barbosa são aí detalhadamente e criteriosamente descritas. Estas análises levam o autor a concluir que não há “uma substituição da literatura dominante”, mas uma “ampliação da própria noção de literatura” e de texto.  Do mesmo modo, autor e leitor dos cibertextos vêem o seu papel enriquecido, e não silenciado.

Na secção Teses, publicamos neste primeiro número um excerto do trabalho de Doutoramento de Luis Carlos Petry, apresentado à PUC de São Paulo em 2003, no Departamento de Comunicação e Semiótica. Em sua Topofilosofia: o pensamento tridimensional na hipermídia, Petry desenvolve a premissa de Bairon segundo a qual “a hipermídia se constitui numa habitação digital que advém pelo construir”. Desse modo, faz uma justificação da hipermédia como uma nova linguagem, providenciando previamente uma investigação, que não pôde ficar aqui representada, onde alia a fenomenologia da Verdade e método de Gadamer com a psicanálise freudo-lacaniana. Mesmo assim, pareceu-nos que o excerto aqui publicado, As novas tecnologias e a hipermídia como uma nova forma de pensamento , seria representativo dessa proposta. Considerando como marco histórico do desenvolvimento das novas tecnologias o estabelecimento da proposta teórica do hipertexto, Petry verifica uma nova metodologia que põe em causa os fundamentos da produção teórica dominante, através de uma imitação da “organização associativa e reticular da memória e pensamento humanos”, mas erradicando o esquecimento, porquanto uma memória hipertextual estaria “livre dos avatares da limitação humana inerente à degradação da informação e ao seu esquecimento”, assentada que está na “infinita capacidade de armazenamento, organização e recuperação dos dados introduzidos.” Adicionalmente, para este autor de trabalhos em 3D que cruzam a psicanálise com a autoria digital, com o aparecimento da hipermédia estas transformações “tenderão a se radicalizar, tanto verticalmente como horizontalmente”. E, seguindo as teorias de Sérgio Bairon e Lúcia Santaella, promove a utilização de ferramentas de produção em autoria “como meio e igualmente como um de seus temas fundamentais.” Além das análises que faz dos trabalhos de Sérgio Bairon, em que também participou, nomeadamente A Casa Filosófica e Hipermídia, psicanálise e história da cultura, Petry explica ainda Sócrates no labirinto (Kolb), em todos eles encontrando uma comum preocupação com “a natureza da argumentação filosófica utilizando tais recursos e meio”.

Finalmente, na secção de Projectos, apresentamos dois projectos de Investigação em que membros do CETIC e do NuPH têm trabalhado. Ambos darão origem a publicações e encontros científicos, pelo que o diálogo com investigadores interessados está aberto. Só através desta transparência crítica poderemos entrar com alguma segurança no domínio aparentemente instável das Cibertextualidades.



[1] Para uma história do tema, ver Olga Pombo, Interdisciplinaridade: Ambições e Limites, Lisboa: Relógio d'Água, 2004. Através da página da autora na Internet <http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo> é possível aceder a excertos deste texto, bem como outros artigos ensaiando uma epistemologia da interdisciplinaridade.

Sérgio Bairon também tem trabalhado com este tema, principalmente na sua relação com a hipermédia. Para isso, ver Bairon, Interdisciplinaridade: educação, história da cultura e hipermídia, São Paulo: Futura, 2002.

[2] Destacam-se, em Portugal, as contribuições da Revista Nada <http://www.nada.com.pt/>, o Ciberscópio <http://www.ciberscopio.net/>, a DigLitWeb (Literatura Digital) <http://www.uc.pt/diglit/>, o projecto Enciclopédia e Hipertexto <http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/>, o projecto 'Tendências da Cultura das Redes em Portugal' <http://www.projecto-redes.com.pt/>, a Revista Interact <http://www.interact.com.pt/> e algumas publicações do extinto Ciberkiosk. No Brasil, de salientar o grupo de pesquisa Artecno <http://artecno.ucs.br/>, o Centro de Estudos e Pesquisa em Cibercultura <http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/>, o Centro de Investigação em Mídias Digitais <http://www.pucsp.br/~cimid/>, o Estúdio de Poesia Experimental <http://www.pucsp.br/pos/cos/epe/>, o Núcleo de Pesquisas em Informática <http://www.cce.ufsc.br/~nupill/> e o Grupo de Trabalho “Criação e Poéticas Digitais”.

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