A Ciberliteratura, também denominada literatura algorítmica, generativa ou virtual, designa aqueles textos literários cuja construção assenta em procedimentos informáticos: combinatórios, multimediáticos ou interactivos.
Para Pedro Barbosa [http://cetic.ufp.pt/lgc.htm], "[o] conceito de ciberliteratura (sentido restrito) surge em concomitância com outras designações (geração automática de texto, literatura algorítmica, literatura generativa, texto virtual) e propõe-se utilizar as potencialidades do computador como máquina criativa para o desenvolvimento de estruturas textuais, em estado virtual, actualizando-as até ao infinito. (...) Na Ciberliteratura o computador é utilizado, de forma criativa, como manipulador de signos verbais e não apenas como simples armazenador e transmissor de informação."
A Ciberliteratura distingue-se assim da Literatura digital(izada), constituindo esta uma hipertextualização de estratégias textuais pé-existentes, em que se verifica uma transição do papel para o pixel em termos meramente técnicos, e ficando aquela dependente de uma construção cibernética ou hipermediática que promove novos modos de escrita e de leitura.
Continua Pedro Barbosa: "O uso criativo do computador varia consoante as potencialidades gerativas do algoritmo introduzido nos programas: tais programas assentam normalmente num algoritmo de base combinatória, aleatória, estrutural, interactiva ou mista. Na Ciberliteratura o computador funciona como "máquina aberta", ou seja, uma máquina em que a informação de entrada ou input é diferente da informação de saída ou output. O computador no seu todo (hardware mais software) equivale a uma "máquina semiótica", criadora de informação nova, o que se traduz numa alteração profunda em todo o circuito comunicacional da literatura - no que concerne à criação, noção de texto, suporte e circulação da mensagem. (...)"
A Ciberliteratura, ou literatura gerada por computador, promove deste modo a experimentação, e o jogo, recriando profundamente conceitos de texto e interpretação.
A Ciberliteratura labora na senda das vanguardas históricas e dentro do espaço inaugurado pelo experimentalismo universal e intemporal da escrita, da imagem e do som. Por isso, além dos textos gerados por motores e algoritmos de programação, é importante avaliar também as consequências que as tecnologias digitais e multimédia, bem como as condições estruturais das redes telemáticas, têm enquanto canal e contexto em que se refazem a poesia, a prosa e o teatro.
De facto, o meio digital, apresentando-se como um campo vasto de possibilidades para a interligação dinâmica de elementos previamente dispersos, onde esse tecido de citações e espaço de dimensões múltiplas se materializa, engendra-se ao nível do experimentalismo literário como uma ferramenta de ampliação de espaços e reconfigurações do pensamento.
Pedro Reis [http://cetic.ufp.pt/pac.htm] explica por isso que "[a] era da informática que hoje atravessamos abre novas perspectivas à relação texto-imagem-som, particularmente no que podemos designar como literatura electrónica, tendência que tem vindo a constituir-se com base na utilização criativa de novos suportes e ambientes que resultam de desenvolvimentos tecnológicos aplicados ao domínio da comunicação. A poesia animada por computador, que introduz novas componentes no domínio da textualidade, como o movimento, a temporalidade ou a interactividade, é uma das tendências que resulta da utilização criativa do computador para fins literários. (...) Com o computador a assumir um papel preponderante como ferramenta para a informação, a expressão e o conhecimento, não surpreende que poetas e escritores tenham revelado interesse em utilizá-lo como ferramenta auxiliar na criação literária."
A categoria de uma poesia animada por computador, de tradição europeia via Balpe e Vuillemin, é também apelidada de poesia digital, ciberpoesia ou poesia electrónica.
Jorge Luiz Antônio (2001). Alguns aspectos da poesia digital. In: XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação - INTERCOM. [http://www.intercom.org.br/papers/xxiv-ci/np08/NP8ANTONIO.pdf]
Carlos Correia [http://carloscorreia.net/pt/framesets/frameset_cibertextos_pt.html] propõe que "[a] diferença entre ciberliteratura e livros electrónicos assenta na génese respectiva: enquanto os e-livros (ou livros electrónicos) são essencialmente produto da migração de obras existentes no suporte atómico que - mutatis mutandis - passam também a ser lidas no suporte digital, a ciberliteratura é um género novo, construído sobre uma matriz digital, hipertextual e, eventualmente, hipermediática. (...) A composição caleidoscópica de um dado número de textos entretecidos em ordens múltiplas de leitura(s) é uma forma nova de tecer teias complexas de estórias dentro de uma história, cujo potencial macrocósmico pode ser infinito. (...)"
Estas perspectivas implicam que não sejam aqui considerados trabalhos com as seguintes características: hiperedição, ebooks, poesia, conto ou romance que apenas utiliza a Internet como meio de divulgação e/ou armazenamento (ver Projecto Vercial ou DigLitWeb para esse género de base de dados e respectivo estudo e análise), poesia visual ou concreta (ver Projecto da PO.EX ou UBU Web para estudar a poesia experimental).
Não subavaliando a importância das tecnologias informáticas na transição fracturante que observamos do papel ao pixel, pretendemos inventariar APENAS trabalhos concebidos exclusivamente em meios computacionais. A Ciberliteratura trabalha na senda das vanguardas históricas e dentro do espaço inaugurado pelo movimento experimentalista.
Para uma análise mais aprofundada da literatura digital não-interactiva, leia os seguintes textos:
Para Manuel Portela [http://www.ciberscopio.net/artigos/tema2/clit_05.html] trata-se de duas manifestações distintas na ciberliteratura. A aproveitar a sua proposta, este Portal da Ciberliteratura dedica-se exclusivamente ao estudo da hiperescrita: "(...) [ p]or um lado, o trajecto definido pela transposição de formas bibliográficas para o meio digital, em particular através de edições electrónicas e de arquivos em linha de obras do património literário passado; por outro lado, o trajecto definido pela utilização dos recursos do ambiente digital (plataformas, aplicações, formatos de ficheiro e outras variáveis computacionais) para a produção literária. Para tornar mais simples seguir o meu argumento, designarei a primeira manifestação de ciberliteratura como hiperedição, e a segunda como hiperescrita. (...)."
Face a uma certa indefinição na escolha dos rótulos mais apropriados para entender estes novos fenómenos textuais, várias propostas foram sendo feitas. Jorge Luiz Antônio (2004) apresenta uma lista de termos e designações a que chamou de "Categorias da Poesia Electrônica", e onde menciona e explica a poesia artificial cibernética, a poesia-computador, a infopoesia, a poesia-rede, etc, etc. Para isso, leia